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24 novembro, 2010

Creio na prece poderosa

Nossos rumos são decididos na prece. Ela nos antecede. Orienta. Gesta nossos compromissos. Pendula nossas paixões.

Mas para os que já se decepcionam com o que parece ser uma recrudescência piedosa, meu escape: não qualquer renovação, mas uma que me potencializa a vida. Eu que não sabia mais o que fazer com a oração, tenho-na de volta, melhor e poderosa. Porque acordei para o que sempre esteve diante dos olhos. Orar é atravessar conflitos de imaginação. A tensão que nos lidera.

É muita ingenuidade a nossa continuar a crer que a vida é decidida, no que pode ser decidida, no instante. Nada nele se resolve. O instante apenas encena fugidio o que a imaginação ensaia à exaustão.

Nossas impaciências, acessos raivosos, medos, prazeres, tolerâncias, resiliências, atrações, repulsas, docilidades, cada uma de nossas mais humanas reações são constituídas em nossas preces.

Mas para os que começam a se empolgar com o que parece ser minha mão à palmatória, meu lamento: não qualquer oração, não o rito em busca de ascese, mas a oração que todos fazemos sempre ao transcender o que está aí, aspirando ao que pode estar lá. Nossa espiritualidade profunda é a vida de oração, a imaginação que nos liberta momentaneamente do curso irresistível do tempo e o antecede nos sonhos. A imaginação é a oração inexorável da alma.

Talvez aqui comecemos a melhor entender o prefácio diabólico da história de Jesus. Ou a tentação do deserto. Tão importante quanto a gestação do Filho de Deus no ventre humano de Maria foi a gestação do Filho do Homem no chão desértico da imaginação. O Espírito que o entretece em Maria, o inspira para a jornada de oração no deserto. Do ventre mariano nasce o menino. Do deserto da imaginação, o homem. Das contrações do útero à luz mundana. Das tensões do deserto à lucidez humana. “E o Espírito o levou para ser tentado no deserto.”

A narrativa indica os lugares virtuais em que os fatos se deram. Jesus freqüentou lugares para além do deserto em cada uma das três tentações do Diabo. Tudo o que ali aconteceu teve na imaginação de Jesus o espaço mais decisivo. A pedra nunca virou pão, mas bem que poderia. Ninguém enxerga todos os reinos e a glória deste mundo, muito menos os possui em um instante, mas pode imaginá-los seus. Jesus nunca deixou o deserto para viajar ao templo e escalar seu pináculo, mas sentiu a vertigem do lugar mais alto da Casa do Senhor sem nela ter posto os pés. Numa sucessão de tensões de mundos imaginados, Jesus escolheu de que vida ser ator.

O destino de Jesus não foi definido no Caveira, mas em um conflito de imagens no deserto de suas orações. A cruz foi o fim de uma trajetória seguida após a bifurcação dos caminhos da imaginação.

No deserto, Jesus enfrentou nossas mais graves e diabólicas imaginações. Quero pensar o “diabólico” no sentido de Leonardo Boff. O oposto do “sim-bólico”, que agrega, ou torna um mesmo é o “dia-bólico”, que separa em dois distintos. Abro mão de discutir o elemento mitológico ou não da figura do Diabo, para apenas divagar sobre o sentido óbvio do conflito, por isso “dia-bólico” da experiência de Jesus na tentação do deserto. Ali mundos possíveis se conflitaram na alma de Jesus.

Orar é transcender o mundo como está na tensão de mundos possíveis. A guerra espiritual que antecipa a história humana.

No deserto, portanto, talvez assistamos ao conflito de dois mundos possíveis. Um mundo excepcionalmente organizado para o benefício do eleito. E o mundo originariamente desorganizado para o benefício de qualquer um. O mundo dos controles ou mundo das liberdades. O mundo da providência para poucos ou o mundo das contingências para quem quer que seja.

No mundo dos eleitos, a despeito de todos os que já padeceram de fome, o pão é excepcional, até a pedra do deserto que a todos embrutece, aos abençoados alimenta. E Jesus parece nem precisar tanto assim de pão, o que carece mesmo o Diabo advinha. Confirmar que é bom o bastante, que é Filho de Deus. Só deseja que pedra vire pão quem quer afirmar-se a todo custo. “Se tu és Filho de Deus…”

No mundo das exceções, as políticas não se dispersam para o bem de muitos, mas convergem para o bem de poucos. A força do poder está em descobrir quem eu posso ser a despeito dos demais.

No mundo das providências nem nossas leviandades tem valor. É o mundo dos irresponsáveis. Joga-se do pináculo abaixo porque a vida não é pra valer. Deve haver anjos, gênios e milagres sempre a nos blindar contra o curso impessoal dos acontecimentos.

No diabólico jogo da imaginação, Jesus recusa o pão que para alimentá-lo tem que ser pedra para muitos. Despreza os poderes que ao servirem-no também prostram sua consciência. Desmerece qualquer promessa que tape seus olhos para a tragédia de uma vida irresponsável.

