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27 novembro, 2010

Toda história sobre transgressão

Toda história sobre transgressão é na verdade sobre a possibilidade e as implicações do livre-arbítrio.

Imaginemos o reverso: imaginemos uma narrativa em que os primeiros seres humanos, confrontados diante das mesmas facilidades e do eloqüente esplendor do fruto proibido, ousam um passo definitivo para trás. Por virtude ou timidez, preferem não conhecer o sabor da transgressão: recuam à casa, para o familiar abraço de Deus e sua irrestrita aprovação.

Nessa versão não contada da história os protagonistas viveriam em bem-aventurança eterna, mas o leitor – e a narrativa, será preciso constantemente lembrar, existe para o leitor – seria deixado em dúvida circular sobre o ponto essencial da trama.

O problema está em que, em termos dramáticos, nenhum final é verdadeiramente feliz antes que o conflito seja confrontado, antes que a verdadeira natureza do obstáculo seja encarada de frente. Nessa versão corrigida e correta da história o conflito teria sido apenas contornado; não teria sido vencido, pelo que a condição final dos protagonistas não poderia ser considerada literariamente satisfatória (emocionalmente satisfatória para o leitor). Em termos literários sua condição não teria, na verdade, como ser considerada final. Se o conflito não os aperta ao ponto do rompimento, se não os leva a experimentar o que poderiam efetivamente perder, somos levados a ler como ilusórios tanto a posição do obstáculo na história quanto sua resolução feliz.

E, por deixar o leitor em dúvida com relação a esse ponto fundamental, essa versão da história seria bem menos inofensiva do que parece. Teriam sido Adão e Eva verdadeiramente livres? Se o desenrolar da trama não permite que escolham o que não deve ser escolhido, como de fato saber?

Não se trata, mais uma vez, de conferir à história uma essência moral, coisa que a narrativa por si mesma não se rebaixa a fazer, mas de reconhecer nela a mais antiga especulação literária sobre a natureza da realidade. Que forças determinam a condição do ser humano? O homem é controlado pelo destino (isto é, por forças irresistíveis e externas a ele mesmo) ou pelas suas próprias escolhas? O livre-arbítrio existe ou é uma ilusão? Se existisse, quais seriam as suas consequências? Se existisse, a condição humana poderia ter um final feliz?

Para nos levar a esse espaço de simultâneos terror e legitimidade, o protagonista precisará avançar o limiar da sua zona de conforto. Para dar-nos indícios de que ele é livre e para que ele mesmo possa conhecer o terrível preço da liberdade, o conflito precisará apertar o protagonista ao ponto do irremediável. Adão e Eva precisam saber quem realmente são, e é somente depois que o narrador dirá deles que “seus olhos foram abertos”. Para conhecer quem realmente é Jonas terá de conhecer o ventre da baleia. No universo da narrativa, a transgressão é metáfora necessária para o autoconhecimento.

Paulo Brabo

10 maio, 2010

Notas para uma leitura de Paulo

Se Jesus nos ensinou a sermos homens para nos tornarmos filhos de Deus, Paulo nos ensinou a fazer uma ampla releitura da cultura e da história de modo a salientar a abrangência, a singularidade e a relevância do evento messiânico. Do mesmo modo que Paulo achou necessário empreender uma reinterpretação radical do judaísmo a fim de destacar (sem esgotá-los) os significados da obra de Jesus, devemos com o mesmo propósito sujeitar a uma reinterpretação radical o cristianismo e portanto nossa própria cultura. Nesse sentido são inteiramente válidas as críticas “pós-modernas” à história do cristianismo e a uma leitura tradicional ou condicionada do texto bíblico, mesmo quando o alvo dessas críticas é o caráter historicamente condicionado do próprio Paulo. Nenhum discurso é capaz de esgotar aquilo de que Jesus nos libertou ou as implicações da vida, morte e irradiação de Jesus para a nossa postura e nossa disposição cultural em cada momento da história; o Apóstolo seria o primeiro a concordar.

Paulo nos ensina não apenas que a elucidação de Jesus não alcança sua consumação no discurso de Paulo, mas que toda palavra, sendo em alguma medida proferida pela carne, será incapaz de adequadamente representar as implicações do reino, porque a carne é historicamente condicionada. Só o espírito, que sopra onde quer, poderá infundir na compreensão contemporânea da boa nova a suficiente graça. A letra mata, mas o espírito confere vida. O reino não consiste na palavra, cujo significado qualquer um pode sequestrar, mas na pura e intangível e subversiva e cavalheiresca e gentilíssima e inextinguivelmente generosa Intenção que é seu poder.

Nos primeiros séculos alguns cristãos chegaram à conclusão que para sobreviver o cristianismo requeria incessante defesa diante de ideias que competiam com ele pela primazia, e se tornaram por essa razão apologistas/defensores. Nas últimas décadas alguns cristãos chegaram à conclusão que para que a pérola de Jesus possa ser apreciada em sua pureza e singularidade, o próprio cristianismo não deve estar imune a críticas e ataques de dentro e de fora. Os primeiros achavam que ser como Paulo é tornar-se argumentador como ele; os últimos, que ser como Paulo é aprender com ele a exaltar a singularidade de Jesus em detrimento de todo o resto. O que confirma a validade do reino não são as muralhas de discurso que os articulados levantam para protegê-lo, mas a inargumentável irradiação de Jesus que despejam no mundo os menores de seus discípulos. Importa que Jesus cresça e que o cristianismo – abstração que Paulo provavelmente não reconheceria – diminua.

Paulo Brabo

16 março, 2010

A hora da morte

Quando Adão estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser experimentado, o anjo da morte teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece; sua vida se perpetuará através dos seus descendentes.

