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07 outubro, 2008

Erguei-vos, cristãos

“É melhor morrer de vodca do que de tédio” (Vladimir Maiakovski).

Se vivesse atualmente no Brasil, o poeta russo certamente seria contratado pelo governo (quem sabe por algumas igrejas) para promover campanhas para reduzir o consumo de álcool. Seria uma espécie de Zeca Pagodinho às avessas. Teríamos a “Maia-feira” institucionalizada...

Como também acontece com a ética e com a decência, tédio é um item muuuuito raro na prateleira verde-amarela. A cada dia os escândalos se sucedem e só mesmo a Internet para veicular informações na velocidade com que acontecem as besteiras.

No meio evangélico, o cenário não é muito diferente. Antes de conhecer Jesus, o Rodolfo cantava na banda Raimundos sobre uma tal mulher de fases. Se realmente o que anda rolando por aí tem respaldo bíblico, temos agora um “Deus de fases”.

Não muito tempo atrás, o Criador cismou de dourar os dentes de alguns crentes e incrédulos. Aí ele deixou de lado esse tipo de milagre e revelou que untar objetos é um bom antídoto contra problemas variados. Não satisfeitos em ungir pessoas como recomenda a Bíblia em certas situações, alguns irmãos mais afoitos saíram ungindo objetos, bairros e até cidades. Haja óleo.... e paciência.

De tanto cantar sobre o “mover” e o “fluir”, teve gente que acabou optando pelo “derramar”. E saíram vertendo xixi literalmente nos quatro cantos da cidade, demarcando território e ultrapassando as fronteiras do bom senso.

Os heróis do Cazuza morreram de overdose. Já alguns expoentes do cenário evangélico escolheram a inusitada tática do suicídio público de suas reputações. Perdida em intermináveis discussões e bate-bocas especialmente no meio virtual, a galera não sabe ao certo que direção seguir. “Me diz Deus, o que é que eu faço agora?”, cantavam os Raimundos.

Só o fato de questionar qualquer prática já atrai a fúria dos fãs e aficionados em geral. Trata-se de uma demonstração incontestável dos sentimentos que ocupam o coração daqueles confundem ataque e defesa e sempre acabam marcando gols contra. O Reino, no caso.

Extravagâncias a parte, o fato é que o rebanho cresceu mas continua imaturo. Basta observar a fartura de leite que é servido em muitos lugares. Na escalada do crescimento, ainda estamos engatinhando. Ana Paula Valadão que o diga.

Sérgio Pavarini

22 setembro, 2008

Levitas na forca

– Agora só falta escolher o nome para a banda.
– Isso é fácil. Meu irmão tem o dom de achar nomes legais na Bíblia.

Para muita gente do rebanho, a Palavra de Deus funciona como uma espécie de coleção de livros com múltiplas utilidades. O pastor vê o povo abatido e decide pregar sobre o valor da fé. Basta uma Chave Bíblica em mãos para literalmente abrir os textos que serão “encaixados” em sua mensagem dominical.

No ministério de música, o expediente é usada com pobreza similar. A escassez de referências neotestamentárias sobre música praticamente empurrou alguns para o Antigo Testamento. Com o mesmo tipo de método preguiçoso que caracteriza a preparação de mensagens de alguns pregadores, bastou pinçar um versículo ali e outros acolá para “restaurar” o ministério levítico.

A estratégia tem-se revelado bem-sucedida, afinal boa parte dos músicos não conhece o que toca, não analisa o que canta e não reflete sobre o que diz crer. A categoria tem uma garganta hipertrofiada que lhes permite deglutir heresias de calibre variados. Brigam com a liderança por causa de sapos minúsculos, mas abrem a boca (e a guarda) para engolir teorias pra lá de questionáveis.

A maioria dos pretensos levitas desconhece princípios elementares das Escrituras. Afinal, é bem mais fácil usar expedientes cômodos como empunhar um shofar ou batizar a banda com a palavra “arca”. Da aliança, não a de Noé, ressalte-se. Desconheço levitas que em suas igrejas exerçam função de juízes (Dt 17.8,9) ou sejam responsáveis por zelar pela saúde dos quem têm lepra (Dt 24.8), por exemplo.

Com uma espécie de toque de Midas ao contrário, para a tribo de incautos a Bíblia deixou de ser fonte de inspiração ilimitada para tornar-se mera camisa-de-força. Em “ministrações” lamurientas, há quem confesse querer “ir além do véu”. Na verdade, o tecido que lhes venda os olhos parece ser ainda mais espesso que aquele rasgado de cima a baixo no momento da morte do Senhor. O triste é que não temos Saramagos ou Meirelles para transformar esse tipo de cegueira em arte...

Ululante lembrar que o arcabouço frágil reflete-se na produção musical fugaz e medíocre. Em certas plagas, começam a aparecer soluções um tanto inusitadas para contornar o problema da falta de inspiração (e transpiração). No ano passado, uma Igreja Metodista de Chicago usou U2 durante a celebração da Ceia, repetindo o que havia acontecido em várias igrejas, incluindo a emblemática Hillsong Church, na Austrália.

No início de maio, o set list na igreja NewSpring Church incluía I surrender all (Tudo entregarei) e The best of you, do Foo Fighters. Aqui no Brasil, na semana seguinte as crianças da Ibab se prepararam para homenagear as mamães ao som de uma curta e elegante versão instrumental de Eu sei que vou te amar (Tom Jobim / Vinicius de Moraes).

Oro com fervor para que os levitas brasileiros jamais abracem esse tipo de estratégia. A julgar pelo mau gosto recorrente, certamente introduziriam nos cultos as obras poéticas de Sandy & Júnior e Amado Batista. Tarimbados em criar extravagâncias supostamente bíblicas, certamente evocariam o nome um tanto “eclesial” do cantor brega goiano. Gol contra para os presbiterianos que não têm seu “amado”. =]

Na década de 80, Steven Patrick Morrissey cantava sobre o pânico instalado nas ruas de Londres e de Birminghan. No final de Panic, canção do álbum Rank, a sentença contra os DJs era explicitada:

Because the music that they constantly play
It says nothing to me about my life
Hang the blessed D.J.

