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08 junho, 2012

Na frente do Espelho

No espelho, olhos nos olhos, reconheço três inimigos em minha alma. Eu os encaro, mas sei: há tempo eles me espreitam desde as esquinas das madrugadas insones. Crio coragem para chamar os três adversários pelo nome: fracasso, impotência e culpa.

Fracasso é sentimento, não constatação. Não é necessária qualquer derrota para alguém se sentir fracassado. Portanto, sentimento de fracasso vem com o destreino de lidar com inadequações. Depois de décadas absorvendo um discurso de perfeição, sofro desse sentimento. A minha fraqueza parece maior do que realmente é. Sem ter acertado alvos, o peso de incontáveis erros agride. Demandas religiosas, familiares ou sociais deixam qualquer um arfando. A fadiga de ter que dissimular inaptidões sulca rugas profundas.

Continuo calouro, desafino a melodia da vida. Piso na bola. Perco belos gols a poucos metros da trave. Se me entrevistarem sobre convicções, sei, vou gaguejar. Faço meu caminho, mas tropeço nos cadarços soltos. Obrigado a ouvir todos os dias um discurso de perfeição, arquejo. Não galguei os degraus da piedade.
Sobram pregadores da culpa, especialistas em conscientizar qualquer um sobre as exigências divinas. Só agora entendo as pessoas que frequentam alguma religião porque gostam de se constrangerem com suas imperfeições.

Diante do espelho, despedaço o ícone que tentaram fazer de mim. Não alimento o mito. Aconselho a alma a permanecer comum. Lembro a mim mesmo que nenhuma máscara pode ficar grudada na cara quando eu estiver só.

Os anos passaram. Agora, mais do que nunca, vejo-me obrigado a admitir impotência. E a me despir do desempenho dos ungidos – ainda não aprendi a decretar milagre com a eficiência de muitos sacerdotes.

Depois de anos lidando com manifestações de poder espiritual, quero fugir da tentação de encabrestar o próximo. Depois que falei, preguei e ensinei tenho que admitir: os meus argumentos não passavam de discurso. Para muitos, falhei em convencer.

Vai chegando ao fim a minha alucinação de inteligência. Que bobagem imaginar-me genial. Nada me chegou fácil. Aprendi devagar. Continuo esquecendo o que decoro. Saber muito nunca me ajudou na perspicácia. Fui bronco na hora de antecipar incidentes. E não soube proteger as costas das conspirações armadas para me destruir. Não intui o desenrolar dos fatos mais cruéis.

Ensinaram que erros passados voltam como bumerangue. Eu sei: o objetivo da ameaça é manter as pessoas boas. Mas, se transgredi a lei e ofendi a Divindade, suspeito que alguns consideram a minha grave punição. Também me ensinaram: “se a maldade dos outros for grande, saiba, você é pior; quanto mais cabisbaixo você andar, maior será sua disposição de penitenciar-se; e quanto maior a penitência, mais alegria no céu”.  Hoje desconfio desse discurso.

Depois que admito fracasso, impotência e culpa, faço as pazes comigo mesmo na solidão do espelho. Pergunto sozinho: quem subiu o sarrafo tão alto? De onde veio a possibilidade de controlar as variáveis da existência? Qual o sentido terapêutico da culpa? Autocomiseração serve a quais interesses?

Não preciso desempenhar para ser aceito – quem mente para si mesmo nunca será livre. Não quero ser perfeito – despistar sentimento só apequena a vida.

Ergo a cabeça. Meu valor não depende de cumprir roteiros alheios. Pisoteio o sentimento de fracasso. Procuro desdenhar os acenos da vaidade. Faço de tudo para transformar a culpa em aliada.

Soli Deo Gloria 

30 maio, 2012

Por que a vida é breve

Porque a vida é breve me deixo atrair pelo insólito. E com ele, desperto a coragem de correr riscos. Cito Rubem Alves: “Os homens buscam a segurança para fugir da morte. Eles não sabem que a segurança é a morte em vida”. Noto os dias desaparecerem em nacos semanais. As semanas se diluem em meses. Os meses se esfarelam em anos. E os anos se acabam nas décadas. Inconformado com a ladeira do tempo, não permito que a vida despenque em direção ao nada. Se o relógio acelera na loucura do dia a dia, canto com Lenine:

“Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa

A vida é tão rara….”

Porque a vida é breve crio coragem de visitar o passado. Revejo a Gentilândia com todos os meus amigos. Olho para a professorinha de matemática. Pobre mulher, se esforçou muito para que eu aprendesse equação de segundo grau! Mas eu só tinha olhos para a geometria do seu corpo. Enlaço a eternidade para reviver aqueles tempos verdes, inocentes.

Porque a vida é breve tenho ganas de recuperar os livros que nunca me interessei. Diferencio a boa e a má literatura. Redescubro Machado de Assis; e guardo uma lição de Memórias Póstumas de Brás Cubas: a hipocrisia social, de tão avassaladora, só permite honestidade se escrevermos nossa biografia depois de mortos. Sorvo a sabedoria de outros autores. Gente com a genialidade de Graciliano Ramos (o velho Graça) ensina que miséria condena as pessoas a viverem como cadelas – a Baleia, de Vidas Secas. Leio e releio Fernando Pessoa, meu poeta predileto. Em sua angústia existencial, sinto-me convidado a enfrentar as minhas inquietações, mesmo correndo o risco de gerar desespero mais intenso.

Porque a vida é breve intensifico meu amor pela Silvia Geruza, minha mulher. Partilho sonhos com o Villy, meu genro. Peço a Deus boa saúde para acompanhar o crescimento do Naran, do Felipe e da Gabriela, meus netos. Celebro semelhanças e diferenças entre Carolina, Cynthia e Pedro, meus três filhos.

Porque a vida é breve mantenho a disciplina de correr. Suo até ensopar camiseta, calção e tênis. Mesmo anônimo entre milhares, repito a emoção de me sentir um vencedor nas maratonas.

Porque a vida é breve reverencio aqueles que me anteciparam na eternidade. Eu ainda os amo com a dor de uma saudade intermitente. Zelo pela carteira de atleta do papai quando jogava no Corinthians. Decoro a parede de meu escritório com o poema triste que mamãe escreveu, e imprimiu do tamanho de um pôster. Guardo o olhar paradoxalmente forte e melancólico da mulher que me amamentou.

Porque a vida é breve aprendo o paladar do vinho. Provo novos pratos. Escuto música prenhe de poesia. Aguardo os dias de lua imponente. Cheiro meu travesseiro; e, no quarto, sussurro: “sou rei deste espaço inviolável”.

Porque a vida é breve busco entender o que é íntegridade. Anseio me manter fiel ao amigo e bom com o desconhecido. Tento ser terno com os tropeços alheios. Enfrento a injustiça. Saúdo os pacificadores – eles têm o privilégio de serem chamados filhos de Deus.

Porque a vida é breve carrego uma aljava no coração. Guardo nela, coisas que embelezam os meus olhos: a delicadeza das flores, a leveza dos colibris, a folia dos golfinhos, a calma do jabuti, a imponência dos carvalhos e a valsa das marés.

Porque a vida é breve antecipo o momento em que hei de cerrar os olhos. Para aquele derradeiro instante, anelo acreditar que meus piores inimigos serão discretos – que suspirem um simples “Foi-se, então?” ao receberem a notícia fatal. Desejo partir tendo meus filhos do lado. Sei que o olhar amoroso, e sempre perdoador, de minha mulher me dará coragem para atravessar o temido rio.