Quando Jesus estava à beira da morte, totalmente despreparado que estava para abandonar o mundo quando havia ainda tanto a ser feito, o anjo da morte, sabendo que Jesus não tinha filhos, teve pena dele e disse:

– Quero consolá-lo com um milagre que você não conhece: sua vida se perpetuará através dos seus seguidores.

Quando eu estiver à beira da morte, totalmente despreparado que estarei para abandonar o mundo quando haverá ainda tanto a ser dito, o anjo da morte dirá:

– Você não teve filhos e não terá seguidores, mas quero consolá-lo com um milagre que você conhece.

E dir-me-á ao ouvido o que eu sempre soube.

Paulo Brabo

26 fevereiro, 2010

Ascenção sem trégua das testemunhas

O verdadeiro gancho entre a conclusão do evangelho de Lucas e a abertura do livro de Atos dos Apóstolos não está na promessa do derramamento do Espírito (Lucas 24:49, Atos 1:4,5) nem na ascensão de Jesus (Lucas 24:51, Atos 1:9). Para Lucas, autor dos dois livros, o elo espiritual entre as atividades de Jesus e as iniciativas dos apóstolos pode ser expresso numa única palavra-chave: testemunhas.

Os primeiros parágrafos de Atos são uma recapitulação estendida das cenas finais de Lucas. Jesus reitera que os apóstolos permaneçam em Jerusalém até que “recebam poder do alto”, depois do que deverão “ser minhas testumunhas em Jerusalém, Samaria e até o confim mais remoto da terra”.

A chave para a compreensão desta ênfase está nos versos finais do evangelho de Lucas. Jesus, ressucitado, apresenta-se de forma palpável aos discípulos (“vejam, um fantasma não têm carne e osso, como vocês vêem que eu tenho”) e come com eles. Então, antes de partir, o rabi da Galiléia explica-lhes uma última parábola, a sua. Pela interpretação da Escritura, Jesus demonstra que Moisés, Salmos e os Profetas declaravam de antemão tudo que de fato sobreveio ao Filho do Homem na terra, particularmente seu suplício e ressurreição.

– E disso tudo – ele conclui, – vocês são testemunhas. (v.48)

Vocês são testemunhas. Sejam testemunhas. Este é o fio, puxado da conclusão do seu evangelho, que Lucas estende, como se verá, de ponta a ponta da parte dois.

É necessário observar que Mateus e Marcos imprimem outra ênfase a esta mesma cena final. A última ordem-chave de Jesus, na pena desses evangelistas, não está em “sejam testemunhas”, mas em façam discípulos – isto é, “saiam pelo mundo fazendo seguidores, ensinando-os a colocar em prática tudo que tenho ordenado a vocês”.

E “ser testemunhas” pode não ser o mesmo que “fazer discípulos” – ou, pelo menos, as duas coisas foram historicamente interpretadas como distintas. Na prática lemos as duas ordens como essencialmente diferentes, ao ponto de representarem para nós heranças contraditórias.

Cristãos de todas as estirpes acabaram seguindo a herança “sejam testemunhas” de Lucas, de Atos e de Paulo (ou pelo menos aquilo que julgamos ser a herança deles), em detrimento do “façam discípulos” de Mateus e Marcos. Para nós, propagar o evangelho diz muito mais respeito a “testemunhar do que Deus fez por nós” do que “ensinar as pessoas a colocar em prática o que Jesus ensinou”.

Resta ponderarmos como seria o mundo se tivéssemos seguido esta segunda herança, mais radical, ao invés da primeira. Ou, ainda mais importante, ponderar se de fato existe alguma diferença entre as duas.

O livro de Atos pode conter, paradoxalmente, as duas respostas.

Paulo Brabo

13 fevereiro, 2010

Se havia improvável graça

Se havia improvável graça no corpo ainda inerte do Homem, ela havia sido colocada em movimento antes.

O primeiro capítulo da primeira história descreve como Deus moveu céu e terra para que Adão tivesse um pano de fundo sobre o qual desempenhar a sua humanidade. O homem que ainda não foi criado não estará suspenso no vazio, pairando sobre a face das águas, quando despertar do sonho da possibilidade.

O que a história não diz é porque Deus faria uma coisa dessas. O ser humano não é o mistério, o mistério é o universo.

A explicação mais comum para a embaraçosa exuberância da realidade é o amor, e há sempre muito de verdadeiro e esclarecedor nas explicações mais comuns. Deus estava apaixonado, e o universo é o elaborado presente de um amante que não tem qualquer inclinação de esconder a sua paixão. O jovem criador está mais ansioso para o seu primeiro encontro do que qualquer apaixonado jamais esteve, mas pode gastar um momento pendurando a lua e as estrelas e enchendo a noite com o perfume de açucenas e rosas. O presente deve estar perfeito e irrecusável antes que ele finalmente diga: “pode abrir os olhos”. Para que tudo seja perfeito, tudo tem de ser perfeito.

O trabalho que Deus teve para estender os limites do universo por razões românticas é ecoado, simbolicamente e diretamente, em inúmeras passagens da Escritura. É motivação que tudo justifica, mas – e aqui está a limitação das explicações mais comuns – não explica o verdadeiro mistério.

O amor não precisa de explicações; não há mistério no amor de Deus pelo homem maior do que o mistério do amor em si. O que carece de esclarecimento é a suficiência do presente, que parece projetada para ocultar o doador em vez de valorizá-lo.

Pra que tanto, meu Deus? Se queria demonstrar o seu amor pelo homem, se quisesse verdadeira intimidade com ele, não bastaria a lua, o mar e um jantar à luz de velas? Por que constelações e granizo e ornitorrincos? A paixão é generosa, mas busca mais a intimidade do que a distração.

Por que o homem precisaria de um pano de fundo que não fosse Deus?