Porque as músicas que eles sempre tocam
Não me dizem nada sobre a minha vida
Enforquem o abençoado DJ

Tomo emprestado os versos dos Smiths para inspirar minha oração pelos levitas, rogando que Deus lhes abra os olhos do coração e as janelas da alma. No patíbulo, uma união simples já resolve tudo. Basta trocar “a corda” por “acorda”. Acooordem, levitas! Nossos ouvidos lhes serão eterna e ternamente gratos.

Sergio Pavarini

22 agosto, 2008

Pedofilia Pastoral

“O mais triste é a possibilidade de perpetuação do ciclo de abusos. Abusados que não se curam ou não percebem a condição a que se submetem, se tornam abusadores”

Sempre afeita à gradação de pecados, de tempos em tempos a sociedade elege alguns deles para figurar na categoria “hediondos”. Sem dúvida, a pedofilia aparece entre as primeiras posições das listas, independentemente do fator geográfico. Classificada como desordem mental e de personalidade do adulto, ela é considerada também como desvio sexual pela Organização Mundial de Saúde.

Se esse tipo de comportamento já é para lá de execrável, a combinação se torna ainda mais estarrecedora e explosiva quando o ingrediente religioso é acrescentado. Após inúmeros episódios de abuso virem à tona, a Igreja Católica tornou-se alvo de zilhares de processos e as indenizações fixadas somam milhões de dólares. Com freqüência, a cúpula romana tem sido acusada de acobertar os casos, numa tentativa inútil de desviar a atenção pública desse assunto indigesto e que tem maculado gravemente a imagem já um tanto combalida da instituição.

“O que a gente faz é por debaixo dos panos”, canta Ney Matogrosso. No caso de abusos sexuais, esses panos transmutam-se em cortinas que são descerradas num espetáculo que açula os ânimos da platéia, redundando em audiência com comoção, binômio onipresente na midiotia reinante. No entanto, esse tipo de ocorrência não se restringe ao clero católico. Jeff Anderson, advogado americano especialista em ações impetradas por vítimas de abusos sexuais, afirmou à revista Veja: “Luteranos, mórmons, testemunhas de Jeová, evangélicos... Diga-me o nome de qualquer grupo religioso e eu provavelmente já o processei”.

Vinde, meninos... e meninas
“É duro constatar a violência sofrida nos ambientes eclesiásticos! Vejo isso no dia-a-dia. Como já dizia o livro sagrado: há lobos em pele de cordeiro. Muitos se aproveitam da religião para cometer atos violentos (seja de caráter físico, sexual ou psicológico) contra os mais fragilizados. Ainda há muito o que se discutir sobre sexo e as coerções psico-religiosas do mais baixo nível em nome de uma ‘pureza’ insossa e traumática em nossas igrejas. Parabéns por tirar um pouco dessa poeira escondida sob luxuosos tapetes persas.”

Recentemente, escrevi sobre a hipocrisia que rola ao se tratar de sexo nas igrejas. Entre tapas e beijos, vários conselheiros e profissionais que cuidam da saúde mental me escreveram para desfi(l)ar experiências e ampliar meu parco (e parvo) repertório sobre o assunto. Muitos feridos também contaram seus relatos tristes. Não há tapetes suficientes para encobrir a poeira que alguns teimam em manter escondida.

Algo que me chamou a atenção foi a similaridade das conseqüências nefastas tanto da pedofilia quanto do abuso espiritual. Ambas as práticas são regulares nas igrejas cristãs e a cada dia aumenta o número de vítimas. Enquanto os holofotes são direcionados à pedofilia, o outro tipo de abuso é mais sutil e, infelizmente, mais comum. Entre diversos distúrbios, muitas vítimas de pedófilos desenvolvem problemas na área sexual. Quem foi alvo de abuso espiritual igualmente apresenta problemas que eclodem por vezes muito tempo após as ocorrências. Decepcionados com a sordidez daqueles que os prejudicaram, é comum que as vítimas passem a rejeitar quaisquer líderes eclesiásticos, chegando mesmo a revoltar-se contra Deus e abandonar os caminhos da fé.

Como nos casos de pedofilia, o prazer é substituído pelo espectro constante de cada episódio de violência vivido. A memória torna-se algoz desapiedada, fertilizando o solo do coração para o florescimento de sementes de mágoa e de vingança. A misericórdia e a graça divina são substituídas pela culpa e pela vergonha, retroalimentando a anemia espiritual.

A tua Palavra escondi
O pedófilo geralmente desenvolve estratagemas e planos cuja execução requer paciência e planejamento minucioso. Normalmente, o abusador é parente ou amigo da família da criança. A amizade cresce de forma paulatina até que ele seja alvo da confiança de sua futura vítima. Ao mesmo tempo que os laços de amizade facilitam sua ação, despertam na criança reações contraditórias e inúmeras vezes proporciona o pacto de silêncio necessário para que o abuso torne-se habitual.

No caso dos abusadores espirituais, os expedientes não são necessariamente tão engendrados. Um recurso comum é a ênfase em certos textos bíblicos. Líderes abusadores são fascinados por obter irrestrita admiração e colaboração incondicional de suas ovelhas. Cientes de que não possuem perfil à altura do servilismo cegueta almejado, apelam sem constrangimento a alguns versículos que acabam sendo repetidos como mantras. Para fugir das críticas, o mais invocado é aquele que recomenda “não tocar nos ungidos do Senhor”. Ao menor sinal de descontentamento entre as ovelhas, basta lembrar que “a rebeldia é como o pecado de feitiçaria”. Aos reticentes em oferecer apoio integral a qualquer tipo de iniciativa pastoral, é suficiente lembrar que “é melhor obedecer do que sacrificar”.