Porque a vida é breve reafirmo que, tanto na beleza como na crueldade da história, sou crente. Eu creio na vida.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

11 fevereiro, 2011

Deus nos livre de um Brasil evangélico

Começo este texto com uns 15 anos de atraso. Eu explico. Nos tempos em que outdoors eram permitidos em São Paulo, alguém pagou uma fortuna para espalhar vários deles, em avenidas, com a mensagem: “São Paulo é do Senhor Jesus. Povo de Deus, declare isso”.

Rumino o recado desde então. Represei qualquer reação, mas hoje, por algum motivo, abriu-se uma fresta em uma comporta de minha alma. Preciso escrever sobre o meu pavor de ver o Brasil tornar-se evangélico. A mensagem subliminar da grande placa, para quem conhece a cultura do movimento, era de que os evangélicos sonham com o dia quando a cidade, o estado, o país se converterem em massa e a terra dos tupiniquins virar num país legitimamente evangélico.

Quando afirmo que o sonho é que impere o movimento evangélico, não me refiro ao cristianismo, mas a esse subgrupo do cristianismo e do protestantismo conhecido como Movimento Evangélico. E a esse movimento não interessa que haja um veloz crescimento entre católicos ou que ortodoxos se alastrem. Para “ser do Senhor Jesus”, o Brasil tem que virar "crente", com a cara dos evangélicos. (acabo de bater três vezes na madeira).

Avanços numéricos de evangélicos em algumas áreas já dão uma boa ideia de como seria desastroso se acontecesse essa tal levedação radical do Brasil.

Imagino uma Genebra brasileira e tremo. Sei de grupos que anseiam por um puritanismo moreno. Mas, como os novos puritanos tratariam Ney Matogrosso, Caetano Veloso, Maria Gadu? Não gosto de pensar no destino de poesias sensuais como “Carinhoso” do Pixinguinha ou “Tatuagem” do Chico. Será que prevaleceriam as paupérrimas poesias do cancioneiro gospel? As rádios tocariam sem parar “Vou buscar o que é meu”, “Rompendo em Fé”?

Uma história minimamente parecida com a dos puritanos provocaria, estou certo, um cerco aos boêmios. Novos Torquemadas seriam implacáveis e perderíamos todo o acervo do Vinicius de Moraes. Quem, entre puritanos, carimbaria a poesia de um ateu como Carlos Drummond de Andrade?

Como ficaria a Universidade em um Brasil dominado por evangélicos? Os chanceleres denominacionais cresceriam, como verdadeiros fiscais, para que se desqualificasse o alucinado Charles Darwin. Facilmente se restabeleceria o criacionismo como disciplina obrigatória em faculdades de medicina, biologia, veterinária. Nietzsche jazeria na categoria dos hereges loucos e Derridá nunca teria uma tradução para o português.

Mozart, Gauguin, Michelangelo, Picasso? No máximo, pesquisados como desajustados para ganharem o rótulo de loucos, pederastas, hereges.

Um Brasil evangélico não teria folclore. Acabaria o Bumba-meu-boi, o Frevo, o Vatapá. As churrascarias não seriam barulhentas. O futebol morreria. Todos seriam proibidos de ir ao estádio ou de ligar a televisão no domingo. E o racha, a famosa pelada, de várzea aconteceria quando?

Um Brasil evangélico significaria que o fisiologismo político prevaleceu; basta uma espiada no histórico de Suas Excelências nas Câmaras, Assembleias e Gabinetes para saber que isso aconteceria.

Um Brasil evangélico significaria o triunfo do “american way of life”, já que muito do que se entende por espiritualidade e moralidade não passa de cópia malfeita da cultura do Norte. Um Brasil evangélico acirraria o preconceito contra a Igreja Católica e viria a criar uma elite religiosa, os ungidos, mais perversa que a dos aiatolás iranianos.

Cada vez que um evangélico critica a Rede Globo eu me flagro a perguntar: Como seria uma emissora liderada por eles? Adianto a resposta: insípida, brega, chata, horrorosa, irritante.

Prefiro, sem pestanejar, textos do Gabriel Garcia Márquez, do Mia Couto, do Victor Hugo, do Fernando Moraes, do João Ubaldo Ribeiro, do Jorge Amado a qualquer livro da série “Deixados para Trás” ou do Max Lucado.

Toda a teocracia se tornará totalitária, toda a tentativa de homogeneizar a cultura, obscurantista e todo o esforço de higienizar os costumes, moralista.

O projeto cristão visa preparar para a vida. Cristo não pretendeu anular os costumes dos povos não-judeus. Daí ele dizer que a fé de um centurião adorador de ídolos era singular; e entre seus criteriosos pares ninguém tinha uma espiritualidade digna de elogio como aquele soldado que cuidou do escravo.

Levar a boa notícia não significa exportar uma cultura, criar um dialeto, forçar uma ética. Evangelizar é anunciar que todos podem continuar a costurar, compor, escrever, brincar, encenar, praticar a justiça e criar meios de solidariedade; Deus não é rival da liberdade humana, mas seu maior incentivador.

Portanto, Deus nos livre de um Brasil evangélico.

Ricardo Gondim

07 dezembro, 2010

Sonhos e utopias (im)possíveis

Morre mais um ano. Parecidíssimo com os demais, os meses desta década vieram marcados por tragédias que se misturaram com poucas alegrias. Rio de Janeiro e Haiti se misturaram às dores dos alagoanos. O sofrimento de tantos miseráveis clamou em alto e bom tom: a humanidade não pode esquecer-se de que o preço de um possível descontrole ambiental será altíssimo. O conflito iniciado pelo Ocidente, que tenta esvaziar a agenda fundamentalista muçulmana, parece não ter fim. Mais uma vez a história lembra que é mais fácil começar uma guerra que terminar.

Com a queda de alguns mitos da modernidade, o mundo padece de uma enxaqueca histórica. Não se acredita mais no progresso sem limite nem na agenda consumista do neoliberalismo. Sobrou uma ressaca, que imobiliza os ideais e as ações transformadoras da história; ressaca que alguns chamam de pós-modernidade. Se a alternativa da alienação não convém, parece que não há vigor para sonhar na reconstrução de outro mundo possível. Porém, sonhar é preciso. Nossos filhos e filhas não merecem herdar um mundo onde impera o desdém.

Trabalhemos pelo alvorecer de um novo dia em que os rios não poluam os oceanos; os peixes não morram asfixiados em águas podres; o raiar do sol seja menos abrasador, pois homens e mulheres conscientes restauraram as camadas estratosféricas porque adquiriram uma nova consciência ecológica. Aguardemos o dia em que novas leituras do Gênesis devolvam a humanidade à sacralidade do jardim e todos se comprometam a cuidar da criação, recompondo a natureza, que geme devido à insanidade do pecado.

Trabalhemos pelo despontar de um novo tempo em que se acabarão as fronteiras entre países, os muros étnicos e as cancelas rodoviárias; em que nos guichês de passaporte o pobre não seja impedido de procurar fugir de sistemas iníquos e o doente encontre o hospital que salvará a sua vida.

Trabalhemos pelo futuro quando espadas serão transformadas em arados. Procuremos ressignificar a esperança de que os bilhões de dólares gastos com armas e bombas sejam relocados em tratamento de esgoto, que aumenta a expectativa de vida de milhões de crianças. Repitamos: é possível acreditar que as fortunas desperdiçadas em cassinos sejam úteis em pesquisa pela erradicação da malária. Esforcemo-nos por esboçar outra realidade, em que se considera inadmissível uma bolsa custar mais que dois anos de salário de um operário.