Se desde o primeiro dia o velho Criador é movido pela mesma inabalável paixão, a graça é o que há em todos os momentos. O que a narrativa quer ao mesmo tempo ocultar e esclarecer não é a sinceridade do amor, é a natureza da transgressão.

Paulo Brabo

07 janeiro, 2010

Adão Era...

Adão era, entre coisas, o homem mais bonito da Terra.

A beleza é uma espécie primal de graça. É muito conveniente, na verdade, que graça signifique, basicamente, beleza. Poucas coisas são tão descaradamente gratuitas quanto a beleza. Em sua forma pura, talvez a sua única, a beleza não existe condicionalmente nem como recompensa. É arbitrária, imprevista, fora de propósito. A beleza é.

Antes que pudesse estremecer com a vergonha, a coragem ou a virtude, o Homem já era bonito.

Como todo mundo, Adão precisaria de tempo para fazer vir à tona as demais facetas da sua personalidade. Não sabemos, só de olhar para a estátua de barro, se há nele força moral, inteligência, perseverança, generosidade. Mas antes mesmo da consciência, que é outra espécie de graça, antes que o Homem abrisse os olhos para a beleza do mundo e para sua própria, já estava tudo, esplendidamente, lá.

Por um momento, antes de sujar as mãos de barro, apenas Deus, sozinho, contemplou a beleza do mundo e viu que ele era bom. Por um momento, no momento seguinte, apenas Deus observou em silêncio solene a beleza de Adão.

Por um momento houve apenas graça.

Paulo Brabo

09 dezembro, 2009

A Faculdade de despojar-se

O Filho do Homem, que propunha incessantemente que não havia nada de errado em acumular riquezas, a não ser uma imaculada insensatez, gostava de pontuar que havia uma única e inequívoca vantagem em possuir: a capacidade de despojar-se. Em suas histórias todos despojam-se, e de todas as coisas: o rico comprador de pérolas, o pai do rapaz que pede a herança, o samaritano na beira da estrada, o cidadão de quem exigem a túnica, a viúva pobre diante de sua única moeda, o príncipe diante da soma imperdoável, o dono da fazenda e seu filho diante de seus agricultores.

Foi essa, obviamente, a faculdade que Jesus quis apontar ao jovem rico que cumpria desde a sua infância todos os mandamentos.

Venda tudo que você possui e dê aos pobres.

A subversão que ele propunha era de fato assombrosa. Jesus estava na verdade dizendo, abrace sua posição privilegiada e a oportunidade que apenas você tem: despoje-se. Ouse, transgrida; deleite-se e refestele-se na arrebatadora liberdade de despir-se, ainda no caminho, do que o limita e constrange o seu avanço.

Não foi, obviamente, a fé na suficiência da riqueza que impediu o jovem rico de dar o temível passo que o faria avançar; ninguém de fato acredita na suficiência da riqueza, especialmente e em primeiro lugar os ricos. O que o impediu de avançar foi sua fé, sua exorbitante fé, na suficiência dos mandamentos.

Cumprir a justiça é sempre confortável e limitante demais, pelo que o rabi de Nazaré insiste que a justiça deve ser constantemente ultrapassada (ai de vocês se a sua integridade não exceder a dos mais devotos carolas). E o que pode ultrapassar a justiça é apenas o amor, que não tem critérios (dê aos pobres) e não admite exceções (venda tudo que você tem).

Para o jovem rico, dar ouvidos a Jesus teria representado pisar descalço e sozinho e nu o terrível terreno da liberdade e da responsabilidade – o imoderado domínio que se chama reino de Deus, – mas para adentrá-lo teria sido necessário despojar-se dos mandamentos.

E isso ele não ousou fazer, porque os tinha cumprido desde a infância.

Paulo Brabo

22 setembro, 2009

Essa Crueza

Essa crueza parece estar totalmente ausente do relato da criação em Gênesis. Não se encontram aqui as mortes, decapitações, violência sexual e derramamento de sangue que recebem destaque nos mitos originais de muitas culturas. A criação em Gênesis 1 e 2, em comparação, aparenta ser um processo disciplinado e austero, orientado por uma rigorosa assepsia.

A violência criativa persiste, no entanto, mesmo nos recintos sanitizados de Gênesis. Se não a vemos é porque em parte a agressão reside sob a superfície; em parte porque aprendemos a fechar os olhos para ela.

Em Gênesis a iniciativa divina da criação é regida por duas atitudes que se alternam, a criação e a organização – ambas arbitrárias e, cada uma a seu modo, inerentemente violentas. Extrair existência do que não existe é uma agressão contra a suficiência do nada e de Deus; organizar o que foi criado em categorias é uma agressão contra a legitimidade do caos pré-existente e da relação divina com ele.

Em especial, a narrativa bíblica investe na noção de que para criar é preciso promover sem pausa a separação. Qualquer que sejam os termos originais ou as escolhas da tradução, a criação bíblica é caracterizado por verbos inerentemente agressivos: dividir, fender, separar, extrair – sejam seus objetos terra ou mar, luz ou trevas, céu ou terra, dia ou noite, homem ou mulher.

A criação da mulher talvez seja o melhor exemplo da tentativa da narrativa de minimizar o caráter agressivo da criação, mas o fato do homem estar anestesiado durante a operação não altera a natureza violenta da cirurgia.

A grande agressão, no entanto, é reservada para o modo como Adão foi arrancado de modo não natural da terra com que foi moldado. Estrelas, peixes e pássaros surgiram reluzindo do éter e da palavra divina, mas o homem foi “tomado”, praticamente subtraído, do solo pela mão divina. Quando lembra que essa sua estátua deverá voltar fatalmente ao pó – porque não passa de pó – Deus reduz a vida humana a um terrível débito que a criatura terá de pagar contra a violência do criador, sua infração de ter arrancado do solo uma ilegítima porção.