A tática de usar apenas três versículos para construir uma “teologia” cominatória parece ingênua; porém, basta observar a quantidade de ovelhas presas a esses grilhões ameaçadores para constatar sua total eficácia.

Os matreiros se preparam
Líderes abusadores apresentam-se como depositários de missões divinas especiais. Não raro exaltam sua pretensa humildade para esconder o apego a títulos e posições de destaque. Com freqüência, recusam qualquer tipo de papel coadjuvante e são chegados em slogans que retratem o tamanho de suas ambições.

Envoltos e aprisionados em suas próprias teias, recorrem novamente ao sobrenatural para afiançar seus planos emblematicamente faraônicos. Expressões como “Deus nos chamou”, “o Senhor está pedindo de nós” e “vamos envergonhar o Diabo” são comuns e mantêm alimentada a expectativa das pessoas. Se os resultados prometidos não aparecem, é preciso continuar estimulando o moral das ovelhas para que, em última instância, ao menos a irrigação de recursos não cesse. Líderes abusadores freqüentemente não prestam nenhum tipo de conta. Afinal, se Deus lhes confia empreitadas tão nobres e relevantes, por que se ocupar de detalhes de somenos importância? Como “Deus está no comando”, a comunidade não precisa conhecer estatutos e bastidores da instituição, tampouco temas mundanos como a aplicação dos recursos auferidos.

Você está em dúvida se o seu líder se enquadra no perfil de abusador? Uma dica interessante é analisar tanto o estilo de liderança como o modus operandi de ele formar o time de colaboradores diretos. Existe respeito pelas escolhas e opiniões dos liderados? Comentários e críticas são bem-vindos? O líder trabalha sinceramente em prol da unidade de seu entorno? Ou utiliza o manjadíssimo método de validar publicamente apenas os que não o questionam? Ao acreditar que são especiais, essas pessoas usam o reconhecimento público como esmola aos subordinados que abrem a boca apenas para reconhecer e legitimar sua “unção”. O mais triste é a possibilidade de perpetuação do ciclo de abusos. De maneira análoga ao que acontece em episódios de pedofilia, abusados que não se curam ou não percebem a condição a que se submetem, se tornam abusadores.

Tá lá um corpo estendido no chão
Inúmeras histórias inacabadas aguardam decisões de seus protagonistas para ter o desfecho alterado. Segundo Brennan Manning, “projetamos em Deus os piores sentimentos e idéias que temos sobre nós mesmos”. Avalie sua auto-estima e mantenha distância dos molestadores.

Se eventualmente pertence à outra categoria, lamento usar este espaço como espelho. Lembrando Jürgen Moltmann, “os criminosos dependem das experiências de suas vítimas se querem conhecer a si próprios, pois a dor perdura, enquanto a memória das próprias ações se dilui”. Aqui estamos... de frente pro crime.

Sérgio Pavarini
Jornalista e editor do pavablog.blogspot.com e do boletim semanal PavaZine#.

07 abril, 2008

Geração bunda-mole

― O mover de Deus está aqui. Nada pode impedir você de sentir o fluir e o derramar da unção. Olhe para o irmão do seu lado e diga: “Resisti ao frio e ele fugirá de vós”.

Participar dos cultos em determinadas igrejas é um programa que exige alto grau de paciência e resignação, qualquer que seja a estação do ano. Raras comunidades mantêm-se imunes aos maneirismos e frivolidades do dialeto gospel no “momento da adoração”.

Outro expediente infalível para provocar bocejos é o recorrente saudosismo dos “bons tempos” da música cristã. Em todos os lugares, há tiozinhos de barriga protuberante repetindo que “naquela época o louvor era genuíno, sem a superficialidade de hoje”. Zzzzzz...

O que existe no hiato entre o discurso seboso que enaltece a década de 70 e essa geração que introduziu mantras e lamúrias no louvor? O expediente de encontrar culpados para eximir nossa própria culpa é de pouca valia na hora da reflexão. Se os heróis do Cazuza “morreram de overdose”, ainda mais complicada é a situação de quem encontra escassos referenciais para pautar seus sonhos.

Ignorados ou tratados como imbecis pelo meio editorial, os jovens encontraram na internet alguns expedientes para suprir essa “orfandade”. Na declinante indústria fonográfica gospel, poucos sobrevivem aos 15 minutos de fama preconizados por Andy Warhol. Mesmo assim, a aspiração ao estrelato consome a energia e o tempo de milhares de “levitas”. Claro que devidamente camuflada sob o discurso de “Deus me chamou para evangelizar através da música”. Infelizmente, poucos são vocacionados para interagir nas universidades e nos pólos culturais.

Em consonância com a poesia de Gilberto Gil, a alma de boa parte dos que pululam nos palcos musicais eclesiásticos “cheira a talco”. Necessário lembrar o outro adágio que apregoa não ser nada confiável o bumbum dos bebês. A alternância de odores sinaliza que é hora de trocar as fraldas e fazer a devida assepsia.

Líderes de todo o país sofrem nas mãos do que convencionou-se chamar de “sensibilidade dos músicos”, eufemismo para escamotear a constante contrariedade a qualquer tipo de ingerência. Se um número especial da galera é cancelado, imediatamente o grupo é banhado pela “unção do beicinho”. Fraldas cheias de novo.

Pressionados pela concorrência do vestibular e pela conquista ainda mais difícil de uma vaga no mercado de trabalho, muitos sucumbem à indolência macunaímica. Os males do sedentarismo são bem conhecidos. Desnudar a juventude evangélica de hoje revela as nádegas flácidas de uma geração que parece ter saído do nada e caminhar para o lugar nenhum. Ao contrário do filho pródigo da parábola, a herança que os jovens receberam da geração que os antecedeu não foi suficiente para grandes viagens. Em todos os sentidos.

Blaise Pascal falava em duas alternativas: desistência por meio da covardia ou o escape, por intermédio do orgulho. Será que não há luz divina no fim desse túnel?

“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”, dizia o Che Guevara. Será que depois das gerações hippie e Coca-Cola teremos a geração H2OH, cujo conflito de “identidade” a confina em uma zona indefinida entre ser água ou refrigerante?

O conselho de Nelson Rodrigues é bem conhecido: “Jovens, envelheçam”. Minha recomendação é assaz diferente: rebelem-se. É hora de assestar contra a mediocridade reinante no meio do rebanho, contra a lassidão intelectual, contra as cassandras transmissoras do germe da culpa, contra o abuso de líderes tiranos, contra a indigência artística e até contra minhas diatribes.

Dono de lentes argutas e dramáticas para observar o mundo, Caio Fernando Abreu registrou um laivo de esperança que, a despeito de tudo e de todos, joga para escanteio minha angustiante sensação de impotência. “Continuo a pensar que quando tudo parece sem saída, sempre se pode cantar. Por essa razão escrevo.”

Sérgio Pavarini

27 fevereiro, 2008

A praga dos gafanhotos

"A igreja Ide por Todo o Mundo está ampliando sua equipe de missionários. É essencial que os interessados tenham disponibilidade imediata para mudar de cidade. Despesas de mudança e o aluguel da residência no primeiro ano serão cobertos. Os candidatos não precisam ser cristãos, pois receberão treinamento adequado para desempenhar suas atividades ministeriais. Interessados devem enviar currículo para a Caixa Postal 666, Cep 10.171-171."

O mundo evangélico anda cheio de bizarrices mas o anúncio acima felizmente é fictício. Ao menos por enquanto. Contudo, há outros fatos estranhos no meio do rebanho que são vistos com normalidade.

Após visitar centenas de livrarias cristãs em todo o país, optei por iniciar os treinamentos pedindo que as pessoas citassem uma frase de um livro que leram recentemente. O constrangimento se repetia em todos os lugares. Para diminuir o desconforto, passei a dar a opção de citar um versículo bíblico caso a pessoa não “se lembrasse” do trecho de um livro. Nunca ouvi tantas vezes na minha vida “O Senhor é meu pastor” e “Tudo posso naquele que me fortalece”.

O empreendedor escolhe com cuidado o ponto que vai alugar para abrir a loja. Verifica se há transporte público na região, firma convênio com estacionamentos próximos e visita os pastores das comunidades próximas. Seleciona os produtos com cuidado, afinal está investindo uma parcela significativa do que conseguiu amealhar após vários anos de trabalho. Na hora de escolher os instrumentos de multiplicação dos recursos, simplesmente pede indicações aos amigos e coloca em risco todo o projeto que planejou.

Da mesma forma que a tarefa de pregar o evangelho não pode ser confiada a incrédulos, comercializar livros não pode ser incumbência de quem não gosta de ler. Não há treinamento que seja capaz de suprir a falta desse hábito essencial. Orar diariamente com a equipe pedindo que Deus não considere o despreparo de todos e prospere os negócios é tão eficaz quanto a prece de estudantes que não estudaram o ano todo e recorrem aos céus antes dos exames.

Nos últimos anos, os gafanhotos descritos pelo profeta Joel ganharam notoriedade. Mesmo com embasamento teológico questionável, os insetos passaram a simbolizar tudo o que pode destruir a vida financeira. Se usarmos essa figura recorrente, é possível afirmar que as livrarias cristãs são um ambiente propício para a reprodução deles. Da mesma forma que apenas dez gafanhotos podem destruir uma mangueira em pouco tempo, alguns funcionários recrutados com displicência e que não recebem treinamento são capazes de destruir o patrimônio conquistado com muito suor.

Segundo estatísticas, o governo brasileiro gasta anualmente cerca de um milhão de dólares em inseticidas químicos para evitar uma praga de gafanhotos. Dentro das livrarias o combate sai bem mais em conta. Seleção criteriosa da equipe, treinamento constante e facilidade de acesso aos livros já proporcionará condições adequadas para ampliar o faturamento da loja.
Funcionários e consumidores serão beneficiados com a expansão dos negócios e, no fim das contas, os bons resultados serão a mais perfeita tradução da bênção de Deus. “Prestem atenção! Hoje estou pondo diante de vocês a bênção e a maldição” (Deuteronômio 11.26 – NVI).

Sérgio Pavarini

04 janeiro, 2008

Vaia com Deus

“Vamos aplaudir mais forte, povo de Deus! A gente bate palmas aqui nesta igreja porque a Bíblia diz: ‘Batam palmas todos os povos’”.


Inapto e inepto, o pastor tentava ingenuamente animar o povo a participar da reunião. Infelizmente, o formato de culto que predomina em boa parte das comunidades só permite a participação popular ao aplaudir, cantar e dizer “amém” (ou expressões afins).

A origem dos aplausos está relacionada ao aspecto religioso. Em vários ritos pagãos, o ruído provocado pelas palmas era uma forma de chamar a atenção dos deuses. Interessante notar que hoje o rebanho continua sendo pavlovniamente condicionado a repetir esse tipo de gesto. O sucesso no adestramento parece desmentir a proximidade genética apenas com os símios. Basta espiar a performance uniforme da fauna amestrada em muitos templos.

Como acontece nos programas de auditório, a intensidade dos aplausos tornou-se referência para avaliar se o culto foi bom ou não. A adoção de um parâmetro equivocado abre espaço para toda sorte (ou seria “azar”?) de expedientes para provocar as palmas da congregação. Por exemplo, chamar celebridades de terceira linha para testemunhar que Jesus deu novo rumo para sua carreira decadente. Com direito a promoção de opúsculos e CDs na tradicional xepa após o fim da reunião.