Trabalhemos para que surjam muitas Madres Teresa de Calcutá em diversos continentes, todas empenhadas em acolher os moribundos. Sonhemos com mais profetas como Martin Luther King -- e que eles não sejam exceção rara. Concebamos que as penitenciárias políticas serão implodidas e que ninguém jamais seja preso por pensar diferente. Criemos um mundo em que os instrumentos de tortura se tornem peças macabras de museu e que não reste nenhuma ilha onde se maltrata outro ser humano em nome de ideologia, religião ou regime político.

Trabalhemos para que deixem de existir corregedorias, grampos telefônicos e espiões e que seja proibido bisbilhotar a privacidade das pessoas. Contribuamos para que o mundo se liberte das delações traiçoeiras contra o próximo. Convençamos os nossos filhos que é dever de todo homem e de toda mulher proteger o seu irmão. Esforcemo-nos para que os orfanatos não precisem manter as crianças por muito tempo porque as filas de adoção se multiplicaram; também, que os idosos nunca fiquem esquecidos em clínicas, à espera da morte.

Trabalhemos para que se multipliquem as orquestras e que os prefeitos construam coretos em todas as praças; e que as famílias se reúnam nos fins de semana para ouvir a apresentação vespertina de música. Não deveria ser considerado um delírio esperar que se projetem bons filmes em vilarejos e em cidades remotas. Oxalá bibliotecas ambulantes distribuam poesia para os tristes e boa literatura para os sonhadores; que escolas treinem bons malabaristas para a alegria das sextas-feiras e que mais trapezistas desafiem a gravidade nos picadeiros.

Trabalhemos para que os experimentos com células-tronco deem certo, e que muito em breve os tetraplégicos sejam curados e saltem como gazelas pela vida. Incentivemos quem trabalha no Projeto Genoma; e que eles terminem de mapear a estrutura da vida biológica para que se reduza o número de crianças com doenças genéticas.

Trabalhemos para que o turismo sexual seja banido e extinto entre os povos; que a pedofilia se torne um anacronismo; que se desarticulem os cartéis de droga -- o tóxico tem que parar de ceifar vidas, já que, um dia, pouquíssimas pessoas precisarão entorpecer a mente para tolerar a vida; os êxtases virão do encontro com a beleza, a bondade e a solidariedade.

Trabalhemos por um novo céu e uma nova terra. Todavia, reconheçamos que esse porvir não acontecerá enquanto a humanidade tolerar o pressuposto da sobrevivência do mais forte, ou da exclusão racial e da discriminação social. Optemos pelo legado de sabedoria que nossos pais nos deixaram, que nos convoca a construir a história. Incumbidos por Deus de promover o bem, represar o mal e disseminar a justiça, acreditemos que o futuro chegará de acordo com a semente que plantarmos no presente.

O futuro que ansiamos nascerá tanto de nossas mãos como de nossos ouvidos. Primeiro, ouçamos as verdades e os princípios eternos que Jesus nos ensinou. Depois, arregacemos as mangas. A vida espera por nós. Nossos filhos e netos não podem correr o risco de sermos negligentes ou apáticos. Qualquer hesitação pode redundar em desastre. Já é tarde!

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

18 novembro, 2010

O rosto de Deus

Rafael, Michelangelo e vários outros pintores tentaram retratar o rosto de Deus. Foram infelizes. Como mostrar na tela quem nunca foi visto? Com a proximidade do Natal, mais artistas procuram esboçar o que imaginam ser o rosto de Deus.

Ele se parece com uma criança? É o frágil bebê das manjedouras? Talvez; o reino do céu pertence aos pequeninos, aos que mamam. Ao tentar desenhar o mistério, o artista termina com um ídolo.

O rosto de Deus, entretanto, pode ser experimentado nos sem-teto que perambulam pelas ruas e dormem nos viadutos das grandes cidades. Quando Jesus nasceu, a família estava sem moradia certa, não possuía recursos para pagar uma hospedaria e viu-se obrigada a refugiar-se em um estábulo.

O rosto de Deus pode ser percebido em vítimas de preconceito e em injustiçados. Sobre o menino que nasceu em Belém pairou uma dúvida: ele era de fato filho de José? O casal não inventara aquela história toda para se safar de um rolo?

O rosto de Deus se revela nos desprezíveis, nos que foram condenados à margem da história. Quando o menino nasceu, ninguém notou ou escutou o alarido dos anjos. A trombeta que anunciou paz na terra pela boa vontade de Deus passou desapercebida da grande maioria. Apenas um punhado de pastores foi sensível para presenciar o momento mais importante da história.

Qual o rosto de Deus? Ele não se parece com os cartões postais ou com o menino de barro das lapinhas. Deus é igualzinho a Jesus. E Jesus é bem parecido com o vizinho do lado, com a mulher que pede socorro na delegacia do bairro e com a família que chora a morte do filho no corredor do ambulatório.

Não é preciso muito para encontrar Deus, basta um coração de carne, humano.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

06 maio, 2010

Há consolo no luto?

Ao abraçá-la, senti seu corpo magro. Notei que seus olhos baços me contemplavam sem entusiasmo. Na primeira palavra, percebi a voz quebrada de uma mulher sofrida. Eu imaginava, mas não alcançava a angústia que minha amiga atravessava. Ela experimentava a hora mais dolorida e mais terrível da existência: a hora do luto.

A morte é sorrateira, insidiosa, traiçoeira. Alguns, desenganados, recebem o bilhete fatal e dispõem de tempo para arrumar a casa antes da partida. Mas para minha amiga a guilhotina desceu sem aviso. A morte não respeitou sequer possíveis imaturidades de sua alma; serpenteou, deu o bote, feriu e carregou quem escolheu. O que dizer, diante de uma mãe que chora, de uma esposa que perdeu o chão e que não sabe mais se terá forças para achar um norte?

As respostas aparentemente confortadoras se esvaziam. “Deus tem um plano”; “Ele leva para si os bons”; “Chegou a hora”. Tais frases, funcionam como aspirina que alivia sem curar o problema. Em um esforço medonho de não parecer professoral, procurei oferecer-lhe outro modelo de como perceber os atos misteriosos de Deus. Mas logo notei que meu esforço era inútil. Minha amiga esperneava dentro da cerca teológica que fora educada. “Deus governa e como um dramaturgo celestial, conduz o desenrolar de nossas vidas. Deus não permite que nada aconteça sem que esteja previsto em seu roteiro”.

Silenciei, abraçado. Depois, voltei ao hotel e chorei. Por horas não consegui apagar o sofrimento daquela mãe. Além de ter que aprender a repetir a litania fúnebre do “nunca mais”, ela terá de brigar com o seu Deus. Que tristeza! Deitado, insone, escutei sua indignação lacerante: “Por que Deus é tão obscuro em seus planos? Por que, tão indiferente? Vou ter que esperar quanto tempo até entender seus motivos para levar (“levar” não passa de um pobre eufemismo para “matar”) um pai precioso, um amigo querido, um filho especial?”. Debulhei-me em lágrimas.