Os reflexos dessas transgressões divinas aparecem claramente no modo como Deus distribui consequências para a transgressão humana. No veredito de Deus a criação e a geração de vida deverão permanecer para o ser humano processos tão violentos quanto foram para ele. A fim de extrair fertilidade do solo, o homem deverá derramar do seu suor e agredir perpetuamente o solo com o arado; a fim de dar a luz e presentear o mundo com a vida, a mulher terá de sofrer e aceitar agressão contra si mesma.

Também para o autor de Gênesis todo ato criativo é um ato de violência, e há algo de terrível na autodeterminação. Haverá algum modo legítimo de se exercer o poder? O conflito que resta, e do qual se ocuparão todas as páginas restantes da Bíblia, está em se, e de que modo, a autonomia e a potência podem ser administradas.

Paulo Brabo

06 agosto, 2009

A maldição do pó

A maldição do pó me persegue, e nada há que me livre dela. Quando penso que estou finalmente em pé, avançando a passos largos rumo a um alvo glorioso, descubro que estou de rosto no chão com a boca cheia de poeira.

Maldita é a terra por sua causa, Deus explica a Adão, e isso explica tudo. O homem terá de suar para extrair alguma produtividade de seu próprio solo estéril,Tudo que o homem semear, isso não colherá. e ainda assim, quando plantar frutas e verduras, essa terra insubordinada “lhe produzirá espinhos e ervas daninhas”.

O homem e a mulher não foram amaldiçoados, mas a terra da qual fomos moldados é declarada maldita. Todas as minhas iniciativas são frustradas e nada pode me salvar, porque o que precisa de redenção é minha matéria-prima. Planto sonhos e colho pesadelos. Semeio admiráveis intenções e ceifo minha própria mesquinhez. O mal que não quero, esse faço. Não passo de pó, e sou portanto meu próprio túmulo: tudo que o homem semear, isso não colherá.

A serpente, que não pode ser destruída de mim, é inseparável de mim nessa condição. O homem e a mulher não foram amaldiçoados, mas a serpente que nos seduziu é declarada maldita. Sua maldição é alimentar-se continuamente de nós: e pó comerás todos os dias da tua vida. O veneno da serpente, que se alimenta diariamente de mim e em mim, contamina e torna infértil tudo que toco. O terreno que piso torna-se deserto; minhas boas intenções são pó, e ao pó voltarão.

Paulo Brabo

10 julho, 2009

Bastaria a morte

Bastaria a morte e tudo estaria resolvido, mas Deus escolhe uma solução mais complicada e exigente. Na expulsão do Paraíso o Protagonista ao mesmo tempo adia a resolução do conflito e o reconhece, porém permanece impulsionado por ele.

O protagonista não precisava de nada, mas agora precisa conviver com o conflito. A fim de ao mesmo tempo proteger-se dele e mantê-lo heroicamente diante dos seus olhos, Deus transforma seu conflito numa instituição.

A expulsão significa que Deus não quer mais mostrar a sua glória, porque a transgressão humana, reflexo da divina, deixou inteiramente manifestas as complicações da autonomia. Em regime paralelo, o homem terá de ocultar sua própria glória, até que encontre um modo de administrar a sua autonomia.

O problema com o poder é que ele tem duas faces; uma é ensolarada e generosa e boa, outra é mesquinha e cruel e perversa. Diante da abundância da escolha, Deus escolhe algo criativo e bom; diante da abundância da escolha, o Homem escolhe algo injusto e prejudicial. Porém o nó está em que a liberdade humana permanece fruto rigoroso da liberdade divina: no devido tempo, em três parágrafos ou trinta anos, o poder acaba gerando a morte e a esterilidade. Isso deve-se menos às escolhas que fazemos do que à natureza corruptora do poder em si; é por isso que a glória deve ser escondida de imediato, em regime de absoluta emergência.

Na raiz mais essencial desta história, então, está o pressuposto de que toda manifestação de poder, todo exercício de autonomia, por mais bem intencionado que seja e mesmo que parta do mais iluminado dos empreendedores, envolve perigos terríveis e aparentemente incontornáveis. O poder torna-se motivo de embaraço tanto para quem faz escolhas generosas quanto para quem as faz perversas.

O coração do problema não está na diferença entre escolhas, mas na natureza ambivalente do poder.

Paulo Brabo

20 junho, 2009

Em si mesmo nada há de terrível

Em si mesmo nada há de terrível no fato de o homem ter de transpirar, a mulher de dobrar-se de dor e a serpente de rastejar. Entre outras coisas, essas premiações são intercambiáveis entre os que as mereceram. São menos punições de Deus do que carícias da narrativa, distrações sensoriais que tornarão a história ao mesmo tempo mais interessante e mais consistente.

A verdadeira punição não consiste nem mesmo na morte, que espreita no parágrafo seguinte mas mostrará ser ao mesmo tempo provisão e cortina de fumaça.

O verdadeiramente terrível está em que o homem terá de usar roupas, isto é, terá de ocultar o que é e como foi criado. Ter a nudez coberta é nossa punição e o verdadeiro emblema da ambivalência da nossa condição. Para sempre dissimulados, para sempre disfarçados, somos condenados pelas instruções da nossa narrativa a viver encobrindo a abundância em suas implicações de liberdade, graça, sexualidade, beleza e autonomia – numa palavra, glória – ao invés de, como deveríamos ser capazes de fazer no paraíso, gerenciar a abundância com integridade, criatividade e responsabilidade.

As roupas servem de símbolo para o quanto isso é difícil, e para o quanto é tarefa exigente olharmos para nós mesmos, conhecermos a nós mesmos e nos aceitarmos. Encobrir a nudez é admitir, candidamente, nossa incapacidade de gerenciar nossa abundância e nos relacionarmos de modo íntegro e integral com os outros.

Esta é uma história sobre as complicações da autodeterminação, e as roupas são, paradoxalmente, símbolo de um precário voto de pobreza, ícones de uma autonomia que está sempre à espreita e deve ser constantemente tolhida – porque qualquer um pode, incrivelmente, escolher tirar as roupas onde quiser. A nudez é sempre um reencenamento da transgressão, e nisso tem o poder de fazer a história tomar imediatamente novos rumos, gerando novos conflitos, novos personagens e novas alianças.

O poder e a abundância, a graça e a autonomia, persistem, debaixo da mais fina e mais contingente das camadas.

O pudor é sua própria punição, porque tudo que faz é condenar e tolher. É uma cela e um prêmio, porque nos protege e nos cerceia. A glória e a autodeterminação permanecem sendo um problema e um dom que não sabemos conter mas não sabemos como gerenciar.

Dito de outra forma, encobrir a nudez é mais um problema do que uma solução. Quem nos livrará do corpo dessa morte?

Paulo Brabo

22 maio, 2009

Se o conflito é a graça

Se o conflito é a graça paradoxal que dá forma à história, se a transgressão é o sopro que lhe infunde ânimo, então há embutida em toda história uma ambivalência essencial. Horrores grandes e inequívocos como a guerra são transtornados por pequenas lealdades e heroísmos que, se não os redimem, ao menos absolutamente desconcertam, porque são coisas boas que nascem de coisas ruins.

Mesmo histórias que perseguem com sucesso um final feliz não estão livres dessa contradição interna, porque também dependem, antes de se aquietarem no ponto final, de equívocos, de ameaças, de separações. Antes de ser premiado e justificado no fim, Jó ponderará incessantemente se os fins justificam os meios.

Essa ambivalência essencial da narrativa é pontuada formalmente pelo vocabulário de Gênesis, que esforça-se para explicar que o conhecimento do bem e do mal são simultâneos.

Não é – preste atenção – como se na bem-aventurança anterior à transgressão Adão e Eva tivessem conhecido apenas o bem; não é como se depois da queda lhes fosse acrescentado o conhecimento do mal. A árvore é desde a primeira menção estabelecida como “do conhecimento do bem-e-do-mal”. Ou seja, no momento primordial da transgressão o ser humano conhece ao mesmo o tempo, num único vislumbre terrível e singular, tanto um quanto o outro.

A lição, a atordoante lição, é que o bem não pode ser conhecido sem o conhecimento simultâneo e correspondente do mal. O próprio Deus não pode se dar ao luxo de viver num mundo inconcebível que abraça a percepção de um e vive na ignorância do outro (”o homem tornou-se como um de nós, conhecendo o bem e o mal”).

Na transgressão o homem depara-se simultaneamente com as maravilhas e terrores da autodeterminação, e entende pela primeira vez (pois o relógio já começou a correr) as implicações de tomar parte numa história que ainda não terminou. Entende que algo pode ser tentado para consertar o estrago que já foi feito, mas absolutamente tudo ainda pode dar errado.

Paulo Brabo

23 abril, 2009

A incubação do Espírito

Porque o que a ascensão serve para pontuar é que a ressurreição é solução infantilizante, insuficiente e, no fim das contas, contraproducente, se não for logo tirada do centro do palco. Se Jesus tivesse permanecido indefinidamente entre os discípulos após a ressurreição, teria sem alternativa se tornado ídolo – isto é, não seria entendido, não seria seguido, e seu terrível exemplo não seria assimilado. Se tivesse permanecido, teria na verdade anulado toda a sua obra, produzindo uma cultura paternalista e circular ao invés de um novo e admirável Espírito. Teria coberto o mundo em trevas, ao invés de se tornar a luz do mundo.

Porque intuíra essas coisas, Jesus mesmo observara: “se eu não for, ele não virá”. Se ele não fosse, a semente do Reino não chegaria a brotar; seu fermento não transtornaria a massa; seu testamento não deixaria herança.

Sua mera partida, no entanto, não produziu de imediato a solução para o problema que sua permanência não seria capaz de resolver. Sem Jesus, restou aos discípulos procurar incessantemente no céu a sua volta. Nada começou visivelmente a brotar ou a borbulhar.

O problema com uma alma iluminada é que ela produz uma grande sombra. Quanto mais admirável o exemplo, mais difícil torna-se imitá-lo. Quanto mais admirável o exemplo, menos eficaz ele se torna por essa paradoxal razão. A partida de Jesus deixara os discípulos mergulhados até o pescoço no problema paralisante da sua Sombra. De que modo imitar o mais atordoante dos exemplos? De que modo não ser completamente anulado por ele?

Inteiramente instruídos, como todos os homens, em imitar com eficácia os desejos dos outros, os discípulos viram-se totalmente incapacitados de imitar aquele que não desejava o que desejam os homens. De que forma imitar o desejo de Jesus? O que desejava Jesus? Por certo não o poder, o sucesso, o reconhecimento, o dinheiro, a performance, a aquisição, a segurança e a influência que todos desejam.

E esse Jesus, que claramente não podia ser copiado, deixara a incumbência não apenas de ser copiado pelos que tocara, mas de que esses transmitissem eficazmente a novos seguidores, essa tecnologia.

E indicou o caminho, indicando caminho algum: que apenas não saíssem de onde estavam até que o espírito começasse a brotar. A única coisa que os discípulos fizeram, portanto, enquanto esperavam pelo despertar sobrenatural de uma solução para o dilema da imitação de Jesus, foi permanecerem juntos. Não se dispersaram. Perseveraram na inclusiva unidade que jamais havia sido ousada, e essa teimosa permanência acabou produzindo, ela mesma, a solução.