Poucos se lembram de observar se a Palavra está produzindo transformação na vida dos ouvintes. Em certos modelos eclesiásticos vigentes essa tarefa realmente é impossível, já que a igreja perdeu características neotestamentárias fundamentais.

As pessoas apenas freqüentam reuniões nesses templos religiosos de consumo, sem nenhuma oportunidade de interação com os irmãos. Tornaram-se apenas consumidores açulados a todo o tempo por pastores-vendedores (tanto faz a ordem, neste caso) a adquirir campanhas, comprar desafios e aceder a apelos lamurientos na hora da oferta.

Matéria publicada recentemente na revista Veja SP abordou a questão da obrigatoriedade dos aplausos ao final de qualquer espetáculo. Independentemente da qualidade da apresentada, a ovação agora faz parte do script. Segundo o crítico de música erudita Irineu Franco Perpétuo, “um público menos informado não é criterioso e bate palmas o tempo todo”. Será que a asserção também é válida no caso das igrejas?

Após desempenho medíocre no palco, aplausos automáticos deixam os atores aliviados. O efeito é similar quando as palmas irrompem no meio de uma mensagem sem conteúdo pregada com entusiasmo. Não faltam candidatos a “puxadores de palmas”, remetendo à estratégia usada pelo imperador Nero de sempre levar uma claque para garantir a repercussão de seus discursos.

Se a contrapartida de reação fosse válida, também teríamos o direito de vaiar o que nos desagrada durante as reuniões. A banda não ensaiou e errou vários acordes? Vaias para os músicos. O pastor se desculpa antecipadamente dizendo que “Deus pediu” para ele mudar a mensagem e por isso não se preparou adequadamente? Nem é preciso esperar a pregação. Vaia nele. O preletor convidado testemunha que o Senhor “cegou” os guardas e eles não viram as várias infrações que cometeu no trânsito para chegar na igreja? Muuuitas vaias para o cara-de-pau.

Para alívio de muita gente, os apupos devem continuar proibidos. Aos insatisfeitos com a condição de claque muda ou de meros provedores de megalômanos infecundos, resta-lhes a mesma reação que têm muitos consumidores ao serem ignorados ou tratados de forma inadequada numa loja: retirar-se silenciosamente, geralmente para nunca mais voltar.

Sérgio Pavarini

15 dezembro, 2007

Saco cheio de rótulos



Os conservadores não são necessariamente estúpidos,
mas quase todos os estúpidos são conservadores
.”
John Stuart Mill



O discurso dos conservadores me dá tédio. Como o próprio termo denuncia, eles dão-se por satisfeitos simplesmente em “conservar” as coisas. Desprezam e combatem os apóstolos auto-ungidos, mas também se auto-arvoram guardiões da ortodoxia.

São uma espécie de versão ambulante do Google. Você digita a palavra-chave de alguma novidade que rola por aí e eles batem o martelo: “No ano de 1254, havia um ignorante que pregava essa mesma idéia estapafúrdia. Viu como não há nada de novo debaixo do sol?

”Nesse ponto, a ala dos passistas conservadores tem razão. Se dependesse da criatividade do grupo, por exemplo a inovação artística seria reduzida a sapateados fora do ritmo. Naturalmente, a performance sempre é provocada pela ira ao ler algo “perigoso” para a igreja que o herege da hora (sem trocadilho) escreveu.

Ao contrário do que apregoa o adágio, o leite derramado lhes proporciona um indisfarçável prazer de entrar em ação. Com o advento da internet, descobriram que não estão sozinhos em seus posicionamentos intransigentes. Falam a centenas de pessoas na rede... e a centenas de cadeiras em determinados eventos e reuniões.

Seria injusto afirmar que desprezam a arte. Na verdade, exercitam sua verve criativa na “releitura” dos hinetos ou corinhos que, num ato de insuspeita generosidade, permitirão à igreja entoar. Cortam frases, trocam palavras e submetem cada linha ao crivo exegético, hermenêutico e doutrinário. Reis da logomaquia, têm maior prazer em dissertar sobre a má qualidade das composições do que em propriamente cantá-las durante as celebrações, ops, durante os cultos solenes.

Vivessem no Paraíso com Adão e Eva, e os animais permaneceriam sem nome até hoje, dado o número de concílios, simpósios, conclaves e outros nomes dados aos soporíferos encontros para discutir assuntos importantes como a quantidade de anjos que cabem na cabeça de um alfinete.

Do ponto de vista do raciocínio cartesiano, esses “alfinetadores” consideram-se “engenheiros”. Se analisarmos o declínio de certos grupos dos quais participam, talvez possam ser chamados de “coveiros”.

Os conservadores protagonizam uma estranhíssima espécie de casamento no qual o marido parece preferir levar para a cama a certidão de casamento, deixando a esposa a ver navios. Ou melhor, garfos, facas e panelas. O desvelo pela ortodoxia parece estranhamente não encontrar similaridade na devoção pelo próprio Jesus.

Do outro lado

“Raspe a tinta de um liberal e você encontrará
um fundamentalista alienado embaixo dela”Renny Scott, citado por Brian McLarenem Uma ortodoxia generosa.

A situação também não é muito animadora no grupo dos liberais, a despeito do clima descontraído dos convescotes dos caras. Ao contrário do que rola na facção conservadora, na qual as “cartas” parecem estar dispostas à mesa, do outro lado elas permanecem na manga e em outros esconderijos.

Acostumados a analisar tudo pela aparência, muitos incautos quebram a cara (e a fé, em vários casos), quando o objeto em questão é um liberal. A calça moderninha, o vocabulário cheio de gírias e o estilo casual transmitem a sensação de proximidade e de acolhimento. No entanto, na hora de administrar seus grupos alguns liberais arrepiam mais que seus cabelos quando livres do gel. Defendem suas idéias e propostas com a elegância de um pit bull em jejum prolongado.