A morte baterá em outras portas e continuará a subtrair vidas. Não distinguirá justos de injustos. Traficantes viverão mais que mulheres bondosas. Pais enterrarão seus filhos, quando o certo deveria ser o contrário. Acidentes eliminarão de uma só tacada, jovens e idosos. Os amigos de Jó erraram nas conjecturas sobre o sofrimento universal. O justo Jó via-se arrasado por todo tipo de infortúnio, mas eles continuavam sem a menor idéia dos porquês. Não, não me arvoro a decifrar o enigma dos enigmas.

Contudo, prefiro a revelação bíblica de um Deus que não é um títere a puxar cordões de marionetes. Chamo-o de Emanuel: O Deus presente em nós. Jesus encarnou e viveu a sua humanidade até as últimas consequências. Semelhantes a ele, no espaço de nossa liberdade, também estamos cercados de perigos, e sempre à beira do derradeiro suspiro. Deus não arbitra quem morre e quem vive segundo critérios inacessíveis, mas se compromete a revelar seu amor quando o soluço da perda for asfixiante. Deus se mostra em cada abraço, em cada palavra de solidariedade e em cada gesto de lealdade. “A nossa dor dói em Deus”, disse Isaías. Sim, Deus é cheio de compaixão - Segundo as duas raízes de "com-paixão", Deus “sofre junto”.

Nada sei e nada posso especular sobre a morte, mas minha intuição avisa que reconhecer a companhia fiel de Deus traz mais conforto do que ficar questionando o porquê.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

20 março, 2010

O Rei

Depois de sofrer meticulosa tortura, pendurado numa cruz, ele agonizava. Nos estertores, a morte se prenunciava eminente. A cena era grotesta, horrorosa, nauseante. Espasmos balançavam seu corpo; o sangue jorrava das incontáveis feridas abertas por chicotes, tapas, chutes e cordas amarradas aos pulsos. Os olhos embaçados mal se mexiam nas órbitas semi cerradas por hematomas.

O mal cheiro do lixo que ardia no monturo se misturava com os suor da multidão enfurecida. Os gritos não paravam; não se entendia o que a turba dizia. Choro, raiva, consternação, típicos do frenesi de massas irracionais, davam a sensação de que aquele momento se tornaria o mais exuberante e trágico exemplo da bestialidade humana.

Dois bandidos o ladeavam. Em julgamento sumário, a sentença capital fora confirmada de acordo com os ritos da época. Soube-se que um dos apenados era Dimas, assassino confesso flagrado em ato terrorista. Na noite que antecedeu a execução, Dimas não conseguira dormir. Como um animal selvagem, andou ao redor da estreita jaula. Dimas foi e veio mais de uma centena de vezes à espera do sol que testemunharia sua morte.

Era escuro quando ele escutou soldados zombando. A tropa repetia em cada soco alguma provocação. “Realize um milagre e prove que é o Messias”; “Você disse que os anjos estariam ao seu dispor, pois vamos ver se as hostes celestiais são mais poderosas do que a cavalaria romana”. Pontapés ensurdecedores, ecoavam pelos corredores da prisão. A noite foi insone.

Cedo, bebeu dois dedos d’água e Dimas foi arrastado pelos corredores mal iluminados da masmorra. Com violência, chegou à calçada onde outros dois sentenciados o esperavam. Dimas identificou o menos musculoso como o castigado da véspera.

A procissão começou. Trôpegos, os três caminharam por vielas mais tarde conhecidas como Via Dolorosa. Agora, súbitos companheiros de infortúnio, eles mal conseguiam carregar a trave que os mataria. Duzentos metros antes de sairem pelos portões da cidade, Dimas perguntou o nome do mais castigado.” Jesus”, respondeu. Faltava fôlego; a fatiga não lhe deixou continuar. Mas, tomando ar, emendou: “Sou Jesus, de Nazaré”.

Dali em diante, devido aos pedregulhos da estrada, Jesus não conseguia levantar-se. Os soldados se revezaram nos açoites para que ele se erguesse de um salto e prosseguisse. Queriam encurtar a liturgia que os romanos usavam para intimidar o mundo antigo : crucificar.

Dimas notou quando os soldados constrangeram um peregrino para que carregasse o fardo do Nazareno, que depois passou a seguir, cabisbaixo, a marcha soturna.

As estacas cairam nos buracos recém cavados. Os corpos pesaram e as mãos esgarçaram. Não sobrava esperança para os três condenados. Dimas conseguiu fazer um último pedido: “Jesus, lembra-te de mim, quando entrares no teu Reino”.

Hoje, passados tantos séculos continuo a perguntar: “O que Dimas viu em Jesus para acreditar que ele era rei? Como conseguiu classificar um trapo humano de monarca? Os imperadores tem autoridade, mas o Nazareno estava reduzido a pó. Se fosse rei não seria refém de uma soldadesca tão ordinária. Dimas delirava ao chamar de rei um homem morimbundo?".

Não, Dimas percebeu que Jesus era rei de outra espécie. Sem a ostentação comum aos soberanos, ele impressionava pela grandeza de não querer apelar para qualquer intervenção sobrenatural que vingasse a mensagem que ensinara. A elegância de não revidar, a grandeza de perdoar e a consciência de que era amado apesar das circunstâncias, faziam dele um monarca digno de ser seguido. Jesus haveria de inaugurar um reino diferente de todos os que já existiram. Ele seria rei das crianças, dos mansos, dos que choram, dos puros de coração, dos misericordiosos.

Dimas quis participar de seus domínios onde paz e justiça se beijariam, as cãs do ancião seriam respeitadas, os excluídos, acolhidos, e os fracassados, incentivados a continuar.

Ricardo Gondim

11 dezembro, 2009

Você ama a Deus?

Você me perguntou se eu O amava. Sim. Não hesito: amo a Deus com o que me resta de força, intuição e siso. Confesso não compreender o significado real desse verbo. Como soletrar amor? Como posso amar quem nunca vi? O que conheço de Deus para dizer tal coisa? Para piorar, nada sei sobre o amor.

Mas meu amor por Deus, por algum motivo, se alastra em minha alma. Saí das formulações categóricas a seu respeito. Desdenho das descrições metafísicas de uma filosofia medieval, do rigor dos catecismos beligerantes, das lógicas fundamentalistas. Empolgo-me com Deus porque já não o percebo com objeto de estudo. Ele não está lá, em algum recôndito espiritual, transcendental, paradisíaco, nirvânico, esperando ser adulado, pesquisado, definido. Percebo Deus na vida, com tudo o que ela tem de beleza e de horror. Vejo Deus nos verdes matizados da floresta, no vigor dos mares, na poeira que a bruma espalha, nas mudanças bruscas do tempo. Eu o intuo também nos rostos sofridos, nas festas alegres, nas derrotas desesperadas e nos triunfos espetaculares.

Meu amor por Deus, não sei explicar, enraíza-se em minha alma. Quebrei as réguas legalistas da religião, elas sobrecarregavam meus ombros; eram jugos que me azucrinavam. Eu vivia com paranóia. Não o tenho como o Grande Olho, que tudo vigia e tudo cobra. Despedi o Deus intolerante com as inadequações, iracundo com os tropeços de homens e mulheres que, apesar de tudo, lutam pela vida. Diante de olhos paternos, tabus e interditos abrandaram, culpas infundadas e autocomiseração manipulada enfraqueceram. A religiosidade da sofreguidão empoeirou-se em minha alma. Rasguei as cortinas que só vazavam a luz mortiça de um mundo espiritual cruel. Adornei o tabernáculo da minha espiritualidade com vitrais coloridos. Convidei músicos. Recitei poesia. Quero transformar meu culto em festa.