Pois o que aconteceu nos dias que antecederam o Pentecostes foi precisamente o reverso do processo de vitimização que levara Jesus à cruz algumas semanas antes.

Na vitimização de Jesus, o desejo de todos pelo que todos não têm como possuir em conjunto forjara uma precária unanimidade que na verdade perpetuava e validava os antigos antagonismos e seus mecanismos. Na incubação do espírito, o desejo de todos pelo que todos podem possuir em conjunto despertara uma concórdia que recendia a eternidade e desmanchava as velhas diferenças no abraço da reconciliação.

Na fermentação da morte, o desejo mimético da comunidade de Jerusalém gerara uma inteligência coletiva perversa, assassina e subterrânea, que se manifestou paulatinamente em todos e terminou não beneficiando ninguém. Na incubação do espírito, o desejo mimético da comunidade dos discípulos despertou uma inteligência coletiva benigna, radiante e iluminante, que veio à tona simultaneamente através de todos e a todos beneficiou.

A imitação de Satanás produzira um crescendo irresistível de morte e exclusão. A imitação de Jesus culminou com um testemunho comunitário sem precedentes, com o legítimo transpor de barreiras ancestrais e com a efetiva inclusão de todos.

A imitação de Satanás é o pacto dissimulado da morte; a imitação de Jesus é a sinergia à descoberto da vida.

Pois o derramar do Espírito nada mais foi do que a intuição conjunta do espírito de Jesus. Não é de admirar que os trovões tenham baixado à terra e as línguas da luz divina tenham afagado as frontes. Naquela manhã os discípulos chegaram sem aviso e simultaneamente a uma conclusão ao mesmo tempo muito espiritual e muito terra-a-terra: que desejavam todos uma mesma coisa, e essa coisa era coisa nenhuma – ou, para ser mais exato, a coisa constantemente desejada por Jesus.

O processo de Satanás não fora apenas exposto, mas efetivamente revertido. O desejo mimético de uma comunidade, que até aquele momento da história fora canalizado para produzir apenas morte, discórdia e ancestral antagonismo, tinha sido revertido por Deus para gerar vida, harmonia e inédita reconciliação.

Porque o que havia em Jesus para ser imitado – o que Jesus desejava – era, naturalmente, o desejo de Deus, e nada além do desejo de Deus. Ele mesmo articulara as coisas dessa forma. O que perceberam e receberam os discípulos no Pentecostes foi o vislumbre de que o Espírito de Deus (com maiúsculas) é precisamente o mesmo que o espírito (com minúsculas) que havia em Jesus.

Entenderam que ser conduzido, como todos os homens, pelo desejo dos outros homens, representa escravidão e morte. Que ser conduzido pelo desejo é o mesmo que ser consumido pelo temor, e o espírito que havia em Jesus era de não-diluídos liberdade e destemor. Compreenderam que para ser como Jesus é preciso imitá-lo no que ele desejava, a libertadora, corajosa e todo-inclusiva vontade do Pai.

É por isso, não apenas para corresponder estruturalmente à única armadilha de Satanás, mas para anulá-la por completo, produzindo inclusão ao invés de exclusão (”naquele dia agregaram-se cerca de três mil pessoas”), que a inteligência divina do Espírito teve de esperar o momento de se manifestar simultaneamente em todos e em cada um. Quando encontraram o que havia em Jesus para ser seguido, os discípulos produziram imediatamente perplexos seguidores.

Aconteceu no momento em que foram todos capazes de intuir, iluminados pela perseverança na inclusão, a solução para o dilema da imitação de Jesus. Quando entenderam que, se deixassem de desejar o desejo que paralisa e aterroriza todos os homens, poderiam ser simultaneamente eles mesmos e como Jesus.

Paulo Brabo

06 abril, 2009

O efeito imediato

O efeito imediato, e o único efeito inerente à transgressão não é a culpa, o arrependimento ou o castigo (todos esses amarrados às intermediações da serpente e não à transgressão em si), mas a autoconsciência. A coisa que o homem descobre sem qualquer intervalo deste lado da transgressão é que tornou-se igual a Deus no que Deus transgrediu e criou o homem – isto é, viu refletida no outro a própria glória, isto é, viu que estava nu, isto é, conheceu o bem e o mal, isto é, conheceu as complicações de estar diante do outro em glória.

Conhecer a própria nudez é, evidentemente, conhecer a própria glória. A transgressão do homem reflete a trangressão divina original porque, como Deus, a primeira reação do homem diante do conhecimento da sua glória é ocultá-la. “Costuraram folhas de figueira e fizeram para si aventais”, mas antes Deus já havia escondido sua glória atrás da Árvore que homem e mulher não deveriam ultrapassar. Para que não passe despercebida, a narrativa faz eco pontual a essa revelação: quando sentiram a aproximação de Deus, que vinha visitá-los na fresca da tarde, homem e a mulher “esconderam” sua nudez (isto é sua glória) “da presença de Deus” (isto é, dos olhos dele) “entre as árvores do jardim” (verso 8). Essa poesia é uma precisa inversão ou reflexo do que Deus havia feito: camuflado do homem as complicações da sua glória atrás de uma árvore.

Paulo Brabo

01 março, 2009

Que são a imitação e o jogo de espelhos

Que são a imitação e o jogo de espelhos o vento a inflamar a tentação o texto deixa claro através de inúmeras pistas internas. Nenhuma, porém, é mais clara do que o depoimento da serpente: “[quando transgredirem] vocês serão como Deus”. A motivação do pecado é a mesma da virtude, o desejo de imitar a divindade.

Nessa sedução da serpente a narrativa deixa patente o mecanismo mais secreto e mais evidente da vontade humana. Num sentido muito fundamental (e ao contrário do que comumente se pensa), não desejamos aquilo que não temos e não temos qualquer inclinação natural a violar uma proibição. A privação e a interdição não bastam para desencadear a transgressão, porque as coisas a que não temos acesso por si mesmas não nos interessam. O que almejamos de forma irresistível é imitar o próximo. O que nos impele a desejar as coisas que não temos é a sede de ser como os outros. O primeiro homem não deseja o fruto da árvore, mas deseja ser como Deus.

Queremos em tudo imitar o próximo, pelo que nossos desejos se orientam pelo que as outras pessoas possuem, mas o que nos interessa em especial é imitar os desejos do próximo. Nosso plano-mestre é tornar nossas as ânsias dos outros, a fim de que compartilhemos vicariamente da satisfação que pertence a eles. Assim o que começa em admiração, se deixado a seus próprios recursos, termina fatalmente em rivalidade e antagonismo.

Paulo Brabo

31 janeiro, 2009

Onde está a maldade?

Onde está a maldade da serpente, se tudo que ela tem apresentar ao homem diante da inevitável transgressão é a verdade? Se a serpente não se rebaixa a acenar com nenhuma promessa falsa, porque a tradição fará com que Jesus acuse-a de mentirosa por excelência? Se ninguém morre, porque Jesus legislará que ela é assassina “desde o princípio”?

Para encontrar uma resposta satisfatória será preciso aguardar a entrada em cena do próprio Jesus. Neste meio tempo, se examinarmos a própria narrativa com o devido distanciamento poderemos encontrar indicações importantes.

Para retraçar o trajeto tortuoso da serpente será preciso enfatizar a absoluta neutralidade moral da interdição original – e se retorno com tanta frequência a este ponto é porque estamos tão formidavelmente habituados a pensar o contrário.

“Não coma desta árvore, caso contrário vai morrer”. A interdição original é menos moral do que mecânica: não faça A, caso contrário B será inevitável. É menos uma proibição – e é certamente menos um mandamento – do que um aviso. Transgredir pode se mostrar tremendamente imprudente, mas não é, em qualquer sentido, errado.

Daqui a alguns minutos, quando o homem já tiver transgredido, mas antes de ter apontado a participação da serpente no caminho da transgressão, é preciso ouvir com atenção aquilo que Deus não dirá. Significativamente, Deus não perguntará “Adão, porque você me traiu?” ou “porque me desobedeceu?” ou “porque pecou?”. Tudo que ele irá ressaltar é a natureza mecânica da transgressão: “você comeu da árvore que eu mandei que não comesse?” Você fez A, que eu disse para não fazer? Para o próprio Deus, a transgressão é mero interruptor que não deveria ter sido acionado: não implica em traição, não implica em desobediência e não implica em pecado. Em termos narrativos, poderia ter ocasionado a Queda e a Morte, mas não precisaria ter ocasionado o pecado.

Acontece que no intervalo entre a proibição e a transgressão a narrativa acolheu um novo personagem, e deverá tolerar estoicamente a sua intervenção. No intervalo entre a proibição e a transgressão o novo personagem injetará no conflito o seu veneno: isto é, no meio do caminho havia uma serpente. Seu papel não é fazer a história avançar (o que teria acontecido fatalmente sem ele), mas imprimir à narrativa um novo matiz teológico – ou, para ser mais preciso, antropológico.

Quando transmite ao homem a proibição, Deus fala do alto de sua exaltada e bem-intencionada posição; a serpente, porém, falará ao homem a partir do seu próprio nível, diretamente nos seus ouvidos. Não é de modo algum por acaso que seja assim. Se toda a bondade que há no homem é divina, toda a maldade que há na serpente é humana.

Paulo Brabo

04 janeiro, 2009

Deus sabe

Deus sabe que no momento em que comerem desse fruto os olhos de vocês se abrirão, e ficarão conhecendo o bem e o mal.

E, como se verá, Deus de fato sabe. Ele sabe.

O Profeta Não-autorizado levanta-se no palco e revela aquilo que Deus não ousara confessar: que a transgressão não implica apenas em prejuízo, mas também em aquisição. Estão bem divididos os papéis: Deus enfatiza apenas o prejuízo, a serpente apenas o ganho. E o ser humano, do inconcebível lado de cá da transgressão, posta-se de pé diante de uma ameaça que não sabe avaliar e de uma promessa que não tem como compreender.

É inevitável, na narrativa, que ele tome o terrível passo seguinte.

A narrativa não esconde, e de fato enfatiza, que Deus, embora tivesse construído o universo de forma tão deliberada, deixara na sua obra esta ponta tão formidavelmente solta. Como se verá, Deus de fato sabia que com a transgressão os olhos dos homens seriam abertos e conheceriam o bem e o mal; era esse destino terrível que ele procurava aparentemente evitar. Deus não queria premiar o homem com a morte: queria poupá-lo do horror do autoconhecimento.

Mas em alguns universos determinadas transgressões são inevitáveis, estão entretecidas na própria trama da realidade, e este é o universo de Deus. Esta é a sua história. O que o protagonista semear, isso ele colherá, e as transgressões dos pais perseguirão as escolhas dos filhos.

Paulo Brabo

06 novembro, 2008

Impunemente

Estou cansado de ouvir gente dizendo que não reconhece a legitimidade do Deus do Antigo Testamento por considerá-lo divindade patriarcal, irascível, xenófoba e vingativa; esse Deus sanguinário, garantem-me, não tem como ter algo em comum com o Deus de Jesus, que é bondoso, compassivo e gente boa – numa palavra, é amor. Acham fácil amar Jesus, mas consideram difícil não escantear Iavé na sua qualidade de mesquinho deus tribal.

Não direi, porque seria muito fácil, que pensar assim é ignorar o testemunho mais pertinente, já que pelo que sabemos o próprio Jesus apenas asseverou a sua relação de continuidade com a postura, os porta-vozes e as palavras do Deus do Antigo Testamento.

Eu, de minha parte, estou muito mais inclinado a colocar em dúvida a inspiração daqueles que, afirmando-se seguidores do dócil Jesus e de seu amoroso Pai, fizeram apenas patrocinar ódio, preconceito, exclusão e derramamento de sangue ao longo da história do cristianismo.

E como não? Ousamos questionar o caráter de Davi, que não sentiu nos ouvidos o terrível afago das bem-aventuranças, mas respeitamos como se fossem Escritura as tradições de promotores do ódio, ensinando-os em seminários que reivindicam para si a chancela do bom Jesus.

Gente como Justino Mártir (100-165), que afirmava que Deus havia dado a circuncisão aos judeus como sinal eterno de exclusão, “para que vocês sejam separados de todas as nações e de nós [cristãos], sofrendo tudo o que merecidamente sofrem”; gente como Eusébio de Cesaréia (275-339) e João Crisóstomo (349-407), que justificavam a inclemente perseguição aos judeus porque criam que nela Deus estave se vingando da morte do seu filho; gente como os autores do Manual dos Inquisidores (1376) e do Martelo das Feiticeiras (1487), provedores do combustível que alimentava os fogos da Inquisição; gente como Martinho Lutero (1483-1546), que queria ver queimadas todas as sinagogas e bradava pelo sangue derramado de milhões de judeus; gente como os batistas norte-americanos que vestiam cheios de entusiasmo o capuz da Ku Klux Klan e justificavam a escravidão com uma interpretação rasteira de Gênesis 9; gente como os perpetradores ideológicos da Noite de São Bartolomeu e da troca de massacres entre protestantes e católicos na Irlanda; gente como os membros da Igreja Batista de Westboro, que cantam alegremente, hoje mesmo no YouTube mais próximo de você, o quanto Deus odeia o mundo; gente como eu, que sou um canalha, um ladrão e um mentiroso, que não amo a ninguém como convém, que com a boca sirvo a Jesus, com o coração sirvo a mim mesmo e com as duas mãos e os dois pés impulsiono a locomotiva de exclusão social e devastação ambiental que é o capitalismo.

Fico com Davi, Saul e o massacre dos amalequitas, mas quero alçar a coragem de desafiar a autoridade de quem, não amando, demonstra não ter qualquer relação com o Deus de amor; quem, afirmando conhecer Jesus e ser credenciado pela sua autoridade, pisoteia o seu espírito e sua reputação.

Antes de apontarmos o cisco no olho de Deus, deveríamos atentar para a tábua que está no nosso. A história da Igreja, traçada impunemente em nome de Jesus, é mais sangrenta do que a de Iavé jamais foi.

Paulo Brabo

18 setembro, 2008

Quando olho tempo suficiente

Quando olho tempo suficiente para a serpente, a ponto de concluir que ela é uma verdadeira ameaça para mim e meus amigos, a própria serpente me percebe e parte sem qualquer intervalo para o ataque. Ela sabe que assim que noto sua presença não sou mais imune à sua picada: tornei-me sua presa imediata e potencial.

Pressionado inequivocamente pelo conflito desta minha narrativa, tudo que posso fazer é apertar a própria serpente pelo pescoço, na intenção de me proteger, e levantar-me do lugar a fim de levá-la para longe, na intenção de proteger meus amigos.

No momento seguinte, enquanto passo por eles com o bicho enfurecido nas mãos, meus amigos olham-me aterrorizados e esforçam-se para manter-se a uma distância segura de mim.

Não devo supor que estão com medo da ameaça da qual tento protegê-los, porque são inteiramente incapazes de percebê-la. O que os aterroriza é que eu, seu companheiro e seu cúmplice, levantei-me do meu devido lugar e apontei o perigo. Quando escolho que o risco vale abandonar a indiferenciação do grupo, tomo o primeiro passo no sentido de tornar-me um indivíduo – e isso os apavora.

Minha iniciativa, motivada pelo minha preocupação com a integridade do grupo, transformou-me aos olhos deles numa ameaça e numa abominação.

Paulo Brabo

09 setembro, 2008

A serpente permanece um enigma.

A serpente permanece um enigma também porque, embora conheçamos bastante sobre o seu crime, desconhecemos por completo os seus motivos. Dos personagens que a narrativa apresentou até agora acompanhamos algum desenvolvimento dramático. De Deus, Adão e Eva conhecemos os poderes, os limites, a missão.

Quando a serpente comparece na história tudo que está ali para nos receber é o mistério da sua presença, o enigma da sua necessidade. Sabemos como funcionam as narrativas (esta, mesmo sendo a história das primeiras coisas, não é a primeira história que ouvimos), e sabemos que a narrativa caminharia para o seu inevitável fim, com desdobramentos espetaculares para a relação entre Deus e o homem, sem a presença necessária de um vilão.

Mas já que somos premiados com um criminoso, a primeira coisa que exigimos conhecer são os seus motivos, isto é, a natureza da sua relação – sua tensão – com os demais personagens. Porém, quando descobrimos alguma coisa sobre os poderes e sobre a missão da serpente, é pelo que o proprio vilão faz e diz, não pelo que o narrador nos alerta ou confidencia sobre ele.

O narrador, que nos levara pela mão até aqui, deixa-nos de repente à mercê da serpente. Deixa-nos sozinhos inclusive para ponderar porque raios ele faria uma coisa dessas.

Paulo Brabo