Hábeis com as palavras e pseudopublicitários, são sempre receptivos às novidades. Contudo, a estratégia de eliminar filtros escancara portas para certas práticas que beiram a heresia. Sem limites nas extravagâncias, não têm problemas com certos meios se ao final forem pessoalmente beneficiados.

A fama de liberal parece desobrigar seus detentores da necessidade de aprimorar os conhecimentos. Para compensar a tibieza nesse item, exibem um ego tão inflado que mandaria qualquer pavão para o veterinário-terapeuta.

Na falta de idéias próprias, vivem despejando citações alheias, de preferência perpetradas por pensadores que fujam do lugar-comum. São capazes de mencionar a Tati Quebra-Barraco em uma prédica, digo, reflexão, só para mostrar o quanto são “antenadinhos”. Na verdade, estão mesmo é “atoladinhos” em suas idéias fixas e convicções tão consistentes quanto gelatina fora da geladeira por várias horas. Às vezes, é preciso conservar...

Julgando-se incompreendidos e flagelados pelos opositores, murmuram sem cessar as cantilenas de sempre, especialmente quando praticam seu esporte favorito, a caça aos conservadores. Liberais pós-modernos sabem que a prática esportiva faz bem muuuito bem para a saúde!

Epílogo

De longe, toda montanha é azul De perto, toda pessoa é humana
Dom Pedro Casaldáliga

Se você chegou até aqui na peroração, por certo identificou um sem-número de exageros e extrapolações carentes de fundamentação. Exatamente o que ocorre todas as vezes que recorremos a rótulos para classificar alguém. Sem identidade, fulano passa a ser simplesmente o “fundamentalista”, enquanto sicrano é “liberal”.

O rótulo esconde completamente a pessoa e suas idéias serão analisadas de forma tendenciosa ad infinitum. Em decorrência, as barreiras erguidas são robustas e contribuem para a desintegração cada vez mais crescente de um povo que deveria ser “um só rebanho”. Haja pasto para acomodar tantas vertentes aparentemente imiscíveis...

Valorizamos tanto a homogeneidade dos tons que até o arco-íris deixou de fazer parte da simbologia cristã, bem como a bandeira da “diversidade”. Em ambos os lados do front, prepondera uma posição beligerante e inflexível. Filhos do mesmo Pai tornam-se figadais inimigos e o amor é substituído pelo desprezo e pelo ódio disfarçado.

Como lembra o bispo N. T. Wright, “compreendemos melhor alguma coisa não meramente criticando, dissecando e duvidando dela, mas também confiando, amando e respeitando-a”. E conclui: “Quando crítica e questionamento vêm no contexto do amor, elas produzem ainda mais percepções”.

O mundo não está em busca de idéias e princípios defendidos com ardor extremado. As pessoas aguardam Deus “com gula”, segundo a inspiração de Arthur Rimbaud. A simplicidade das “boas notícias” perdeu-se em meio aos embates. O saco cheio de rótulos deve ser esvaziado para que possamos voltar a sentar à mesma mesa, evidenciando a todos que o amor de Jesus suplanta quaisquer divergências de opinião.

Tenho ciência da puerilidade aparente deste discurso ao observar tantas feridas purulentas decorrentes de inúmeros confrontos. Contudo, sei o quanto Deus se agrada ao descobrir traços de pureza no coração de seus filhos. Da mesma forma que “Abraão, contra toda esperança, em esperança creu”, essa certeza me motiva a exercer meu sacerdócio espicaçante... pero sin perder la ternura jamás. Afinal, de acordo com a licença poética de Frei Betto, “o amor dura enquanto é terno”.

Sérgio Pavarini

26 novembro, 2007

Viver é muito perigoso


Quem sou eu: Apenas uma partícula de existência nesse universo imenso. Sentimentalmente, uma pessoa realizada. Estou sempre de bom humor! Pela graça divina, me esqueço das coisas que para trás ficam e avanço para as que estão diante de mim. Deus é fiel!


Religião: Cristã/protestante.

Paixões: Deus, minha família e meus amigos da igreja.

Livros: A Bíblia.

Música: gospel.

Os dados acima foram compilados e combinados do perfil no Orkut de vários jovens. Em comum, todos eram cheios de energia e de um profundo amor por Jesus. O pretérito é necessário porque eles não estão mais conosco. Todos colocaram um ponto final em sua trajetória terrena nos últimos meses.

Acostumados a fechar os olhos para vários problemas que afligem o rebanho, muita gente fica atônita ao descobrir que todas as semanas alguns jovens evangélicos cometem suicídio. Ao conhecer a trajetória dos que nos deixaram, ficam estarrecidos ao descobrir que o estereótipo de “jovem problema” não se encaixa na maior parte dos casos.

Para quem está longe, a solução é fácil. Basta teorizar que o suicida vai para o inferno, corroborando a opção que Davi fez de se submeter a Deus. Se dependesse das penalidades impostas pelos homens, jamais teria sido usado para compor boa parte das páginas que nos inspiram até hoje.

Aos que vivenciaram essa dor inexprimível, o restante dos dias será permeado por questionamentos temperados com certa dose de culpa.

Ó quão cego eu andei

Geralmente entretidos na área musical da igreja, os jovens nem sempre têm com quem conversar sobre suas angústias mais esconsas. Numa estratégia que combina dessintonia e falta de sensibilidade, os insepultos acampamentos continuam marcados por “sexo oral” em profusão. No caso, palestras e mais palestras sobre o assunto, rep(r)isando o que acontece há várias décadas.

Alas mais radicais defendem teorias obtusas como, por exemplo, que o beijo na boca deve acontecer apenas depois do casamento. Imaginem o exército de profissionais da área de psicologia que será necessário para ajudar futuramente esses casais a desfrutar dos prazeres da “bênção chamada sexo”, como dizia Robinson Cavalcanti na década de 70.