Meu amor por Deus, com segurança, se intensifica. Aprendi que ele não é um títere. Tardei, mas aceitei que a história não está escrita e selada. Resignifiquei a liberdade como desafio para a responsabilidade. Voltei as costas para a Divindade que atropela, misteriosa, que esconde desígnios, que manipula fatos e que usa as pessoas para satisfazer projetos gloriosos. A linguagem hermética da teleologia, os paradoxos da teodicéia, o anacronismo da doutrina da predestinação sumiram da minha rede de sentidos. Sinto-me livre para relacionar-me com o Dançarino. Ele me convida para ser seu par na valsa do grande baile universal.

Meu amor por Deus, agora sei, tornou-se mais inspirado. Distancio-me de chavões, reluto contra os clichês que já usei para me convencer de convicções que nunca possuí. Ciente de meus sentimentos irregulares, eu me escondia na linguagem piedosa. Ah, como tentava ostentar o que não era. Assumi a fragilidade de minhas certezas. Engatinho na leveza dessa relação com o Amigo mais chegado que um irmão. Reconheço que em determinados momentos meu amor não passa de puro sentimentalismo - que também se mistura com militância e racionalidade. Sou assim, mas eu me sinto sinto liberto e feliz de saber que aprendo a amá-lo do meu jeito, sem despersonalizar-me.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

27 outubro, 2009

Um lampejo da graça

Não nasci quebrado, não herdei o pecado de Adão, não aprendi a andar debaixo da maldição divina. Em meus primeiros tropeços não exalei um mau cheiro de perversidade. Minha infância foi leve, moleca, solta. Reparti o pão singelo com outros cinco irmãos. Ao lado do vovô, escutei o rádio. Buscávamos notícias da BBC de Londres, da Agência de Notícias de Moscou, dos exilados que moravam na Suécia - Com papai preso, precisávamos furar o cerco da censura.

Mas ainda na adolescência me ensinaram que eu era ruim. E que a mão de Deus estava prestes a pesar sobre minha cabeça. Eu deveria acordar; a qualquer instante poderia morrer e queimar eternamente no inferno. Ainda não consigo avaliar o impacto de tamanho pavor na cabeça de um garoto, mesmo passados tantos anos. Sei tão somente que abracei uma espiritualidade calcada no terror.

Alguém colocou um espelho na minha frente e me disse que eu deveria ver torpeza em meus olhos tristes. Arqueei as sobrancelhas; realmente acreditei que não prestava. Daí para frente, orei inúmeras vezes pedindo que Deus perdoasse uma “multidão de pecados”. Internalizei todos esses medos e adiei a vida.

Minha religião se construiu no negativo. Eu me contentava em cultuar a Deus para celebrar apenas a sua misericórdia. Mas antes de mencionar misericórdia, deixava claro a etimologia latina, miserere e cordis. Depois ressaltava: Deus volta seu coração para nós, eternos miseráveis. Enchia a boca: Miseráveis! Para mim a função do culto se resumia nisso, pedir perdão, quitar as dívidas com a lei moral e prometer que daquele dia em diante tudo seria diferente. Na semana seguinte, obviamente, tendo tropeçado nos cadarços de minha condição humana, voltava à estaca zero. E assim de multidão de pecados em multidão de pecados, sofregamente, esperava que Deus não se zangasse comigo além da conta.

Tardiamente despertei. Eu havia internalizado a mensagem. Era um homem quebrado, contaminado pela desobediência de Adão e irremediavelmente torto. Adoecido, tratava qualquer virtude como trapo de imundície. Meu corpo, propenso à lascívia, me tornava um ímpio (perdoado, mas ímpio) sempre a um passo de voltar à lama.

Alegria? Só muito comedida, “para não dar lugar à carne”. Satisfação? Nos cultos, obviamente. Prazer? Poucos: comer e dormir - prazer sexual, “quando casar”. Minha vida se estreitou. Deixei de ouvir boa música, não me permiti ler romances e passei ao largo da poesia. Catalogaram tantas coisas como abomináveis que eu preferia não me aproximar dessa lista maligna, que condenaria minha alma à perdição eterna.

Há pouco, fui criticado porque vibrei com a saudosa Mercedes Sosa em um show monumental em São Paulo. Disseram que eu agi como um infantil, deslumbrado com um espetáculo vulgar. Não me indignei com os comentários. De fato sou um meninão. Gaguejo diante da lindeza e alucino com a ressurreição de uma alegria que me foi proibida.

Na longa estrada da existência, a vida é breve. Já confessei que não me considero competente para boxear com ilustrados teólogos. Não, minto, na verdade, não quero estar perto deles porque meu coração tem outras sedes. Almejo aprender a joeirar os restolhos da vida e encontrar pepitas de uma beleza comum. Pretendo alongar a vista por cima da cerca de meus preconceitos, regionalismos e intolerâncias. Procuro retardar o relógio e ler os autores que antigamente suspeitei.

Fiz as pazes com Deus. Minha espiritualidade saiu do coibitivo e agora celebra a vida. Sinto-me livre, mesmo inadequado. Não regurgito remorsos e não me chafurdo em falsas culpas. Celebro a minha humanidade sem as ameaças do fogo do inferno. Ainda não esgotei, mas já entendo algumas nuanças da graça.

Ricardo Gondim

20 agosto, 2009

Transigência vazia

Depois de enlameado e jogado na abjeta sarjeta da heresia, ainda tive que ouvir: “Ricardo, você é uma das pessoas mais éticas que conheço”. Confesso, não me empolguei nem um tiquinho com o elogio. Por uma razão muito simples, ética vale muito pouco dentro do movimento evangélico. O que a pessoa me dizia, na verdade, é que, embora ético, infelizmente mereço garrote inquisitorial, ostracismo social, difamação e abandono relacional. Dispenso o confete. Na boca de um ortodoxo ele não passa de condescendência. Acomodação branda sem valor.

A deformação ética do Brasil, percebo estarrecido com os últimos eventos, não se restringe ao movimento religioso que participei a vida inteira. Ela é nacional. Em nome da governabilidade, o partido que sustenta o governo faz alianças com políticos anacrônicos, oligarcas medonhos que condenaram milhões à morte. Em nome do mandato missionário, fecham-se os olhos para falcatruas contábeis. Toleram-se ratos para não atrapalhar a exequibilidade do projeto.

O governo quer eleger o próximo presidente (próxima?) e não pisca duas vezes antes de vender-se ao diabo. Os evangélicos querem povoar o céu e para isso precisam de dinheiro, muito dinheiro. Urge construir mega catedrais, comprar redes de televisão, jatinhos e helicópteros. Não seria possível estabelecer o reino de Deus sem montar filial em Miami. Para valer o discurso esfarrapado da “unção” divina, é preciso mostrar produtividade.

Ninguém se elege no Brasil sem beijar a mão nojenta de caudilhos que se emporcalharam na corrupção. A grana que financia megalomanias evangélicas não cai do céu, como o maná dos tempos de Moisés. Então, que os escrúpulos vão às favas!

A roda tem que girar, o show da fé precisa do horário nobre. É o vale tudo tupiniquim que fez Rui Barbosa afirmar que “de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Responda, antes que se multipliquem os conselhos piedosos do tipo “não se deve desistir”, “a esperança é a última que morre”, “Deus está no controle”, “blábláblá”. Quantos ladrões de colarinho branco foram presos nos últimos vinte anos? Quantas denúncias de corrupção acabaram arquivadas na Câmara dos Deputados e no Senado? Quantas igrejas se esvaziaram depois que seus líderes foram sentenciados por crime? “Denuncismo”, grita o Presidente com a língua (e o rabo) presa. “Satanás”, vocifera o pastor engravatado de cima do púlpito.