Não foi por acaso que Jesus enfrentou a morte na cruz bravamente. Que foi o mais humano dos humanos. Foi porque fez a prece com a consciência ampla de seu poder. Porque entendeu que imaginação não é brincadeira. Que imaginar é um poder ser. É decidir. Salvar.

Elienai Cabral Junior

19 janeiro, 2010

Deus não liga muito para o que oramos

Pensei algo sobre Deus que me tem feito muito bem. Deus não leva muito a sério o que pensamos e dizemos. Não pode. Pensamos e falamos com tanta imprecisão que se o Altíssimo considerasse nossas orações e intenções estaria com sérias dificuldades em sua misericórdia. Seria o colapso da misericórdia divina ou da existência humana.

Na maravilhosa e citadíssima parábola do Filho Pródigo, há essa manifestação da indiferença amorosa de Deus. O filho que abandonou a casa do Pai para prodigalizar seu egoísmo, gastando tudo o que tinha, retorna com um pedido na ponta da língua: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teu empregados’. A reação do Pai é uma indicação incontestável de como Deus reage às nossas expectativas e súplicas. Ao tentar dizer o que queria ao Pai, o filho pródigo-culposo teve sua fala pulverizada pela indiferença bondosa do pai: ‘Mas o Pai disse aos servos: Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’

De tanto que ama não dá para levar a sério o que diz o filho. Sua alma culpada e instável torna suas palavras impotentes para comunicar o que realmente precisa.

Outro episódio que sugere com força essa desconsideração divina com nossas orações é o que descreve os conflitos de Jonas. Debatendo-se com a tarefa de profetizar à Nínive, o profeta vai parar no ventre de um grande peixe. De lá clama por livramento. De volta à vida, Jonas prega a condenação da cidade que quer ver destruída. Nínive se arrepende de sua maldade e Deus se arrepende de a ter levado a sério. Não mais será destruída a Nínive detestada pelo profeta. Em crise com a incoerente misericórdia divina, Jonas parece reivindicar que Deus o leve a sério e a sua lógica de justiça. Sua queixa é a de ver um Deus mais bondoso e propenso a perdoar que justo e disposto a punir. Parece não levar tanto a sério a vida incerta da pessoa humana.

Jonas ora de novo. Agora pede a morte. Alguns dias depois de pedir a vida. Quer viver quando suas expectativas ainda podem se cumprir. Quer morrer quando se vê impedido de impor sua lógica ao mundo. Quer viver quando Deus ainda pode ser dobrado à sua teologia. Quer morrer quando sua teologia é relativizada pelo próprio Deus.

Deus relativiza suas compreensões teológicas quando faz a brincadeira da aboboreira. Cresce em um dia para dar conforto, morre no outro para afligir. Do jeito que é a vida. Do que jeito que é a alma humana.

Vejo Deus agachado às angústias de Jonas. Parece convidar Jonas para entender seu coração. ‘Você acha razoável sentir pena de uma planta pela qual nada fez e não entende porque eu sinto pena de cento e vinte mil almas confusas de Nínive?’ Se nem as orações de Jonas e nem seus conceitos teológicos conseguem não ser contraditórios, como poderia Deus levar suas súplicas e teologia muito a sério?

Desconfio que foi por isso que Paulo disse aos Romanos que por não sabermos orar como convém, Deus ora em nós. Para nos levar a sério, Deus precisa não levar muito a sério nem o que pensamos nem o que oramos.

Elienai Cabral Junior

28 dezembro, 2009

Desenraizamento

Dia desses, flagrei-me triste de tão solto. Faz tempo que me incomoda uma leveza ruim. Sinto meus afetos pulverizados por todas as minhas partidas. Não sei o que é viver mais que cinco anos em um mesmo lugar.

Invejo os velhos amigos. Meus velhos já não são tão amigos. Boquiaberto e silente, observo o desconhecido mundo daqueles que convivem desde a muito. Nem tenho sotaque, nem grandes e antigas amizades, nem velhas memórias da mesma história, nem o silêncio da intimidade que prescinde das palavras e nem as conquistas que demandam tempo.

O tempo? Nada dele sei. Sei do espaço. Percorro tantos quanto fôlego precisar para do tempo fugir. Sei do Rio, Fortaleza, São Paulo, Curitiba, Brasília. Mas de ontem eu me esqueci. Não tenho ontem. Tenho somente lugares.

Despedi-me de todos os meus amigos. Sou um Sísifo dos afetos. Ah! Sei tudo de recomeço. Condenei-me a sempre empurrar morro acima minhas novas histórias, amizades e projetos. Quando chego, já estou indo. Se você precisar de conselhos sobre como reiniciar a vida, pergunte-me. Contanto que nada queira saber sobre conclusões. Nada sei sobre os dias seguintes.

Talvez por isso tenha aprendido a amar as corridas de rua. Esporte dos solitários. Daqueles que conseguem ir mesmo que desacompanhados. Daqueles para quem importa mais ir que ficar. Cada corrida é uma despedida e toda chegada é provisória. A alegria da medalha apenas indica a próxima aventura. Somente quem nunca chega o bastante está apto para ser um corredor de rua.