Enquanto drenava minha indignação (mal)digitando estas linhas, soube de mais uma pá de casos de suicídio entre os jovens, vários deles ocorridos em universidades. Simultaneamente, minha caixa postal continuava sendo entupida por SPAM de eventos que vão “impactar a vida” de quem colar por lá. Triste período em que os “lugares altos” perigosamente tornaram-se apenas o ponto escolhido por muitos jovens para o “impacto” final.

Zumbis de Jesus

Tudo quanto me ameace de mudar-me
Para melhor que seja, odeio e fujo
Ricardo Reis


No livro
Sobre a Esperança, Frei Betto afirma que “vivemos numa cultura da desgraça”, na qual “as pessoas têm medo da vida, em vez do medo da morte”. Ser íntegro e autêntico é uma decisão que poucos intimoratos tomam quando o patrulhamento é acirrado. O caminho mais confortável é optar por corresponder às expectativas alheias, adotando o que Paul Tournier chama de “persona” e Brennan Manning trata por “impostor”.

Se para alguns esse expediente é rotulado de “vida dupla”, classifico a tática como suicídio do eu verdadeiro. A existência resume-se a uma fastidiosa encenação em lugares marcados no procênio pela expectativa alheia. São meros mortos-vivos que não aquiesceram ao conselho do compositor mineiro e foram incapazes de “abrir o peito à força numa procura”.

A frase de Guimarães Rosa que intitula este texto somente é veraz enquanto as máscaras permanecerem intactas. Que Deus abra nossos olhos e ouvidos para distinguir os gemidos cifrados de tanta gente sofrendo ao nosso redor. Sejam nossos braços abertos um dos sinais visíveis e terapêuticos do amor inaudito e sem reservas do Pai. Hic et hunc.

Texto de Sérgio Pavarini para 2ª Edição da Revista Cristianismo Hoje

13 novembro, 2007

Talentos (não) devem ser explorados


Antes de ser atendida no consultório médico, a paciente recebe a ficha para preencher. Um dos dados requeridos a deixa intrigada.

–Não entendo por que o doutor Miguel precisa saber minha religião...

Solícita, a secretária dá a explicação.

– Ele é crente e só atende pessoas que aceitaram a Jesus como salvador e Senhor de suas vidas.

A ilustração é absurda porque o profissional envolvido é da área médica. Se fosse um músico, o enredo poderia ser observado com freqüência. Afinal, boa parte dos líderes crê que as igrejas são o único lugar em que cantores e instrumentistas devem usar seu talento.

Vivemos tempos estranhos em que aconteceu a ressurreição parcial do ofício dos levitas. Parcial, por que levitas pós-modernos só cantam ou tocam. Ninguém encontra um levita cuidando da limpeza ou da portaria, por exemplo. Pra completar, todos os textos bíblicos que tratam do sustento dessa tribo foram esquecidos.

Músicos que tocam na noite não serão aceitos em muitas igrejas, já que pastores costumam associar a noite às trevas, com exceção das vigílias da comunidade. “Deixe de tocar nesses antros de pecado que vamos lhe auxiliar no sustento”, repetem aos musicistas. No final do culto, o cara precisa esperar a looooonga fila de pessoas pedindo oração para receber grana suficiente para a passagem de ônibus e a tradicional “coxinha maranata”.

Se não tem outra opção profissional, o músico precisa “se virar nas trinta”. No caso, atividades diferentes para garantir um padrão mínimo de decência. Dá aulas de tuba e bateria em domicílio, ensaia grupos de outras igrejas, grava com artistas (se o CD não é cristão, ora fervorosamente para ninguém descobrir), toca em casamentos e chás de senhoras. Recusa apenas convites para missas de sétimo dia e baile de debutantes.

Algumas igrejas tradicionais têm mais cuidado com essa questão. O ministro de música fez curso de nível superior na área e é funcionário da igreja. Em outros lugares, alguns minutos de destaque durante o culto são uma moeda de troca eficiente.

O descaso com que a área musical estende-se também à compra de equipamentos. Sei de igrejas em que é quase necessário fazer uma assembléia para decidir a compra de cordas novas para a guitarra.

Do outro lado do ringue a coisa também não rola legal. Costumo afirmar que é possível avaliar o zelo do músico ao observar seu entorno. Cabos amontoados, instrumentos em mau estado de conservação e transparências com erros ortográficos são um bom indicador do descaso com que as coisas de Deus são (mal)tratadas.

Da mesma forma que determinados textos bíblicos são equivocadamente interpretados de forma literal, infelizmente ainda há líderes que levam ao pé da letra a expressão “explorar talentos”. Até quando, só Deus sabe.