Não, não sou pessimista, apenas realista. Se conseguirem repatriar o dinheiro da merenda escolar depositado no Paraíso Fiscal, voltará apenas uma fração. Se provarem que houve extorsão e lavagem de dinheiro na igreja-empresa, nada acontecerá com o apóstolo ou bispo. O presidente manterá seus altíssimos índices de popularidade. A igreja vai convocar uma vigília de oração para amarrar o diabo, que será um sucesso.

Prefiro a pecha de herege ao de bandido. E por falar em heresia, gosto mais do Chico Buarque do que do televangelista de voz aveludada: “Mesmo com toda a fama, com toda a brahma/ Com toda a cama, com toda a lama/ A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando/ A gente vai levando essa chama”.

Ricardo Gondim

18 julho, 2009

Descobertas

Descobri que tenho pés de barro. Há algum tempo, achava-me imbatível. Em minha suficiência, imaginei que sendo fiel a Deus, nenhum mal me alcançaria. Desafiei a vida. Realmente acreditei que as asas do Todo-Poderoso se abririam sobre mim e nada ou ninguém atravessaria aquela blindagem emplumada para me ferir. Em nome da fé, dei o melhor, certo que seria um sucesso. Frequentei todos os seminários para aprender “princípios universais para uma vida triunfante". Pensei que a existência se engrenava numa perfeita relação de causa e efeito.

Descobri que não sou onipotente, apenas um peregrino inadequado e efêmero. Achei que conseguiria controlar as variáveis do dia-a-dia com eficiência. Considerei a pedagogia que aprendi no seminário a mais eficiente para educar filhos. Disciplinei com “vara” – me instruíram que a Bíblia mandava bater. Trabalhei de domingo a domingo; eu esperava receber o devido galardão dos meus esforços. Ensinei as pessoas a semearem; considerava os resultados dessa "lei", líquidos e certos. Afirmei que a salvação da alma acontece quando se acredita em doutrinas aprovadas pelos legítimos cânones da tradição pietista-reformada-pentecostal.

Descobri que não sei tudo. Tolamente, rebati “heresias” com argumentos incontestáveis. Promovi seminários para destruir raciocínios “apóstatas” (mal sabia que o bumerangue voltaria para me acertar o rosto). Quando me levantei para falar, estava tão convencido que era o dono da verdade que ensurdeci para as manifestações de bondade que me assediavam. Soberbo, gritei a pleno pulmão a minha certeza. De dedo em riste, fiz de minha interpretação a única verdade possível.

Descobri que não sou cidadão do mundo. Respirei o ar asfixiado do bairrismo. Dourei o meu gueto. Restringi a leitura. Eu fui treinado a não gostar de quem não era “salvo” – só que muitas vezes os “salvos” que eu me forçava para gostar, não passavam de pessoas mesquinhas, traiçoeiras e banais. Por volta dos quarenta anos, conheci gente mais feliz, mais íntegra, mais honesta, que muitos “santos”. Passei a olhar a vida por prismas nunca considerados. Engatinhei na meia idade.

Devido a tanta soberba, quebrei a cara, feri pessoas, paguei mico, chorei. Frustrei-me. Neurotizei amigos. Só agora reconheço que a vida não segue sobre trilhos. As lógicas religiosas não funcionam. Abaixei a crista.

Entendo que não sou mais um adolescente. Mas não desespero. Há tempo, não sei quanto, mas pretendo eternizar o instante precioso. Quero sorver a vida sem as inclemências que amordaçaram meus sorrisos. Anseio por doçura. Tenho sede de bondade. Busco a grandeza de quem ainda sabe rir e chorar.

Ricardo Gondim

06 julho, 2009

A curva do imponderável

Persisto, mesmo depois de derrapar na curva do imponderável. Teimo, mesmo depois de parar no obstáculo intransponível. Saúdo a vida, mesmo depois de despertar para o vazio trágico.

Se não sabia contar os anos, teimo em tutelar o instante. Se havia me perdido, não deixo a alma suja; o soro que talha o leite não vai me azedar. Passo unguento nas raladuras. Fecho os olhos para o feitiços odioso. Marcho adiante.

No escuro da cacimba, noto que meu rosto turvo continua a sorrir. O ribeiro murmura; deixo que seu lamento acalme o meu coração. Admiro a maré eterna; ela cadencia a violência do meu porvir.

Musgos, heras, cardos, se apegaram à minha alma. Transformo as mãos em tesouras de jardineiro. Deixo a rede, que range no armador, aquietar o meu sono ansioso.

Tentei fugir e acabei entregue a mim mesmo. Devaneios serviram para ancorar a minha jangada no porto da realidade. Utopias me enraizaram. Delirei. Agora sento na cadeira de balanço da lucidez adulta.

Ventanias assobiam pelas frestas do meu castelo, outrora, inexpugnável. Minha adolescência afoita dilui-se em esperança. Escancaro janelas e portas da minha casa frágil. Volto-me para o sopro selvagem. Acolho o vendaval que espalha o pó da minha vaidade.

Respingos de uma tempestade inclemente lavam a minha tristeza. Inspiro a alvorada úmida. Saúdo o sol tímido; peço-lhe que me guie durante o dia.

Trago pedregulhos ásperos na aljava. Não coleciono raridades. Até meus maiores tesouros não passam de pedras semi-preciosas. Não vou leiloar o que amo. Procuro passar cadeado nas riquezas que me sensibilizam. Aviso às raposas: "não destruam as minhas vinhas". Chacais não vão entrar na alcova onde guardo os que tanto amo.

Consternado, noto que um vazio tenebroso embaçou os olhos dos meus companheiros. Entristecido por vê-los roubados da vida, tatuo na pele o mandamento de viver com intensidade. E para não perder a alma, marco, a ferro, o dever de amar. Amar a beleza, a vida, a justiça, o bem.

Quando não fizer sentido, basta-me a paz; paz que excede todo o entendimento. Mesmo quando não agradar, sei que posso ouvir: “tu és meu filho amado em quem meu coração está satisfeito”.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

15 junho, 2009

Inquietações, inquietações

Quem são homens e mulheres para que te lembre deles? Onde te escondeste, ó Senhor, que não invades logo esse teatro de horrores? Por que não terminas com o ato macabro que se arrasta além do tempo? “Não se te dá que morramos”? O preço que cobras por nos teres criado imperfeitos não é alto demais? Existe outro mundo possível? Por que as antecipações do Reino foram imprecisas e, rapidamente, se esfarelaram em instituições adoecidas pela fome de poder?

Por que as forças do mal se reproduzem como amebas? Forçados a viver com paradoxos, os humanos sofrem debaixo da burocracia de um Estado frio; satanicamente manipulado por lógicas nobres. Mas existe uma lógica que exige o choro de criança, o luto de mãe pobre e o abandono de idoso? Tal coerência já deveria ter sido soterrada há milênios. As masmorras, os hospícios, os patíbulos, são monumentos que escarram na cara da humanidade.

Tateio em busca de respostas. Entorpeço a alma diluindo a verdade. Inebriado por quimeras, sigo iludido com a grandeza humana. Com a mão direita canibalizamos, com a esquerda, escrevemos poesia. Fazemos guerra para trazer paz. Vaidosos, nos consideramos um pouco menores que os anjos. Não vemos nossa face desfigurada; somos monstros de iniquidade.

