Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Rubem Alves. Mostrar todas as postagens

27 maio, 2010

Deus...

"Deus nao é um poder infinito no início de todas as coisas. É uma fraca semente de bondade e beleza em tudo que há. Quando a semente brota, aparece o Paraíso..."
Rubem Alves em "Espiritualidade" pg. 53 Ed. Papirus

11 maio, 2010

Despedida...

O sol estava se pondo. O por-de-sol a fez lembrar-se do seu pai. Ela começou a falar. Ele estava muito enfermo, mortalmente enfermo e sabia disso. Ela abandonou o seu trabalho para estar com ele. E conversavam sobre a morte próxima. Tranquilamente. Disse-me que a hora que seu pai mais amava era o crepúsculo. Desde menina. Ele se assentava com ela e ia mostrando a beleza das nuvens incendiadas, a progressiva e rápida sucessão das cores, azul, verde, amarelo, abóbora, vermelho, roxo... À medida em que o tempo passava ele ficava cada vez mais fraco. Fraco, queria sempre ver o por-de-sol. Um homem a morrer é um sol a se por. Numa dessas tardes ela não conseguiu conter as lágrimas. Chorou. Ele a abraçou e colocou seu dedo sobre os seus lábios. “Não quero que você chore...” E apontando para o sol que se punha disse: “Eu estarei lá...” Sei que não reproduzi com fidelidade o que ela me disse. O seu relato foi imensamente mais rico, cheio de detalhes, de saudade, de tristeza e de beleza. Por isso eu lhe peço perdão. Mas senti que ela era agradecida pelo tempo que passou com o pai. A morte cria uma intimidade que é impossível em outras situações. E contou-me também de uma orquídea que silenciosamente acompanhou esses momentos de despedida. A orquídea, depois que seu pai partiu para o por-de-sol, se recusou a parar de florir...Será que as pessoas queridas que partem continuam a morar no perfume das flores? É possível...

Rubem Alves

27 fevereiro, 2010

Faça valer...

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltavam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me diante de invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que, apesar da idade cronológica, são imaturas.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral ou semelhante bobagem, seja ela qual for.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, que defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente andar ao lado de Deus.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo. O essencial faz a vida valer a pena. Basta o essencial!

Rubem Alves

18 janeiro, 2010

Pra pensar...

"Basta falar o nome "Deus" para que as pessoas parem de pensar e se ponham a repetir fórmulas aprendidas. Diante do nome "Deus" a inteligência delas fica intimidada e pára de pensar. Mas eu não posso respeitar um Deus que me proíba o exercício de pensar. Um Deus que não sobrevive ao exercício da inteligência não pode ser Deus. Só pode ser um ídolo de areia."

Rubem Alves em "Espiritualidade" pg. 26.

12 janeiro, 2010

Os 33 nomes de Deus

Os trinta e três nomes de Deus: De vez em quando perguntam-me se acredito em Deus. Mas é claro. Acredito mais que a maioria das pessoas. Tenho até trinta e três nomes para ele. Esses nomes foi a Margueritte Yourcenar que me contou. Ela foi uma escritora maravilhosa, autora do livro Memórias de Adriano, quem lê nunca mais esquece, quer ler de novo. Pois esses são os trinta e três nomes de Deus que ela me ensinou. É só falar o nome, ver na imaginação o que o nome diz, para que a alma se encha de uma alegria que só pode ser um pedaço de Deus... Mas é preciso ler bem devagarinho... 1.Mar da manhã. 2.Barulho da fonte nos rochedos sobre as paredes de pedra. 3.Vento do mar de noite, numa ilha... 4.Abelha. 5.Vôo triangular dos cisnes. 6. Cordeirinho recém-nascido.... 7.Mugido doce da vaca, mugido selvagem do touro. 8.Mugido paciente do boi. 9. Fogo vermelho no fogão. 10.Capim. 11.Perfume do capim. 12.Passarinho no céu. 13.Terra boa... 14.Garça que esperou toda a noite, meio gelada, e que vai matar sua fome no nascer do sol. 15. Peixinho que agoniza no papo da garça. 16. Mão que entra em contato com as coisas. 17.A pele, toda a superfície do corpo 18. O olhar e tudo o que ele olha. 19.As nove portas da percepção. 20.O torso humano. 21.O som de uma viola e de uma flauta indígena. 22.Um gole de uma bebida fria ou quente. 23.Pão. 24.As flores que saem da terra na primavera. 25.Sono na cama. 26. Um cego que canta e uma criança enferma. 27. Cavalo correndo livre. 28.A cadela e os cãezinhos. 29.Sol nascente sobre um lago gelado. 30.O relâmpago silencioso. 31. O trovão que estronda. 32.O silêncio entre dois amigos. 33.A voz que vem do leste, entra pela orelha direita e ensina uma canção...” Agradeço ao Carlos Brandão por haver me apresentado os trinta e três nomes de Deus da Margueritte. Não é preciso que sejam os seus. Faça a sua própria lista. Eu incluiria: Ouvir a sonata Apassionata de Beethoven. Sapos coaxando no charco. O canto do sabiá. Banho de cachoeira. A tela “Mulher lendo uma carta”, de Vermeer. O sorriso de uma criança. O sorriso de um velho. Balançar num balanço tocando com o pé as folhas da árvore... Morder uma jabuticaba... Todas essas coisas são os pedaços de Deus que conheço... Sim, acredito muito em Deus.

Rubem Alves

09 dezembro, 2009

Fé

"Fé é um morango que se come pendurado num galho à beira do abismo, pelo gosto bom que se tem, sem nenhuma promessa de que ele nos fará flutuar quando o galho quebrar..."

Rubem Alves em "Espiritualidade" pg. 67 Ed. Papirus

07 julho, 2009

Verdades do Reino

Foi Jesus que disse aos fariseus, religiosos que viviam citando as Escrituras e tentando converter os outros, que as meretrizes entrariam no Reino dos Céus antes deles. E notem: Jesus não disse "meretrizes arrependidas". Entram as meretrizes mesmo e, atrás delas, entram também os fariseus hipócritas e tudo mais que Deus criou. Um Deus que é todo amor não pode ter no seu universo uma câmara de torturas eternas em que as almas sofrem por pecados cometidos no tempo.

Rubem Alves em "Espiritualidade" Ed. Papirus, pg. 81

16 março, 2009

Sobre dúvidas e certezas...

Cliquei o botão do controle remoto da televisão e me vi dentro de um enorme templo, completamente lotado. O programa se chamava, se não me engano, O culto em sua casa. O pregador dizia aos fiéis: “A dúvida é a principal arma do diabo”. Ele não teve coragem de dizer tudo o que essa afirmação piedosa contém. Se ele está no púlpito, lugar sagrado, deve ser bispo ou missionário. Sendo bispo ou missionário, tem acesso privilegiado a Jesus: o Peixe Dourado lhe revelou pessoalmente os mistérios do Mar... Fala diariamente com Jesus. Segue-se que aquilo que ele fala são as palavras de Jesus. Assim, se alguém tem dúvidas sobre o que ele diz, está duvidando de Jesus. Conclusão: quem duvida do que ele diz está enredado nas artimanhas do diabo... Penso o contrário: que as convicções são as principais armas do diabo. As maiores atrocidades da história da humanidade, religiosas e políticas, foram cometidas por pessoas que não tinham dúvidas sobre a verdade dos seus pensamentos. As pessoas que duvidam, ao contrário, são tolerantes. Sabem que o que pensam não é a verdade. Seus pensamentos não passam de “palpites”. Por isso ouvem o que os outros têm a dizer, pois pode ser que a verdade esteja com eles... As religiões ocidentais, o Cristianismo e o Islamismo, se construíram sobre certezas. Sempre tiveram medo da dúvida. Sobre os que duvidavam, colocaram a ameaça das fogueiras ou do inferno. E isso deixou marcas tão profundas nas pessoas religiosas que, ainda hoje, elas têm medo de duvidar. O que significa: elas têm medo de pensar. Contentam-se em repetir o que lhes foi dito. Porque é com a dúvida que o pensamento se inicia. Mas eu não respeitaria um Deus que, havendo nos dado asas nos proibisse de voar. Contra o autoritarismo das certezas só há um remédio: o humor. Como o filme Deus é brasileiro. Deus, cansado de ser Deus, resolveu tirar umas férias. Viajaria por uma outra galáxia. Mas teria de deixar uma outra pessoa no seu lugar, durante a sua ausência. Lá de cima escolheu o homem que mais competência teria para assumir suas funções. Assim, baixou sobre essa terra e pôs-se a procurá-lo. Depois de muitos desencontros, finalmente o encontrou. Sua busca havia chegado ao fim! Poderia iniciar suas férias! Que nada! O dito homem que ele escolhera era ateu. Acontece conosco o que acontece com os galos. Quer o galo cante, quer não cante, o sol sempre aparece... Assim, podemos cantar ou não cantar, desafinar ou inventar um canto dodecafônico, o Sol nem liga. Como diz a Cecília: “Foi, desde sempre, o Mar”, indiferente ao que pensamos...