Mas sou bom de conversa. Tenho muitas histórias para contar, caso aceite minhas várias e avulsas memórias. Mas por favor, como já combinamos, não me pergunte sobre depois. Toda sequência é para mim uma incógnita.

Sinto-me um Don Juan. Aprendi a seduzir, mas não sei não me despedir. Medo de chegar? Medo de nunca chegar? Medo de chegar aonde realmente quero? Talvez. Tais vezes.

Elienai Cabral Jr

21 julho, 2009

Meus pequenos Profetas

De repente, um silêncio. Um suspiro apressado e a pergunta atravessada. – Mãe, por que Deus não fala comigo? A mãe, em socorro da piedade, afirma o imponderável. – Claro que fala, Deus fala com todos, Thales. É só prestar atenção. Um novo silêncio. A cabeça maneada em aflição. – Não fala, não. Quer ver? O silêncio novamente, proposital. – Ta vendo? Não disse? Comigo não fala!

Inverno, frio e banho apressado. A mãe protege a filha embrulhando-a no roupãozinho. Vai à frente, separa a roupa apropriada, mas a menina é distraída. Estressada, o pedido da mãe vira ordem. A ordem, ameaça. Vem agora, senão… Com cara de aprontação, Gabriela chega à porta. Para. Dedo indicador na bochecha. Olhos voltados para cima. – Sim. Tá bom. Como se falasse com alguém. A misteriosa conversa termina e a menina deixa a mãe acabar o serviço. A pergunta é inevitável. – Você estava falando com quem, Bibi? Prontamente: – Com Deus, mãe. E o que foi que Ele disse? Insiste a mãe. – Ele disse que não gosta de mãe que briga com a filhinha! Surpreende.

Ambos, além de meus filhos, são meus profetas. Os melhores. Daqueles que avisam que o rei está nu. O Thales, com três anos, devia vir tentando ouvir essa voz que todo mundo diz que ouve. A Gabriela, na época também com três, foi um pouco além. Descobriu exatamente de onde vinha a voz. Profeta bom é aquele que desmistifica a vida e nos devolve ao chão da realidade.

Um Deus que cria seres tão frágeis, tão mutantes, tão mortais não deveria pretender uma relação baseada em afirmações tão absolutas quanto querem os religiosos. A pretensão religiosa de certeza absoluta sobre o que pensa a respeito de Deus apenas esconde o desespero pela imprecisão da vida. Congelamos nossas idéias sobre o divino debaixo da revelação bíblica como se ela não fosse feita também de palavras. Como se uma outra substância a constituísse, um tipo de superpalavras, um hipervocabulário que está imune à nossa humanidade.

João, para desespero de alguns raivosos fundamentalistas, afirma que ninguém jamais viu a Deus e localiza no próximo o rosto do Altíssimo. Jesus, na parábola do Julgamento das Nações, coloca na face dos mais sofridos o seu rosto. Fazer a Jesus é fazer aos que tem fome e sede, estão nus, presos e sem-terra (condenados a serem sempre estrangeiros no nosso mundo de posses). Mas um Deus que se revela no próximo é tão incerto que reivindica toda a minha sensibilidade. Um Deus que se mostra no rosto mais sofrido não quer me dar dogmas, mas compaixão.

As palavras que não passam não são linguagem, são afetos e relações, é socorro aos aflitos e amizade. Nossas precárias palavras, cujos sentidos nos escapam como água entre os dedos, nunca param de passar. Ouvir a voz de Deus não é ouvir um comando. É sentir o irmão. O Verbo Divino que revelou Deus foi um “homem experimentado em dores”, alguém que até desprezaríamos, completa Isaías. Foi Deus se compadecendo entre nós. Por isso, acredito, Jesus desiste de firmar a Verdade em frases e o faz em sua existência amorosa. Sua afirmação não foi ‘o que eu disse é o caminho, a verdade e a vida’, mas quem eu sou.

A grande verdade do cristianismo só começa com letra maiúscula porque é nome próprio.

Elienai Cabral Junior

01 julho, 2009

Entre o bocejo e a taquicardia

Ouvi tantas vezes que não consigo dar um rosto ao jargão. ‘A lógica de Deus é diferente da lógica humana’, ou ‘Deus não cabe na lógica humana!’ Diz-se como castração de qualquer mente ávida. Aquela que apenas anseia por melhor compreensão do que já se fala sobre Deus. Esse tipo entediante de argumentação poderia muito bem ser substituída por ‘vamos mudar de assunto porque estou boiando’, ou ‘já que eu não consigo contrapor, que tal desdenhar?’, ou ainda, ‘se quiser uma vida devocional, é melhor emburrecer um pouco’.

É o tipo de frase que parece mais um ruído que uma mensagem. Ela não diz nada. Vejamos. A lógica é qualquer construção lingüística que busca organizar nossa compreensão de mundo. Ninguém pensa sem palavras. Ninguém fala sem uma lógica. Uma palavra só é linguagem, e não ruído, porque significa algo. E só significa porque está conectada a outras palavras e sentidos que compõem um esquema conceitual, ou um paradigma, ou uma lógica, ou ainda, uma visão de mundo. Sequer dizemos ‘Deus’ sem uma lógica.