O caminho não desemboca na estrada. O rio não alcança o oceano. A estrela não explode o universo. O tempo não fraciona a eternidade. A pergunta não esgota a verdade. O afeto não redime o ódio. A nostalgia não recupera o passado. A clemência não explica o holocausto. A ciência não alcança o inconsciente. Não há século que alivie o mal de cada dia.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

03 maio, 2009

Receitinha despretensiosa

Se quiser viver, não adie. O imponderável se intromete na vida da gente. Como patas de um gato, as unhas do destino se alongam querendo estancar o curso de nossa história. O imprevisto é peçonhento e estraga os projetos mais queridos. Antecipe-se ao imponderável e beije, abrace, converse. O agora é estrela cadente, asteróide nômade. Faça cada instante valer uma eternidade. O já não passa de uma piscadela; o hoje, de fenda entre o ainda não e o que acabou.

Se quiser viver, não tema. Arrique-se. Decidir é vulnerar-se; querer, expor-se; desejar, atirar-se à mercê do outro. Ferida de decepção dói menos que desterro de inação. Todos os amantes carregam cicatrizes. Seus estigmas, mesmo antigos, são visíveis. Atreva-se a caminhar sem blindagem. Arranque o elmo. Jogue fora o escudo. Não se enclausure. Não evite o olhar de quem lhe pede afeto. Seja terno com quem lhe espezinha.

Se quiser viver, não anseie. Sossegue. O possível, nem sempre o melhor, é matéria prima do contentamento. A alma implora por descanso. Reconheça os avisos do corpo quando avisa que as descargas hormonais desequilibram o metabolismo. Dê um passo de cada vez. Espere pelo amanhã. Desista do controle dos circuitos, solte o cabo da nau. Não corra na frente da aragem que antecipa a madrugada. Basta a cada oportunidade o seu próprio mal. Tranquilize-se.

Se quiser viver, não fuja. Enfrente-se. As nódoas da alma podem transformar-se em câncro; as culpas, em fardos; as inadequações, em aleijões existenciais. Transgressão pode deixar de ser um pecado mortal. Aprenda com os seus tropeços. Cresça com as mazelas. Reconceitue humildade como coragem de admitir limites, fragilidades, incapacidades.

Se quiser viver, não escarneça. Ouça. Tradição é a história que os antepassados selecionaram para que amadureçamos. Os enganos de outrora não precisam ser repetidos. Não quebre a cabeça com teoremas já demonstrados. Poupe o coração de injunções aparentemente inéditas que os compêndios trataram exaustivamente. Atente para os provérbios populares. Escute os avós.

Se quiser viver, medite. Mire as conchas que a maré triturou, que pavimentam a praia; o ócio do leão, feliz com a prole bem alimentada; o sol que se fatiga no lusco fusco da tarde. Devagar, procure as entrelinhas da poesia, o imarcescível da narrativa, a dignidade da biografia. Escute, de olhos fechados, os violinos, as gaitas, os trompetes, os pianos, os realejos. O universo pulsa, descubra o seu ritmo.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

04 abril, 2009

Novo Nascimento

Culpa é um dos ingredientes mais nocivos da religião. Aliás, muita falação eclesiástica se esgota quando se desmascara a instrumentalização da culpa. Os auditórios religiosos lotam porque as pessoas são imperfeitas, carregadas de mazelas, incapazes de lidar com as sequelas da adolescência. É preciso ser corrigido, aperfeiçoado, purgado. Mas, inadequados diante de uma divindade absolutamente correta e exigente, todos se sentem devedores e ninguém tem o direito de esboçar qualquer defesa.

Recordo-me que nas brigas com o Renato Jorge, meu irmão um ano mais novo, eu usava uma arma infalível para vencê-lo: “Vou contar para o papai”, dizia. Para depois acrescentar: “Você pensa que eu não sei de tudo?”. Na verdade, não sabia de nada. Mas meu pobre irmão sempre tinha culpa no cartório. Rapidamente se rendia diante das minhas ameaças.

O senso comum dos religiosos é que todos estão degradados porque são inerentemente maus, promíscuos e ímpios. Daí o apelo recorrente dos púlpitos de que precisamos ser salvos de nós mesmos. Por toda a vida, aceitei esta lógica e acabei tornando-me o meu maior inimigo. Detestei-me por achar-me uma fonte perene de ruindade. Eu me fustigava esperando não apanhar de Deus.

Acreditava que antecipando-me às penas, conseguiria sensibilizá-lo. Imaginava que o Todo-Misericordioso contemplaria a minha autoflagelação e me trataria com leniência diante dos vergões.

Hoje já não acredito que precise ser salvo de mim mesmo. Pelo contrário, minha salvação acontece quando aprendo a conviver com o meu interior. Quando faço as pazes com meu ser. Quando me aproximo de quem está mais próximo de mim: eu.

Minhas pulsões de vida e de morte estão para além do bem e do mal. Não as considero pecado ou virtude, apenas forças poderosíssimas que compõem a minha humanidade. Dentro de mim habitam sombras e luzes. Não preciso exorcisar as sombras, demonizando-as, agora reconheço-as como partes de minha constituição.

Meus tropeções foram necessários – pecados, no linguajar religioso – na construção de minha história. Todo o processo pedagógico precisa deixar espaço para que se desafine, pise na bola, dê trombada, erre. Sem odiar, não se aprende o valor da doçura; sem invejar, não se aprende o valor da reverência; sem cobiçar, não se aprende o valor do contentamento. Ódio, inveja e cobiça, portanto, também me moldaram.

Não me detesto e não suspeito do meu corpo. Não me sinto podre. Contudo, não sou ingênuo. Reconheço que de dentro do meu coração brotam águas amargas. Minhas uvas são azedas. Sei que tenho um potencial destrutivo de mil bombas atômicas. Carrego ressentimentos. Meu espírito se encanta com o que não presta.

Lido com essas idiossincrasias, dando outro sentido para responsabilidade. Responsabilidade passou a ser definida como iniciativa e capacidade de responder às demandas éticas da vida. Pretendo tornar-me responsável não por culpa ou medo, mas por reverência à vida, ao meu próximo e à mim. Para ser íntegro, não preciso amputar narcos do coração e vilipendiar-me como um bandido ordinário. Para crescer, posso me valer, inclusive, de meu passado suspeitosíssimo.

Depois de noites insones, depois de me angústiar com tantas falhas, afirmo: as minhas maiores decepções e mais profundos fracassos me empurraram para frente. Com eles, ganhei coragem de encarar-me.

Todo novo degrau de maturidade é uma travessia. Toda mudança, morte e ressurreição. Nasci de novo desde que alcei bandeira branca na guerra que travava comigo mesmo. Hoje aceito que se Deus quis tabernacular em mim, não tenho o direito de implodir-me.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

28 fevereiro, 2009

O deus que não é Deus

Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Essse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.

Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.

Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.

Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.

Soli Deo Gloria
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Ricardo Gondim

04 fevereiro, 2009

O Amor

Quem ama colore o vento, perfuma o sol, tempera as horas. O amor forja as pessoas sem as deixar cretinas. O amante não cogita, logo inexiste. Ilógico, não é convidado para a roda dos exatos.

Quem ama espera. Todo amante é ingênuo, sempre a cometer atos falhos. Imprecavido, deixa-se apanhar em repetidos flagrantes. O amor não se protege, embora resista, mesmo sob tortura.