Rubem Alves

09 janeiro, 2009

Sobre o Mistério...

O mundo das idéias religiosas é mais fascinante e assombroso que a literatura mais fantástica. Refiro-me ao mundo das idéias religiosas, aquilo que os homens pensam, aquilo em que acreditam, aquilo que está dentro da sua cabeça e que é criado pelas suas fantasias. O homem cria Deus à sua imagem e semelhança. Ouvindo uma pessoa falar sobre Deus temos acesso à sua alma. Idéias religiosas nada têm a ver com o Grande Mistério. Grande Mistério? Estamos diante do mar sem fim. Na praia, os homens começam a imaginar: O que haverá nas suas funduras? Monstros, sereias, jardins, peixes coloridos, anêmonas venenosas, cidades submersas? As idéias religiosas são as fantasias que os homens produzem diante do Grande Mistério, mar sem fim. O Grande Mistério me fascina. Mas me as idéias dos homens me espantam. Não porque eles as tenham. Mas porque acreditam nelas. Confundem o que pensam com o fundo do mar! Alberto Caeiro disse de forma definitiva: “Pensar em Deus é desobedecer a Deus. Porque Deus quis que o não conhecêssemos, por isso se nos não mostrou...” Diante do Grande Mistério é certo é o silêncio, o não pensar.

Rubem Alves

13 dezembro, 2008

Ausência...

Dou-me bem com meu pulmão. Respiro sem esforço. Por isso nunca penso no ar. Se eu fosse asmático, numa crise de falta de ar eu só falaria "Ar! Ar! Ar!". A gente fala daquilo que não tem. As pessoas que falam muito de Deus são asmáticas espirituais. Estão sempre com medo de que ele lhes falte.

Rubem Alves
em Espiritualidade pg. 66

01 agosto, 2008

Sobre a "A paixão de Cristo"

Sou feito cachorro: não abocanho sem antes cheirar. Cheirei e não gostei do cheiro. Cheiro de sangue. O filme do Mel Gibson sobre a morte de Cristo. Não fui assistir. Meu Deus não tem cheiro de sangue. Tem cheiro de criança suada, quando volta dos brinquedos, como o descreveu Alberto Caeiro. A psicanálise ensina que tudo o que a gente faz tem a cara da alma da gente. Conclui que o Mel Gibson é um poço de pecados para causar tanto sofrimento e N.S. Jesus Cristo. Cristo teve de sofrer aquilo tudo por causa dele. O filme, por tudo o que li, é uma expressão moderna de uma espiritualidade antiga que encontra os seus prazeres sado-masoquistas na contemplação de feridas, sangue e corações dilacerados por punhais. Os santos são sempre uns sofredores. Não conheço nenhum santo sorridente, alegre com a vida. Estão todos sofrendo perfurados por flechas, punhas, afligidos por feridas, etc. Um Deus que precisa que os homens sofram tanto para se sentir apaziguado – eu não o chamaria de Deus. Eu o chamaria do oposto... Quem gosta de ver os homens sofrendo é o demônio. O filme do Gibson tem por objetivo provocar sentimentos de dó e culpa naqueles que o vêem. Para que? Para poder dominá-los. Os que se sentem culpados são sempre fracos. Andam sempre de cabeça baixa. Estão sempre prontos a fazer a vontade daqueles frente aos quais se sentem culpados. Os judeus têm uma fina percepção do significado do sentimento de culpa. Inventaram essa piadinha. Uma mãe italiana, quando está furiosa com o filho, faz uma gritaria, joga pratos, pega o rolo de macarrão, o filho foge correndo pela porta enquanto ela diz: “Desgraçado, eu te mato...” A mãe judia, quando está furiosa com o filho, chega-se mansamente a ele, uma lágrima escorrendo pelo rosto, e diz bem baixinho: “Meu filho, eu me mato...” Há um hino protestante que diz o que eu disse de maneira absolutamente clara: “ Morri, morri na cruz, por ti. Que fazes tu por mim?” A cruz, vista pelos olhos do Mel Gibson, não liberta. Escraviza. Por isso não gostei do filme.

Rubem Alves

23 junho, 2008

O menino e a Dona Irahy

Cheguei na floricultura Floríssima e lá encontrei uma senhora – já não era jovem, cabelos brancos, ereta, sorridente. Ela me olhou com uma interrogação curiosa no rosto: “O senhor, por acaso, é o Rubem Alves?” “Sou sim”, respondi. “Mas que coincidência feliz. Eu estava mesmo à sua procura...” Ditas estas palavras ela me mostrou uma folha de caderno. “Meu nome é Irahy. Por muitos anos eu preparei crianças para o exame de admissão, na minha casa. E agora – tenho 93 anos – estou organizando minhas coisas – álbuns de fotografia, coisas dos alunos. E encontrei, entre as coisas que guardei, essa redação de um menino de 10 anos. Acho que o senhor gostará de ler...” Peguei o pepel e comecei a ler: “Um amigo é alguém que gosta de você. Você pode ter muitos amigos... uns garotinhos ... umas garotinhas... um gato... um cão... ou até um ratinho branco. A árvore é uma amiga diferente. Não fala. Mas você sabe que é sua amiga pois lhe dá maçãs, cerejas, peras e até um galho para seu balanço. O riacho é um tipo especial de amigo. Gorgoleja e respinga água em você. Refresca seus pés e deixa você ficar ao seu lado, quando quer ficar sozinho. O vento canta-lhe doces canções à noite. Está em todo lugar, por isso está sempre com você. Quem são seus amigos? Às vezes você passa com pressa e pensa que não tem amigos mas você nem vê seus amigos. Mas você tem que esquecer a pressa e ver quando alguém lhe dá um sorriso, ou quando um cachorro abana-lhe o rabo com força. Todos têm amigos. Uns têm muitos, outros, só dois ou três. Mas todos têm pelo menos um amigo. Como encontrou o seu? Data: 27 de novembro de 1972. Assinado: Marcos Nopper Alves.” Minha alegria foi dupla. Primeiro, porque o menino de dez anos que escreveu sobre os amigos é meu filho. Aos dez anos aflorava nele uma alma de escritor. Tanto assim que a da. Irahy guardou sua redação. A segunda alegria é pela da. Irahy. Uma mulher que fez o que ela fez merece que dela se diga: “É uma educadora de verdade porque ama as crianças”. O fato é que há, espalhados pelo Brasil, uma infinidade de educadores anônimos que fazem o seu trabalho com competência e alegria. O que faz um educador não são as teorias pedagógicas que moram na cabeça mas o simples fato de amar as crianças. Veio-me agora uma definição de educador que nunca pensei: “Educador é qualquer pessoa que ama uma criança. Porque quem ama uma criança ensina-lhe o caminho (e vai junto...)”. Assim fez a Da. Irahy... Queria sugerir que aqueles que foram seus alunos lhe enviassem cartas contando das boas memórias do tempo que passaram juntos! Na verdade, penso que ela bem merece uma medalha – e fica aqui a sugestão à Câmara dos Vereadores. E, por favor, não se equivoquem com os seus 93 anos: ela está enxutíssima!

Rubem Alves
, em seu Quarto de Badaluques XVII

23 maio, 2008

Corpus Christi

Tenho medo de morrer e ir para o céu. Eu me sentiria um estranho por lá. A Cecília Meireles pensava o mesmo. E se perguntava se, “Depois que se navega, a algum lugar enfim se chega... O que será, talvez, até mais triste. Nem barca, nem gaivota: somente sobre-humanas companhias...“. Também eu preciso de barcas e gaivotas, pois amo o mar e o ar. Sou um ser deste mundo e sinto que no meu corpo moram rios, árvores, montanhas e nuvens. Nenhum mundo além poderá consolar-me da sua perda. É certo que um espírito, por bem-aventurado que seja, não pode sentir o cheiro bom do capim gordura (que recém começa a florescer roxo nos campos). Para isso ele teria de ter um nariz. E nem pode sentir o vento frio das tardes de inverno, a lhe golpear o rosto. Ao que me parece, espíritos não têm pele. E (pobres) não podem jamais sentir o prazer de mergulhar no mar. Esta alegria animal está vedada aos espíritos, seres etéreos que, ao que consta, não sofrem os efeitos da gravidade (ou da gravidez). Sua leveza os protege de quedas de muros, mas lhes tira a alegria do mergulho. Saltam, e ficam flutuando no espaço.

Amo este mundo. Por isso não quero ir para o céu. Nietzsche sentia o mesmo. E até sonhou com o “retorno eterno“ - voltarei sempre a este mesmo lugar, o único que conheço, das coisas materiais do cotidiano, que vão desde o café com leite e pão com manteiga, pela manhã, até a música de Bach e os céus estrelados, à noite. Isto, para não se falar nos prazeres do amor, que não podem subsistir sem o corpo. Pois precisam do encanto dos olhos que dizem: “Como é bom que você existe...“. E do olfato, que percebe desde o “brabo cheiro bom de suor e graxa“, a que Adélia Prado se refere, até o perfume de pêssego maduro que vem da flor do imperador, tão discreta, e que Guimarães Rosa declarou ser a mais querida. E os ouvidos? As serenatas (antigas), o “eu te amo“ (eterno), os poemas - são todos seres materiais, que não existem sem a física da fala. Não posso imaginar um som espiritual, embora se diga que os querubins tocam harpas e cantam. Sons precisam de bumbos, trombones, violinos, dedos, sopro, corpo: são coisas físicas, corpóreas. E fico preocupado com o destino de Bach e Beethoven, espíritos nos céus, para sempre separados dos bons instrumentos da terra onde tocaram a sua música.

Por isso me alegrei com esta festa de nome latino, Corpus Christi, em que a cristandade comemora, teimosa e inconsciente, o corpo de Cristo. Fosse a celebração da sua alma, confesso que fugiria. Almas do outro mundo, boas ou más, são assombrações que causam medo. Sei que há um dia que as celebra, o dia de “todas as almas“, também chamado de dia de todos os santos, logo antes de finados. O que combina muito bem. A alma começa quando o corpo termina. Parece que acreditavam que as almas vagavam, penadas, por este mundo (dia das bruxas!), sofrendo e assombrando os vivos - que, neste dia, faziam orações por sua eterna salvação nos céus, deixando livre a terra para as coisas materiais e boas que nela moram. Mas este dia, Corpus Christi, a se acreditar na tradição, diz que Deus, cansado de ser espírito, descobriu que o bom mesmo era ter corpo, e até se encarnou, segundo o testemunho do apóstolo. Preferiu nascer como corpo, a despeito de todos os riscos, inclusive o de morrer. Porque as alegrias compensavam. E nasceu, declarando que o corpo está eternamente destinado a uma dignidade divina. Curioso que os homens prefiram os céus, quando Deus prefere a terra. Lembro-me do espanto do chefe índio que escrevia ao presidente dos Estados Unidos e dizia não poder compreender as razões que levavam os brancos a desejar, depois de mortos, ir morar num lugar muito longe da terra. Nós, ele dizia, precisamos do perfume dos pinheiros, do barulho da água, dos riachos, do cintilar da luz sobre a superfície dos lagos. Corpus Christi: divino é o pão e toda a terra onde cresceu, com a água que o fez germinar, e o vento que o acariciou, e o fogo que o cozeu. Divino é o vinho, alegria pura que dá asas ao corpo e o faz flutuar. Coisas do corpo: dentro dele cabe o universo. Não é à-toa que a tradição fala não em imortalidade da alma mas em ressurreição do corpo. Afirmação de que a vida é bela e o divino se encontra nas coisas materiais mais simples. Como dizia Blake: “Ver a eternidade num grão de areia“. Ou Fernando Pessoa: “Toda matéria é espírito“. E assim, como e bebo as coisas deste mundo, corpo de Deus...

Rubem Alves

02 maio, 2008

Porque escrevo sobre religião


Por Rubem Alves
Folha de S.Paulo, em 29 de abril de 2008

UMA LEITORA ME perguntou: "Por que é que você, professor universitário, escritor, gasta tanto tempo com essas coisas da religião?" Ela pensava que eu, havendo lido Marx, Freud e Feuerbach, deveria dar um uso mais científico ao meu tempo e ao meu pensamento.
Minha resposta é simples: gasto o meu tempo com os sonhos das religiões porque, como disse Shakespeare, nós somos feitos de sonhos. A história é feita com sonhos. Todas as coisas materiais que fazem a vida da civilização são feitas com sonhos. Escrevo sobre a religião num esforço para acordar os que dormem.
Lembro-me da propaganda de um carro que vi, faz muitos anos, numa revista americana: era um conversível vermelho, sem capota, parado num bosque. Não há ninguém no carro, e as duas portas estão abertas.
A sedução -o motivo comercial para seduzir o leitor a comprar- se encontra precisamente naquilo que não se encontra na cena, mas apenas na imaginação. Se as duas portas estivessem fechadas, a mensagem seria simplesmente o carro vermelho sem capota. Se só a porta do motorista estivesse aberta, a imaginação completaria a cena: ele deve estar atrás de uma árvore fazendo xixi.
Mas as duas portas foram deixadas abertas. As pessoas que ocupavam o carro estavam com pressa. A imaginação não tem alternativas, as imagens se impõem: um homem e uma mulher. Onde estarão eles? Fazendo o que? Bem dizia Bachelard que aquilo que se vê não pode se comparar com aquilo que não se vê. Quem bolou essa propaganda genial sabia que a alma é feita de sonhos.
Veblen, economista, também conhecia a alma humana e por isso declarou que não compramos "utilidades", coisas práticas, materiais. Compramos símbolos.
Isso que vou contar aconteceu no tempo em que a televisão fazia propaganda de cigarros. Cena silenciosa, sem uma única palavra: um bosque de pinheiros... Eu amo a natureza, amo os pinheiros, o perfume da sua resina. Os pinheiros cedem lugar a um regato de águas frias e cristalinas que corre sobre pedras. Eu também amo os regatos de águas frias e cristalinas. Uma campina verde florida. Minha imaginação sugeriu logo que deveria ser capim gordura com o seu perfume único o que me levou para a minha infância em Minas. Cavalos selvagens em galope, pelo negro brilhante. Estava certo o presidente João Batista Figueiredo quando disse que o cheiro dos cavalos suados era melhor que o cheiro de gente suada. Leonardo da Vinci declarou que os cavalos são os animais mais belos depois dos homens. Cheguei a imaginar que seria possível produzir um perfume másculo extraído do suor dos cavalos. Nenhuma mulher o resistiria!
Aí entra o rosto de um vaqueiro, maxilar de noventa graus, barba de um dia por fazer -homem que é homem não se barbeia todo dia, isso é coisa de executivo-, com um cigarro entre os dedos, estilo Humphrey Bogart e as palavras, as únicas palavras: "Venha para o mundo de Marlboro!" Não, ninguém está falando em fumar! Está se falando de um mundo de pinheiros, regatos, campinas, cavalos -tudo isso faz parte do sonho que mora nas espirais de fumaça da imaginação...
O conversível vermelho com as duas portas abertas e o mundo de Marlboro pertencem ao mundo das fantasias religiosas. São sacramentos. Porque sacramentos são todas as coisas feitas com uma mistura de matéria e símbolos.
Você entende agora porque eu penso e escrevo sobre religião?

Rubem Alves

20 abril, 2008

Ostra feliz não faz pérola

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que são as delícias dos gastrônomos. Podem ser comidas cruas, com pingos de limão, com arroz, paellas, sopas. Sem defesas – são animais mansos – seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras, muitas ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostra felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostra felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...” Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado dentro da sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar dele, do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de suas aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o seu trabalho – por causa da dor que o grão de areia lhe causava. Um dia passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a sua rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para a sua casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras de repente seus dentes bateram numa objeto duro que estava dentro da ostra. Ele tomou-o em suas mãos e deu uma gargalhada de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. Apenas a ostra sofredora fizera uma pérola. Ele tomou a pérola e deu-a de presente para a sua esposa. Ela ficou muito feliz...” Ostra feliz não faz pérolas. Isso vale para as ostras e vale para nós, seres humanos. As pessoas que se imaginam felizes simplesmente se dedicam a gozar a vida. E fazem bem. Mas as pessoas que sofrem, elas têm de produzir pérolas para poder viver. Assim é a vida dos artistas, dos educadores, dos profetas. Sofrimento que faz pérola não precisa ser sofrimento físico. Raramente é sofrimento físico. Na maioria das vezes são dores na alma.

Rubem Alves

08 abril, 2008

Alma

A alma é uma coleção de belos quadros adornecidos, os seus rostos envolvidos pela sombra. Sua beleza é triste e nostálgica porque, sendo moradores da alma, sonhos, eles não existem do lado de fora. Vez por outra, entretanto, defrontamo-nos com um rosto (ou será apenas uma voz, ou uma maneira de olhar, ou um jeito da mão...) que, sem razões, faz a bela cena acordar. E somos possuídos pela certeza de que este rosto que os olhos contemplam é o mesmo que, no quadro, está escondido pela sombra. O corpo estremece. Está apaixonado.
Acontece, entretanto, que não esxiste coisa alguma que seja do tamanho do nosso amor. A nossa fome de beleza é grande demais.(...)Cedo ou tarde descobrirá que o rosto não é aquele. E a bela cena retornará à sua condição de sonho impossível da alma. E só restará a ela alimentar-se da nostalgia que rosto algum poderá satisfazer...

Rubem Alves

28 março, 2008

Paraíso

No Paraíso não havia nem templos e nem altares. Como o Paraíso foi o jardim plantado por Deus, jardim onde se encontravam todas as coisas boas sonhadas pelo Criador, concluímos que os templos e os altares não se encontravam entre os seus sonhos. Não eram objetos do seu desejo. Se ele tivesse sonhado um templo ou altar, é certo que ele os teria feito. Segundo o que os religiosos acreditam, templos e altares são a casa de Deus. Deus mora lá. Reza feita na igreja é mais poderosa. É por isso que os piedosos fazem o sinal da cruz ao passar diante de uma igreja. No Paraíso não havia templos e altares porque Deus estava misturado com todas as coisas. Sua casa não era uma casa de quatro paredes. Eram as árvores, as flores, os frutos, as fontes, o vento... O poema bíblico da criação diz que Deus passeava pelo jardim ao vento fresco da tarde... Deus é uma palavra para ser calada, proibida de ser dita. Por isso os judeus eram proibidos de dize-lo. O nome Deus, para eles, era um grande silêncio. E de tanto fazer silêncio sobre ele, acabaram por esquecê-lo. Havia uma lenda de que, no dia mais sagrado do ano o Sumo Sacerdote entrava no Santos dos Santos, lembrava-se do nome de Deus e o pronunciava. E o universo inteiro o ouvia. Mas imediatamente todos o esqueciam. Quando se começa a falar o nome de Deus, é certo que se está falando sobre outra coisa que não Deus. Fala-se sobre Deus quando ele foi perdido. Para reencontrá-lo é fácil: basta caminhar em silêncio em um jardim.

Rubem Alves (Quarto de badaluques XXIX)

24 março, 2008

Oração pelos que vão morrem

Ó tu, Senhor da eternidade, nós que estamos condenados a morrer elevamos nossas almas a ti à procura de forças, porque a Morte passou por nós na multidão dos homens e nos tocou, e sabemos que em alguma curva do nosso caminho ela estará nos esperando para nos pegar pela mão e nos levar... não sabemos para onde. Nós te louvamos porque para nós ela não é mais uma inimiga, e sim um grande anjo teu, o único a poder abrir, para alguns de nós, a prisão de dor e do sofrimento e nos levar para os espaços imensos de uma nova vida. Mas nós somos como crianças, com medo do escuro e do desconhecido, e tememos deixar esta vida que é tão boa, e os nossos amados, que nos são tão queridos. Dá-nos um coração valente para que possamos caminhar por essa estrada com a cabeça levantada e um sorriso no rosto. Que possamos trabalhar alegremente até o fim, e amar os nossos queridos com ternura ainda maior, porque os dias do amor são curtos. Sobre ti lançamos a carga mais pesada que paralisa nossa alma: o medo que temos de deixar aqueles que amamos, os quais teremos de deixar desabrigados num mundo egoista. Nós te agradecemos porque experimentamos o gosto bom da vida. Somos-te gratos por cada hora de nossas vidas, por tudo o que nos coube das alegrias e lutas dos nossos irmãos, pela sabedoria que ganhamos e será sempre nossa. Se nos sentirmos abatidos com a solidão, sustenta-nos com a tua companhia. Quando todas as vozes do amor ficarem distantes e se forem, teus braços eternos ainda estarão conosco. Tu és o Pai dos nossos espíritos. De ti viemos e para ti iremos. Regosijamo-nos porque, nas horas das nossas visões mais puras, quando o pulsar da tua eternidade é sentido forte dentro de nós, sabemos que nenhuma agonia da mortalidade poderá atingir nossa alma inconquistável e, para aqueles que em ti habitam, a morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nas tuas mãos entregamos o nosso espírito" (Walter Rauschenbusch, Orações por um mundo melhor, PAULUS)

Via site do Rubem Alves

05 março, 2008

Questionamento

Eu me pergunto: por que os palestinos que se explodem como bombas vivas são considerados terroristas e Sharon e Bush não são? Os palestinos matam de forma heróica. Sharon e Bush de forma acovardada: que sejam outras as pessoas a morrer; não eles. Todos fazem uso da violência para atingir seus objetivos políticos. Todos matam inocentes. Vejam o que Bush fez naquele país paupérrimo, o Afeganistão. E vejam o que Sharon está fazendo com os Palestinos. Fico a pensar: o que é que liga Sharon à tradição profética dos hebreus? Os profetas sonhavam com o dia em que as espadas e lanças seriam transformadas em arados e podadeiras. Os sonhos de Sharon são outros: o que ele deseja é que os arados e podadeiras sejam transformados em tanques de guerra e mísseis. Como ele não tem nenhuma ligação espiritual com os textos sagrados do judaísmo, imagino que aquilo que ainda o liga à tradição de Israel seja o pênis circuncidado... A única diferença entre Bush, Sharon e os corpos-bomba (não mais se pode falar em homem-bomba porque algumas mulheres também se transformaram em bombas) dos palestinos está em que Bush e Sharon matam inocentes em nome de um estado, enquanto os palestinos matam sem ter um estado, em nome do sonho de recuperar as terras roubadas. O Estado justifica a violência. Violência do Estado não é chamada terrorismo. É direito de defesa.

Rubem Alves

03 março, 2008

Reforma Protestante

Eu sou de tradição protestante muito embora, para permanecer protestante, eu tenha me desligado das igrejas protestantes. É preciso esclarecer que a tradição protestante nada tem a ver, absolutamente nada, com esses movimentos religiosos que se denominam “evangélicos”. A tradição protestante não promete milagres, cultiva a razão, estimula a ciência, é profundamente ética, e a ela estão ligados nomes como Leibniz, Kant, Hegel, Kiekegaard, Albert Schweitzer, Martin Luther King Jr., Dag Hamarkjoeld, Dietrich Bonhoeffer, Mondelaine. Em que consiste essa tradição? A Reforma, contrariamente ao nome, não foi um movimento que visava “reformar” a Igreja Católica do século XVI: não se coloca remendo de pano novo em tecido podre. Não é um conjunto de doutrinas teológicas diferentes como justificação pela graça e sacerdócio universal das pessoas. Não é uma nova organização da igreja. Quem só sabe essas coisas não viu o que é essencial. Para dizer o que foi o espirito da Reforma vou me valer de uma peça musical, a 2a sinfonia de Gustav Mahler (1860 – 1911 ), chamada “Sinfonia da Ressurreição”.. Eis como ele mesmo descreve o último movimento da sinfonia: Chegou o dia do julgamento final. O terror cobre a terra. A terra estremece, as sepulturas se abrem, os mortos ressuscitam, poderosos e humildes, reis e mendigos, justos e injustos. Um grito terrível enche o universo com um pedido de perdão que enche o espaço. Ouvem-se as trombetas apocalípticas. É hora do ajuste de contas, débitos e créditos, céu e inferno, inferno tão bem pintado nas tela horrendas de Hieronimus Bosch. Então, em meio a um silêncio sinistro, ouve-se o canto de um rouxinol distante. Uma grande tranquilidade invade tudo. E eis, surpresa! Não há julgamento, não há débitos e créditos, não há justos e pecadores, não há poderosos e humildes, não há vinganças e recompensas, não há condenações! Um sentimento de amor perfuma o mundo.” A Reforma foi o canto de um rouxinol nesse horror de culpa e medo. Não há julgamento. Deus é todo bondade.

Rubem Alves