Um Deus sem lógica é um ruído absurdo. É claro que nenhuma lógica pode pretender descrever Deus como uma realidade em si. Porque nenhuma lógica pode sequer ter a descrição como um objetivo, muito menos uma realidade em si. Toda lógica é apenas uma forma de resolver problemas. Nunca a descrição definitiva e exaustiva de uma realidade. Uma lógica superada é uma lógica que não consegue mais resolver os novos problemas. Uma nova lógica é uma lógica que consegue resolver novos problemas.

Estou sofrendo de uma síndrome vexatória. Do bocejo ante o inefável. Fico entediado facilmente com as falas do tipo piedosa e devocional. Principalmente aquelas que enrugam as testas e comprimem os olhos para estampar certa resignação por crer em um ser absoluto, incondicionado e, portanto, inexplicável como Deus. Preciso sempre esconder o rosto, porque não resisto ao bocejo.

Um Deus absoluto é enfadonho. Tão enfadonho quanto tentar ler um livro sobre um assunto completamente desconhecido. Com termos técnicos inacessíveis. Ou assistir a uma partida de um jogo de regras desconhecidas, narrado em uma língua nunca antes ouvida por você. Ainda assim, meus exemplos não alcançam o tédio do absoluto. Porque em ambas situações haverá alguns pontos de afinidade. Uma frase aqui e outra ali serão compreendidas entre tantos termos técnicos. Um movimento ou outro do jogo fará algum sentido depois de algum tempo de observação. Mas um ser absoluto é sempre um chatíssimo “totalmente outro”. Não há nada para se compreender dele. Não há nada para dele se dizer.

Só existe compreensão de coisas relativas. Só há conversa e comunhão entre os relativos. Apenas os relativos se relacionam (a brincadeira com as palavras de mesma raiz e sentido foi irresistível). O Absoluto é solitário. Intransitivo. Intangível. É a mesmíssima eterna reafirmação de si. Ou seja. O Chato.

Nem Deus teria agüentado, acredito, tanta solidão. Desistiu já antes da fundação dos tempos e decidiu relativizar-se. A criação do humano é a taquicardia que faltava em Deus. Mas como em um risco incontornável, humanos que somos, cedo descobrimos o trabalho que dá a vida dos relativos, ou imperfeitos. Preguiçosos, começamos a acreditar sermos capazes de definir absolutos. Poderes. Estados. Posses. Religiões. Igrejas. Opiniões. Teologias. Deus. A preguiça de relativizar sempre gera absolutos entediantes.

Novamente, Deus relativiza. Agudiza a relação. Vira gente. Faz-se um de nós. Come e bebe com os mais relativos dos mortais, aqueles que os absolutos chamam de pecadores. Irrita-se com nossos discursos incondicionais, de tão dogmáticos. Experimenta nossas mais profundas fadigas, entre as mais tensas disputas de um poder que para ser inquestionável tem sempre que sacrificar alguém. Morre para escandalizar. O escândalo da desproporção. Tanta força e poder para esmagar um frágil e silente filho de Deus. Um elefante arrogante pisando uma formiga é a mais ridícula das bravatas. Deus encarnado é qualquer pretensão de absoluto ridicularizada e a recuperação de uma fé outrora dormente. Um Deus que vive a nossa vida e morre a nossa morte é a fé adrenalizada.

Nada melhor que o escândalo da cruz, de um Deus relativo a nós, para livrar-nos do sono de uma vida entediada. Jesus não é a encarnação do verbo por falta do que dizer. Ao contrário, porque depois de Jesus não falta o que dizer de Deus.

Elienai Cabral Jr.

17 dezembro, 2008

A Bíblia é Babel


A Bíblia não pode estar acima da vida. A maior autoridade na vida é a vivência mesma e não o texto sagrado da religião. O que contraria um pilar da tradição evangélica. Proponho inverter a afirmação tradicional. A vida é a maior autoridade sobre a Bíblia.

[...] Acredito que foi por isso que Jesus suspendeu a prática do jejum em determinado momento, rito previsto e normatizado na Lei, negando qualquer sentido ao jejum na “presença do noivo”. Como também colocou o Sábado a serviço da vida humana e a libertou de seu senhorio desastroso: o sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado. A vida é sagrada e não o mandamento do sábado. A Bíblia foi feita a partir da vida humana e não a vida humana a partir da Bíblia. A Bíblia sagra-se na vida.

[...] Não tenho dúvida de que essa necessidade de alçar o texto bíblico acima do mundo vivido é uma manobra de perpetuação de poder, ou seja, da religião instituída. Apenas a instituição teme a leveza da vida humana, sua imprevisibilidade a ameaça, seu descontrole a esvazia, sua circunstancialidade a relativiza. Por isso o texto precisa emoldurar a vida humana e confirmar a relevância da religião organizada. Não consigo parar de repetir que a Bíblia que se posiciona acima da vida é sempre a imposição de uma interpretação dela e nunca ela mesma.

[...] A Bíblia em si mesma é a sabotagem divina à sistematização dos amantes do poder. A Bíblia é Babel. A confusão de línguas e histórias impedindo a divinização dos edifícios. Babel é a vida liberta por Deus das amarras hegemônicas dos poderosos. A Bíblia é Deus confundindo os esforços cartesianos de aprisionamento da verdade. A Bíblia é Deus libertando a vida das razões absolutizantes. A Bíblia é Deus babelizando os poderosos e espalhando a verdade por tantos viventes quantos haja. A Bíblia é tão narrativa quanto à vida. E tão desorganizada, imprevisível, imprecisa, surpreendente e contraditória quanto a vida de qualquer um de nós.

[...] E é justamente porque a Bíblia se parece muito com a vida humana que tem muito e sempre o que dizer à humanidade. Sendo um livro essencialmente narrativo é Deus falando enquanto vivemos.

Elienai Cabral Junior

29 agosto, 2008

A Bíblia que se esquece é a que vale

Memorizar versículos sempre foi uma prática distintiva dos protestantes. Uma memória com a promessa de municiar o crente para o enfrentamento da vida. Para cada situação há os recortes do texto bíblico capazes de diluir resistências, superar dúvidas, vencer embates pela razão, acalmar, motivar, consolar, sustentar o dono da memória enquanto vive.

Lembro dos cultos em que o louvor era seguido por um momento de recitação de versículos da Bíblia. Na Escola Bíblica, memorizar o versículo bíblico era condição para uma aula bem sucedida. O bom “evangelista”, este conquistador de adesões, destacava-se pela habilidade de sacar o texto, com a devida referência bíblica, apropriado para cada contestação dos resistentes à pregação. Uma pregação bíblica confunde-se entre protestantes com uma pregação que cita muitos textos bíblicos, mesmo que a exposição das idéias mostre-se rasa ou um lugar comum.

A mania de memória além de carregar a crença acrítica de que o conhecimento imediato do texto é posse plena da verdade, desprezando a mediação dos conceitos, também expõe a falência do projeto de quem dela faz uso: a busca desesperada de memória. Buscamos memória porque perdemos a presença. Quanto menos há, de mais lembrança carecemos. Quem faz o álbum das fotos é quem encerrou as férias. Quem, além do apaixonado por fotografia, gasta as suas férias para apreciar as fotos que dela está fazendo? O fato presente prescinde de memória. Ninguém precisa lembrar do que ainda está fazendo. Fixam-se lembranças do que agora está vazio.

Ninguém precisa se lembrar do que presencia. E quanto mais presentes nós estamos em um movimento mais dele nos esquecemos. A melhor imagem que me ocorre é a do motorista. Dirige bem quem se esquece dos mecanismos da direção e se ocupa tão somente do trânsito. Quem é o bom motorista? O que precisa listar de memória cada movimento do câmbio e sua sincronia com os pedais, ou quem o faz sem sequer se dar conta de que pressiona o pedal da embreagem à medida que encaixa a próxima marcha? Aprendemos a dirigir quando nos esquecemos dos mecanismos da direção enquanto dirigimos.

É assim com tudo o que é presente na vida. Quanto mais presente e pertencente a nós algo é mais dele nos esquecemos. É assim quando lemos, quando fazemos cálculos, quando jogamos, quando fazemos sexo, quando comemos, quando vivemos.

A dor é outro exemplo. Não nos lembramos das partes do corpo se com elas está tudo bem. Quando nos lembramos do dente é porque ele está doendo. A lembrança no corpo é sua doença.

Não pode ser diferente com a Bíblia. Ela é uma literatura que de tão identificada com a nossa vida é viva. Sua memorização é certificação de seu adoecimento ou morte. Sua presença em nossa prática, relações, escolhas, sentimentos, moralidade, afeições, é proporcional ao seu esquecimento. Se pudermos falar de uma mente bíblica, ou de viver biblicamente, diremos que uma prática bíblica é a que da Bíblia não precisa fazer referência para por ela ser afetada. Pois o que precisa ser ritualmente memorado está longe, tanto quanto se esquece de algo de tão presente que se faz.

Niezsche denuncia a memória como um mal humano na Segunda Dissertação da sua Genealogia da Moral. Chama a memória de desejo de controle do futuro. Precisamos de memória porque na ânsia de controlar o futuro fazemos promessas e com elas comprometemos nossa existência com o que não está mais presente. Essa necessidade de memória impede o esquecimento como o corpo doente é impedido da digestão. O indivíduo que busca a memória é como o apéptico, o que não faz digestão, regurgitando idéias mortas, ressentindo o que já passou.

A melhor Bíblia é a que esquecemos de tão digerida e absorvida por nossa vivência. A Bíblia que precisa ser memorizada é uma porção indigesta. Nem poderia ser diferente. Transformá-la em uma coleção sistemática, simétrica e absoluta de verdades é roubá-la de sua digestibilidade, sua profunda e radical penetração em nossa vida. A Bíblia que deixa de ser literatura, visto que é essencialmente narrativa e poética, torna-se morta de tão distante e estática. Um clamor desesperado à memória. Um mortuário da fé.

A Bíblia que está de fato em nós é a que esquecemos. De tanto que faz sentido. De tanto que nos permeia.

Elienai Cabral Junior

23 junho, 2008

Salvos da perfeição

DEUS DE TÃO PERFEITO conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?

A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.

Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.

Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.

Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

Elienai Cabral Junior

31 maio, 2008

Aspersão

Só as palavras me salvam. Descobri que as palavras me curam. Aprecio prazeres como quem quer continuar vivo. De todos que encontro, poucos me atravessam esteticamente como os que falam, escrevem, traduzem, deliram, pensam, significam ou simplesmente salvam-me de mim: êxtase. Quando tenho fome, desejo quitutes. Cansado, sonho acordado com a cama. Carente, busco em brasa o corpo amante da esposa. Mas doente, desespero por palavras. Devoro Pessoa, Quintana, Adélia, Drummond, Lya Luft, Mia Couto, Rubem Alves, Chico, Lenine, Kierkegaard, Nietzche. Gente que proseia a vida. Gente feita e fazedora de palavras, essas que me arrancam de mim, doente e triste. E se me devolvem a mim, quando me devolvem a mim, livram-me de mim.

Redescobri o evangelho, a boa-notícia bíblica se faz revelando de Deus que é palavra feita gente, verbo encarnado. A novidade luminosa cura o povo que andava em trevas nas réstias das palavras. Jesus é a vida apalavrada, redimida, curada. Verbo generoso. Palavra que sente, abraça, chora, come e bebe, vive e morre, ressuscita e arrebata.

Deus não é gente sem o verbo, humanizar é palavrear. Homem não é gente sem palavras, divina é a palavra, a mais humana delas. Nas palavras encontro Deus, sem que dele mesmo fale. Nelas, acho-me, sem que a mim mesmo explique. Anônimos, livres e voláteis, eu e Deus, tudo e todos. Amantes. Amigos. Amores. Redenção.

Há as palavras que broxam, mordaças do eros.

As que violam, bofetes da ignorância.

Espanto estético, as que enfeiam, tribufus,

falatórios descuidados, mal amadas.

Mas há as palavras falantes,

do sombrio e luminoso,

do incerto e verdadeiro,

inquietas e sossegadas,

da vida, de nós, do mundo de mim mesmo, misterioso e escorregadio, lugar para o divino, para as palavras.

Acordo calado, olhar lúgubre, suspiro de quem carrega a vida como morte. Peso que esmaece as pernas e os braços, quase encerra as pálpebras. Olhos ardidos de angústia. Fico assim bem mais que gostaria de admitir. Até que as palavras me encontram, distraído de tristeza, sussurram por minha atenção. Se olho, ouço. Aos ouvidos, imagino. Se escrevo, como que paridas por mim no papel, na tela, nos nervos. Posso senti-las bombeadas do coração, esparsadas sob a pele, a alma latejando. Aspergido por palavras, já sou outro. Melhor e o mesmo.

Elienai Cabral Junior

26 janeiro, 2008

O ano da sabedoria

Já se perguntou por que fracionamos o tempo? Por que o dividimos em pedaços de tempo? Milênio, década, ano, mês, semana ou dia? Veja. Não só contamos o tempo: quantos anos ou meses? Faltam quantos minutos para o novo ano? Além de contarmos o tempo, nós o dividimos em pedaços com nome. Pedaços que significam. Mas o tempo por si só é indiferente ao nosso calendário. O tempo passa sempre e irresistivelmente. Não interessa se mudou o mês, se acabou a semana, ou se inicia um novo ano. Por que, então, organizamos o nosso modo de lidar com o tempo dividindo-o em frações com nome?

Arrisco uma resposta. Porque somos carentes de sabedoria. O tempo passa com uma força que nada ou ninguém pode detê-lo. Minucioso e implacável. Aconteça o que acontecer. Mas nós não podemos aceitar que ele passe sem sentido, sem significar algo. Que ele venha sem que nós possamos esperar um futuro melhor. Que ele passe e nós não possamos nos despedir do que foi ruim. Que ele siga em frente e nós fiquemos com as mãos vazias, ou será com a alma vazia?

Há duas maneiras de dar significado ao tempo. Uma é iludi-lo. Tentar passar a perna no tempo. Tentamos trapacear o tempo quando fingimos que o passado não foi importante. Vejo isso acontecer quando alguém sugere renunciar o passado ou simplesmente esquecer tudo e seguir em frente. Quem tenta trapacear empurrando para debaixo do tapete o que passou, descobre tarde que o passado tem o poder de estar sempre e amargamente presente quando não é assumido. Outra forma de tentar trapacear o tempo é o otimismo ingênuo. No próximo ano tudo será bom, tudo dará certo! Basta ter fé. Basta orar com força. Basta acreditar e tudo será um céu de brigadeiro e um mar de almirante! Não demora muito e se descobre que o novo ano envelhece rápido e os problemas não tratados se repetem como em uma ladainha. Não adianta ter fé, orar com força ou ser otimista se as causas dos problemas e vícios não forem enfrentadas.

A outra maneira de lidar com tempo é a sabedoria. É disso que fala o poeta no Salmo 90: ensina-nos a contar os nossos dias para que alcancemos um coração sábio. A sabedoria não chama de belo o que foi feio, nem finge que o mal não aconteceu. Também não se engana com o futuro. Sabe que a vida continua sendo uma mistura de aflição e prazer. Que há coisas que melhoram e coisas que pioram. Mas não se rende a um conformismo suicida. Olha para o que passou e aprende. Olha para o futuro como um tempo não definido e toma as decisões que importam.

Tenho compartilhado com alguns amigos uma impressão sobre o ano de 2007. Talvez o ano mais difícil e dolorido dos vinte e seis da história da Betesda. Acredito que o ano de 2007 ainda será o ano mais importante de nossas vidas. O ano em que nossas ilusões desmoronaram (e é sempre muito melhor viver sem ilusões). Em que o discurso prepotente de uma jovem igreja teve que dar lugar a uma confissão de fraqueza. Em que as pretensões de gigantismo, vaidosas e distantes do Reino proposto por Jesus Cristo, cederam lugar para projetos mais afetivos e modestos, que se parecem muito mais com o modo como Ele andou entre nós.

Zuenir Ventura escreveu uma obra que relata os acontecimentos terríveis da Ditadura Militar no ano de 1968, o tema escolhido é significativo: “1968, O Ano Que Não Terminou”. Não terminou porque repercutirá para sempre na história do povo brasileiro. Ouso dizer que 2007 é um ano que não pode acabar. Ele precisa continuar em nossas vidas. Não como um remorso, ou como uma ferida aberta. Nem como um demônio a ser exorcizado. Mas como uma presença redentora. Um ano crucificado. Um ano em que aprendemos a morrer para descobrir o que realmente é viver. Um ano debaixo do sangue do Cordeiro. Não um ano para tirar lições, chega de reduzir a vida à doutrina, mas para arejar nossa humanidade. O ano que nos terá inspirado a amar mais e esperar menos. A lamentar menos e cuidar mais. A abraçar mais e avaliar menos. A doutrinar menos e crer mais. A fazer menos e ser mais. A estender mais a mão e prometer menos. Mais vida e menos estratégias. Mais misericórdia e menos religião. Mais Betesda e menos denominação.

Elienai Cabral Junior

07 janeiro, 2008

Alma lenta

Descubro tardiamente que minha alma é lenta. Meus pensamentos chegam sempre primeiro e organizam a cena, parece que dá para continuar sem muitos prejuízos. Meus sentimentos, também. No meio da confusão, sinto-me sempre forte, lúcido. Minha tristeza e desilusões são tímidas sempre. Depois de tudo fico achando que sou melhor do que imaginava. Que resisti incólume.

Mas então chega a alma. Bem depois de tudo. Com a cara indolente de quem deixa para depois. Sua lentidão me irrita. Dá vontade de sacudi-la e dizer: por que você nunca vem junto comigo? No entanto, lenta e inclemente, traz todas as minhas verdades. Toda a minha estupidez. Ela parece ter a missão de não deixar que minha história durma inerte.

Depois de tudo, vem continuar as conversas. Do dia anterior, dos enfrentamentos adiados. Das agressões arquivadas como desimportantes. Das decisões que, diferentes, a tudo poderiam sempre mudar. Das evidências apontadas, mas desconsideradas. Dos medos silenciados por desejos mais fortes.

Habilmente, minha alma, ressoa o barulho de meses atrás, das ofensas ou apenas insinuações. Estas, sempre mais devastadoras. Quem insinua encapsula nas reticências o pior veneno e por isso destrói por mais tempo e com mais dor. A alma se encarrega de tirar das cápsulas da memória antiga o veneno que até então não havia me feito tão mal. Vem exigir de mim que diga o que não disse. Não admite as poucas e atrapalhadas falas, implacável, pune-me. Vem lembrar-me os desencantos. Vem arder meu peito com tudo o que já era. Vem sussurrar minhas impotências. Vem dizer-me que sou menos.

Chega sempre depois e muito deprimida. Vem chorar quando tudo já pede para agir. Vem me mandar parar quando já não posso mais ficar. Vem cobrar de mim que deixe de crer naquilo em que não creio mais. Vem gorda e pesada. Doem o pescoço e as pernas. Doem os ossos e os olhos. Doem as lágrimas nas pálpebras. Dói viver.

Alguém pode xingá-la acusando-a de ressentida. Injustiça. Ela é lenta porque nossa pressa é uma mentira. Minha lenta alma vem dizer que não foram inertes as palavras que ouvi. Porque tudo o que é de verdade sofre. É ela que me impõe uma sentença, viver transforma. A minha alma é a minha condenação a jamais viver à toa.

Se não doesse tanto, faria um elogio a minha alma: você é a mais linda verdade que habita em mim, graças a você minha vida é grave.

Se a dor que me faz sentir não fosse tão real e se, neste exato momento, não estivesse chorando, diria com uma ponta de esperança: não sei mais quem sou e quais os dias que me esperam. Sei, tão somente, que sou outro.