Quem ama obedece, cumpre, aceita. O amante corre, chega por último, mas se sente o vencedor. Vassalo, aceita sem perguntar e obedece a ordem que nunca lhe foi dada. Imprudente, abre mão das preferências, cede lugar, divide jugo, lava pés.

Quem ama perde o medo. Os amantes desdenham do tempo. O ócio não lhes é pecado. Consideram ganhos, uma tarde perdida na beira da praia, uma semana enterrada entre os pobres, um mês gasto na clínica odontológica. Quem ama transgride. O amante é um eterno contraditório. Pela amada, desdiz o que aifrmou categoricamente. Rasga leis (até as divinas) para evitar um apedrejamento. Misericordioso, assume-se como tolo. Abraça a prostituta indigna, perdoa o ladrão contumaz, aposta no covarde, e janta com o seu traidor.

Quem ama sofre. Amor e paixão nascem de um mesmo ninho. Não existe amante tranquilo. Vulnerável, arrisca-se a sofrer abandonos. Impotente, recusa-se a manipular. Amarga rejeições, sonha com retornos pródigos e não se conforma com a ingratidão.

Quem ama conversa com as estrelas, diz que as paredes ouvem e questiona os espelhos. Ridículo, insiste em escrever cartas que nunca podem ser publicadas. O amante enxerga beleza em véus encardidos, folhas secas, águas paradas, prados amarelecidos, dias chuvosos.

Quem ama vê Deus em um pobre. O amante se sente bem entre idosos e viúvas. Seus anjos não voam e não ostentam força, apenas compaixão. Sensível, agoniza com a dor alheia. Honesto, não simula onipotência. Humilde, não propandeia seus avanços pessoais.

Quem ama conhece a Deus e é nascido de Deus.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

24 janeiro, 2009

O Bem

O bem sabe esperar. Paciente, aguarda que a serralheria se esvazie dos homens que forjam grilhões.

O bem é delicado. Frágil, precisa de proteção. Simples, não cobra cuidados.

O bem vive na alça mais escondida da alma, na alcova do afeto. Nasce na medula do espírito. Para sobreviver, não precisa das estruturas do poder. Dissolve-se em água salgada. Discreto, não carece de luz, como as mariposas.

O bem corteja. Atrai por suas insinuações. Seduz nas mãos delicadas da fisioterapeuta que exercita o ancião, no rosto da assistente social que pesa a criança subnutrida, no esforço do volutário que distribui cobertor para o exilado da enchente.

O bem desce no conta gotas do sangue doado. Sua verdade pode ser atestada pelo empenho do médico norueguês que mora na Faixa de Gaza. É visto na disposição do jovem que marcha pela paz, mesmo quando o frio congelava a ponta do nariz e bombas de gás lacrimogênio o fazem prantear.

O bem escapou no pelourinho e há de resistir o perene massacre dos poderosos. Quando as cortinas do ódio o encobrem, meninos e meninas o encarnam. Os poetas enaltecem o bem. Celebrado nas catedrais e experimentado nos bordéis, é ao mesmo tempo humano e divino, angelical e terreno.

Soli Deo Gloria

Ricardo Gondim

06 janeiro, 2009

Gaza e as lições que aprendi

No Ceará a gente considera indigno bater em bêbado. Reajo tempestivamente ao genocídio palestino. Minhas vísceras se contorcem quando vejo uma criança mutilada por estilhaços. Sinto-me culpado porque durmo seguro. Revolto-me com a minha impotência. Não me conformo por ser insignificante. Alucino angustiado de não ter cacife político para gritar, Basta.

Como é que se bombardeia uma população indefesa, sem exército e sem lugar para se esconder? Não entendo o cinismo de uma nação que antes de despejar bombas manda o povo fugir. Mas fugir para onde? As fronteiras foram seladas, não existem abrigos, bunkers ou refúgios. A carnificina é pavorosa.

Para mim, essa guerra não passa de uma limpeza étnica. Humilhando o povo palestino até o pó, quebrando a coluna dorsal da sua identidade, Israel espera que eles parem de apurrinhar. Se a causa de Israel é nobre, por que a imprensa internacional está proibida de noticiar os acontecimentos?

Mas mesmo horrorizado, tenho aprendido. Esses eventos tenebrosos me levaram a admitir que já não leio a Bíblia com as mesmas lentes. Abandonei a idéia de que os massacres do Antigo Testamento foram ordens divinas. Entendo que os genocídios relatados na Bíblia foram cometidos com as mesmas motivações políticas, com os mesmos interesses econômicos e com ambições nacionalistas iguais as atuais, mas atribuidos a um deus guerreiro. Não aceito que os "propósitos" divinos para o futuro estejam conectados à política militarista de Israel. Arrependo-me de ter, um dia, pregado que "Israel é o relógio de Deus" para o fim dos tempos.

Pretendo ser um discípulo de Jesus e quero crescer em meu pacifismo. Acredito que Jesus Cristo encarnou a plenitude da Divindade. Para mim as bem-aventuranças do Sermão do Monte são balizas para comportamentos individuais e decisões nacionais. Não aceito revides e vingança. Permaneço fiel à declaração de que Jesus é o príncipe da paz.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim

24 dezembro, 2008

Khalid e seu destino eterno

Khalid é camponês no Iraque. Há séculos sua família vive cuidando de um pequeno curral com bodes, cabras e algumas ovelhas. Mas ele ainda hoje não entende porque aviões barulhentos sobrevoaram sua choupana despejando bombas. Uma dessas bombas caiu há cem metros de onde seus filhos brincavam. Dois meninos e uma menina morreram com estilhaços enormes que estraçalharam seus corpos franzinos. Khalid nunca ouviu falar de Jesus Cristo ou da Bíblia. Como é analfabeto, soube apenas que os seus sacerdotes abençoaram os pilotos do avião para aquela missão.

Para a enorme maioria dos evangélicos, Khalid, além de pobre, analfabeto e sem filhos, ainda vai para o inferno no dia em que morrer. Por ser herdeiro do pecado e da culpa de Adão, será punido com fogo eterno. A condenação de Khalid será inexorável porque não fez uma confissão pública de fé nos ditames dos evangélicos.

O iraquiano sofrerá muito. Vermes lhe comerão a carne por zilhões de anos; sedento, rangerá os dentes e perpetuamente lamentará por ter sido solidário com o pecado do primeiro casal. Seu desterro será perpétuo.

Eis a brilhante lógica do fundamentalismo evangélico: a sua má sorte foi nascer no Iraque e não em Dallas, Texas, pois nos estado mais evangélico do mundo, suas chances de ser converter seriam geometricamente maiores. Inclusive, dentro dessa lógica, o capelão que orou com o piloto antes de decolar vôo, não só o perdoou por antecipação, como garantiu que a “justa guerra” legitimava as bombas despejadas sobre o vilarejo suspeito. Quanto aos danos colaterais, mesmo péssimos, são inevitáveis e serão creditados à Providência. Isto é, se os filhos de Khalid morreram, “Deus que tem tudo sob o seu controle, supervisionou e permitiu as mortes com algum propósito” – que só serão conhecidos na eternidade.

Será que, enquanto a humanidade celebra o Natal, bilhões de Khalids seguem para o inferno inexorável?

Alguns convivem bem com essa lógica. Digo apenas que ela é cruel e não tem nada a ver com Jesus de Nazaré.

A todos os Khalids do mundo, amados e queridos de Deus, Feliz Natal.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim