12 junho, 2008

A poesia-teologia de João da Cruz

Sou um apaixonado por poesia, acho que já deu pra notar. Quando primeiro comecei a rabiscar minhas canções, no entanto, percebi o quanto estava longe de ser poeta. O tempo, por sua vez, como um autêntico cupido, encarregou-se de aproximar-me de minha paixão.

Minhas primeiras melodias tinham como letras adaptações de temas e de textos bíblicos. Mais adiante, alguns parceiros mais experientes e competentes emprestaram seus talentos para juntos escrevermos melodia e letra.

E foi assim, até que pelos idos dos anos de 1990, trabalhando em uma instituição bancária, descobri uma biblioteca repleta de livros de poesia dos grandes nomes de nossa literatura que podiam ir e vir, pelas agências, pelo malote. Pronto: semana sim, semana não, eu tinha um novo livro nas minhas mãos e podia mergulhar nas águas profundas da imaginação e das novas descobertas.

Depois de alguns meses de leitura, comecei a escrever poesia compulsivamente. Nos guardanapos dos restaurantes, no trem do metrô, no ponto de ônibus. Desde então, atrevo-me não a chamar-me de poeta, mas a dizer que minhas canções têm poesia.

E, como para todo aprendiz de poeta que se preze, João da Cruz (1542-1591), agraciado com o título de Patrono dos Poetas Espanhóis, é nome obrigatório em minha prateleira.

Dedicaria minha admiração e respeito perenes a João só pelo título que lhe foi concedido. Ele, no entanto, foi muito mais que um célebre poeta.

Sua vida dedicada à fé e seus escritos repletos de poesia da mais alta qualidade e de um conteúdo belo e perturbador têm influenciado milhares de pessoas em todo o mundo. Na Índia e no Oriente ele é conhecido como "iogue por excelência". Entre os jovens rebeldes e a geração dos angustiados existenciais, ele é visto como um caminho de superação do relativo. Os monges o procuram como o mestre que, com competência, aponta o caminho para o mergulho no eterno. Líderes de várias religiões encontram nele uma referência, uma sabedoria que explica os muitos fenômenos do espírito humano, que se aventura em busca da transcendência.

Experimentei recentemente um exemplo claro da influência de João da Cruz sobre a cultura espanhola. Minha mulher (doutoranda em arquitetura) e eu fomos almoçar com o professor Horácio Capel, geógrafo espanhol em visita a São Paulo.

Natural de Málaga, professor na universidade de Barcelona, orientador de mais de 80 teses de doutorado e licenciatura, doutor honoris causa por duas universidades e autor de mais de 300 publicações, o professor Capel mostrou-se uma pessoa de rara doçura e sensibilidade. No meio de nossa conversa, mencionei minha paixão pela obra de João da Cruz. Para minha surpresa, o renomado professor citou de cor um de seus versos mais conhecidos:

¿Adónde te escondiste,
Amado, y me dejaste con gemido?
Como el ciervo huiste,
habiéndome herido;
salí tras ti clamando, y eras ido.

No exemplo de vida de João, observa-se a síntese ideal entre contemplação e atividade, vida interior e vida exterior. João é um místico e um poeta que fala de teologia.

João, a exemplo de Teresa, destaca em sua obra o interior da alma como sendo o lugar de encontro entre aquele que busca e Aquele que se faz conhecer. Em oposição ao êxtase, em João valoriza-se o “ênstase”, o entrar dentro de si, despojar-se de si cada vez mais e, nesse despojamento, conseguir-se a total liberdade do corpo e a completa nudez do espírito.

É como a imagem da janela e do sol. Deus é como o sol, que se dá a todos indistintamente. Cada um de nós, por sua vez, é como uma janela. Alguns possuem uma cortina muito grossa que não permite que o sol entre. Uns têm a janela suja, outros a janela empoeirada. Outros ainda têm na janela uns vãos que permitem ao sol entrar só aos pedaços. Limpar a janela não muda a sua natureza. Na janela que está limpa, no entanto, o sol entra com plena liberdade, de modo que ao olhar em sua direção só vemos a luz do sol. A janela já não importa mais.

João da Cruz pertence àquele grupo de homens que, ultrapassando as fronteiras do tempo e da religião, tornaram-se patrimônio da humanidade. E permanecem simples poetas, cujas poesias são citadas de cor, por anônimos, em mesas de restaurante.
Singelos e maravilhosos poetas.

Jorge Camargo

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