Elienai Cabral Junior

05 setembro, 2007

Deus não liga muito para o que oramos

Pensei algo sobre Deus que me tem feito muito bem. Deus não leva muito a sério o que pensamos e dizemos. Não pode. Pensamos e falamos com tanta imprecisão que se o Altíssimo considerasse nossas orações e intenções estaria com sérias dificuldades em sua misericórdia. Seria o colapso da misericórdia divina ou da existência humana. Na maravilhosa e citadíssima parábola do Filho Pródigo, há essa manifestação da indiferença amorosa de Deus. O filho que abandonou a casa do Pai para prodigalizar seu egoísmo, gastando tudo o que tinha, retorna com um pedido na ponta da língua: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teu empregados’. A reação do Pai é uma indicação incontestável de como Deus reage às nossas expectativas e súplicas. Ao tentar dizer o que queria ao Pai, o filho pródigo-culposo teve sua fala pulverizada pela indiferença bondosa do pai: ‘Mas o Pai disse aos servos: Ide depressa, trazei a melhor túnica e revesti-o com ela, ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés. Trazei o novilho cevado e matai-o; comamos e festejemos, pois este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi reencontrado!’ De tanto que ama não dá para levar a sério o que diz o filho. Sua alma culpada e instável torna suas palavras impotentes para comunicar o que realmente precisa. Outro episódio que sugere com força essa desconsideração divina com nossas orações é o que descreve os conflitos de Jonas. Debatendo-se com a tarefa de profetizar à Nínive, o profeta vai parar no ventre de um grande peixe. De lá clama por livramento. De volta à vida, Jonas prega a condenação da cidade que quer ver destruída. Nínive se arrepende de sua maldade e Deus se arrepende de a ter levado a sério. Não mais será destruída a Nínive detestada pelo profeta. Em crise com a incoerente misericórdia divina, Jonas parece reivindicar que Deus o leve a sério e a sua lógica de justiça. Sua queixa é a de ver um Deus mais bondoso e propenso a perdoar que justo e disposto a punir. Parece não levar tanto a sério a vida incerta da pessoa humana.
Jonas ora de novo. Agora pede a morte. Alguns dias depois de pedir a vida. Quer viver quando suas expectativas ainda podem se cumprir. Quer morrer quando se vê impedido de impor sua lógica ao mundo. Quer viver quando Deus ainda pode ser dobrado à sua teologia. Quer morrer quando sua teologia é relativizada pelo próprio Deus.
Deus relativiza suas compreensões teológicas quando faz a brincadeira da aboboreira. Cresce em um dia para dar conforto, morre no outro para afligir. Do jeito que é a vida. Do que jeito que é a alma humana.
Vejo Deus agachado às angústias de Jonas. Parece convidar Jonas para entender seu coração. ‘Você acha razoável sentir pena de uma planta pela qual nada fez e não entende porque eu sinto pena de cento e vinte mil almas confusas de Nínive?’ Se nem as orações de Jonas e nem seus conceitos teológicos conseguem não ser contraditórios, como poderia Deus levar suas súplicas e teologia muito a sério?
Desconfio que foi por isso que Paulo disse aos Romanos que por não sabermos orar como convém, Deus ora em nós. Para nos levar a sério, Deus precisa não levar muito a sério nem o
que pensamos nem o que oramos.

Elienai Cabral Junior

31 agosto, 2007

A única necessidade de Deus - Elienai Cabral Júnior

Ao criar a humanidade, Deus criou uma necessidade. Porque sendo amor, movimenta-se na direção do outro-necessário. Quem ama faz o outro importante, dá ao outro o estatuto de legitimador da felicidade plena. Só se é feliz completamente se o objeto de amor, inteiro, integra-se.
O que Deus faz ao criar a pessoa humana como pessoa livre é exatamente movimentar-se amorosamente: faz do outro tão importante (necessário) que faz falta. A criação da humanidade é a invenção divina de um outro sujeito de afetação. O que a pessoa humana faz, o jeito como vive, a maneira como reage diante da vida, mas principalmente, o que faz com a sua liberdade de dar as costas ou voltar-se ao divino, afeta o coração de Deus: ira-se, entristece-se, arrepende-se, compadece-se. As más escolhas humanas o incomodam. Deus aceitou, ao criar-nos, a possibilidade do “mal estar”, na mesma intensidade que o alternativo deleite de ser amado exclusivamente.
O amor, aprendemos com Deus na história bíblica, é uma aposta contra si mesmo, porque o amor faz o outro livre – único amor que sacia a alma amante. O outro se torna, no amor criativo, um outro imprevisível.
Insisto, ao criar a humanidade, apenas por amor, Deus criou uma necessidade. A sua única necessidade. Espantoso: Deus precisa do homem!? Não como fundamento, Deus não se faz menos nem mais Deus a partir de mim, ou seja, para ele ser Deus sou absolutamente dispensável. Para ele agir como Deus, sou completamente desnecessário. Mas para que o seu ato criativo seja feliz, Deus aceitou fazer-me necessário.
Não foi na encarnação que Deus mais se humilhou por amor. Mera continuidade. Aconteceu na criação humana o mais desgastante gesto divino de amar. Humilhou-se ao risco de criar um ser tão amado e livre que se tornou sua única necessidade. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3.16)