Sérgio Pavarini

20 outubro, 2007

Dom de Iludir

“Minha viagem será um espetáculo. É a primeira vez que vou pregar naquela igreja. Trata-se de uma comunidade com mais de 500 membros e fica num bairro de classe média-alta. O faturamento do final de semana está garantido. Ah, como eu gosto disso.”
Muito conhecido e requisitado, o pastor estava no aeroporto vestido para entrar em campo. A tal igreja mencionada já havia recebido o e-mail com uma série de “recomendações”, eufemismo para traduzir as exigências do aspirante a popstar.
Segundo o folclore vigente, é possível classificar o artista de acordo com a lista de exigências que apresenta aos produtores. Uma centena de toalhas brancas, waxflower da Austrália e frésias dos Países Baixos nos arranjos florais (não os de Bach), lichia e açaí na cesta de frutas, além de caixas de bebidas alcoólicas variadas para elevar, digamos, a adrenalina às alturas antes do show.
Já os aditivos para os pastores showmen geralmente passam pelo bolso. Não apenas o poder exerce efeito afrodisíaco... Se considerarmos o buraco negro que caracteriza a vida financeira de alguns expoentes desse meio, recomendaria servir antes dos cultos jarras com maracujá e pitaia batidos, resultando no emblemático suco “maracutaia”.
Não me venha falar na malíciaA rotina de viagens dos popstores (com trocadilho, claro) é um tanto estressante mas tem sua magia. É comum exigirem hotéis com muitas estrelas, aquisição mínima de um combo de produtos variados e passagens aéreas de determinada companhia (facilita a viagem de férias com a patroa e os filhos para a “América”, como costumam dizer os “emergentes”).
Com quilometragem maior, outros mais abusados incluem detalhes que são uma graça. Nada divina, no caso. Por exemplo: o carro que for buscá-los no aeroporto deve ter ar condicionado. A regra vale inclusive para Porto Alegre no inverno.
Antes da mensagem que será repetida pela enésima vez, é o momento do “camelódromo gospel”. Com desenvoltura de apresentador do ShopTour, eles desfilam sua vitrine de CDs de mensagens e livros de edição própria, já que provavelmente as obras não seriam aprovadas pela maioria das editoras. As ofertas de “pague 6 e leve 15” por vezes são entremeadas de menções a obras de cunho social ou qualquer outro verniz que torne mais nobres os fins advindos da comercialização dos meios.
Você está, você éNa hora da pregação, é comum os preletores de aluguel derramarem elogios ao líder da igreja local (“um homem respeitadíssimo em todo o país”), à galera do louvor (“me senti no céu na hora em que estávamos cantando”), ao templo (“os irmãos estão de parabéns por construírem um lugar tão lindo e aconchegante”), numa sucessão de rapapés para lustrar o ego coletivo e amolecer o coração do mercado-alvo da feirinha que vai rolar depois do culto.
As mensagens têm exegese e hermenêutica de procedência duvidosa. Na falta de conteúdo, costumam abusar de clichês do tipo “você é mais que vitorioso”, “tudo posso naquele que me fortalece” e a todo momento pedem para repetir alguma afirmação pseudoprofética para o irmão do lado. Espectadores mais desconfiados remascam se a Bíblia deles tem apenas um terço das páginas, volume suficiente para reunir os trechos das mesmas pregações rep(r)isadas ad nauseam. “Hoje vou falar sobre uma mulher que encontrou Jesus e teve sua vida mudada...”.
Você faz, você quer, você temModestíssimos, os pregadores itinerantes a-do-ram ilustrar as mensagens com episódios de sua própria vida. A infância sempre foi pobre e cheia de dificuldades, mas os planos de Deus sempre são de dar prosperidade. A menção a Jeremias limita-se àquele solitário versículo do capítulo 29. Toda a trajetória do profeta chorão é esquecida na hora de inspirar as pessoas a “conquistar a vitória”, “envergonhar o inimigo” e outras frases de efeito.
“Hoje tenho uma casa grande, três carros zero na garagem e blábláblá”, contam para adubar a fé da platéia. Se alguém fosse até a casa dos saltimbancos da prosperidade constataria que a realidade simultaneamente tem glamour e uma indisfarçável atmosfera kitsch.
Na sala (ou “living”, como a esposa prefere chamar porque acha mais “chique”), sofás brancos e almofadas com estampas de onça e zebras. Ressentidas da falta de um portrait by Camasmie feito com chocolate, as paredes acomodam várias láureas de associações obscuras e o indefectível diploma de “Doutor em divindade”. Poucos sabem que o tal curso foi feito pela Internet e pago a prestações no cartão de crédito Platinum. “Plata, prata, plaga, praga”, comporiam os irmãos Augusto e Haroldo de Campos num arroubo (epa!) profético-concretista.
Você sabe explicar, você sabe entenderSiderados com a mise-en-scène um tanto caricata, os visitantes neófitos têm dificuldades para discernir se estão numa igreja ou em uma palestra de nerolingüística. Cada vez que os gestos se tornam mais largos e o volume da voz do pregador aumenta, os “aleluias” e “glórias” se multiplicam. Uma menção ao capiroto provoca aprovação ainda mais estrepitosa. Améééém?
Na tentativa de conferir um certo refinamento ao discurso lasso, os preletores de aluguel têm o hábito de entremear sua prosopopéia flácida com citações e menções às últimas leituras. Usualmente, as obras mais densas que leram em toda a vida foram opúsculos de Roberto Shinyashiki ou Augusto Cury. A cartilha Caminho Suave não entra no rol de leituras, por supuesto.
Dependentes da languidez espiritual da platéia, oferecem-lhe apenas placebos que vão durar até a próxima “reunião da vitória”. Muitos no auditório reconhecem isso, mas mentiras sinceras lhes interessam, como cantou o poeta Cazuza.
Cale a boca e não cale na boca notícia ruimA pronúncia claudicante e a concordância tosca revelam o círculo vicioso e empobrecedor no qual estão embrulhados esses replicadores de meme(nsagens) desprovidas de sustância. Num equívoco contumaz, optaram equivocadamente pela “glória-pires”: pouco profunda e de vida curta. Como aconteceu com os filhos de Ceva, são conhecidos por aqui e muitos permanecem anônimos no inferno.
Do ponto de vista psicológico, esse tipo de comportamento sinaliza traços de desvario para compensar sua dor mais aguda: a falta de respeito em certos grupos aos quais C.S. Lewis chamaria de “círculos fechados”. Incensados pela massa ignara, sofrem em razão da consciência de que são alvo do menosprezo daqueles que, em última (e secreta) instância, gostariam de ser. Isso talvez explique o fato de às vezes elegerem alguns alvos para assestar sua inveja travestida de defesa da sã doutrina.
Fosse isso possível, cederiam os bens e a contínua lisonja para conseguir aquilo que a grana não é capaz de adquirir. Solitários por dentro e por fora, têm apenas o travesseiro por confidente. Limitados pela teia que eles próprios urdiram, a cada dia “tornam-se o que são”, cumprindo a máxima de Nietzsche. Preço demasiadamente alto para uma existência que não se repetirá. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.


texto de Sérgio Pavarini que será publicado na próxima edição da revista Eclésia.