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02 fevereiro, 2009

Deus é pássaro encantado

Deus é como um pássaro encantado que nunca se vê. Só se ouve o seu canto... Deus é uma suspeita do nosso coração de que o universo tem um coração que pulsa com o nosso. Suspeita... nenhuma certeza. Fujam dos que têm certezas. Olhem bem: eles trazem gaiolas nas suas mãos. Os pássaros que têm presos nas suas gaiolas são pássaros empalhados. Ídolos.

Rubem Alves em "O melhor de Rubem Alves"

30 janeiro, 2009

Epifania: um olhar sobre a violência de nossos dias

Observe um quadro, painel na verdade, entre os que melhor transmitem todo o desespero advindo da violência, que é intemporal numa sociedade, na guerra ou no terrorismo do crime organizado e da repressão policial inconsequente nas favelas das nossas cidades. Inocentes, pobres, desprotegidos, são vítimas preferenciais da violência. Guernica retrata um dia fatídico, trágico. Demonstra os resultados do bombardeio nazifascista. Franco e Hitler o haviam autorizado. Uma vila espanhola com pouco mais de sete mil habitantes teve metade de sua população morta pelas metralhadoras nazistas. Estranha coincidência com o fatídico 11 de setembro de 2001, no desabamento das torres gêmeas de Manhattan, Nova York.

Picasso compôs esse monumento à insanidade da violência enquanto desenhava um cavalo e um touro, como se quisesse compará-los à mula e ao boi dos presépios natalinos -- tão débeis e frágeis em sua mansidão, mas engrandecidos na representação de sofrimento, angústia e loucura que alcançam criaturas inocentes numa guerra inexplicável. Exemplarmente: Guernica abrigaria revoltosos e inconformados com a violência fascista na Espanha. A violência sufocante, hoje, explorada “ad infinito”, impõe-se também pelo extermínio das sementes de liberdade, enquanto se insufla o medo sem apresentar uma crítica real sobre sua origem.

Junto ao touro e ao cavalo o pintor colocou uma pomba moribunda. Por quê? Ali está a simbologia do Divino. O Espírito Santo de Deus testemunha a brutalidade da violência. Está identificado com os que sofrem, é vítima solidária na indústria de mortes violentas com as quais nos revoltamos ou nos conformamos. É, no entanto, Epifania; Deus se revela entre homens, mulheres e crianças brutalizados, que proclamam: Deus, solidário, está no meio de nós.

O testemunho de Picasso é válido para todos os tempos. Corpos mortos, almas feridas pela destruição daquilo que lhes vale mais, desde a cultura até os melhores valores éticos estraçalhados, compõem o cenário de horror. Bem próximo da pomba, o pintor espanhol pintou raios de uma luz misteriosa, sinal de iluminação interior, protegidos dos bombardeios exteriores; uma espécie de couraça garantidora da esperança de liberdade (sperma=semente).

Exterminam-se sementes de liberdade enquanto se insufla o medo. Homens e mulheres têm medo de sair nas ruas. Mas a doutrina trinitária do reino de Deus é a doutrina da liberdade. O Filho comunica, na mútua participação da vida indestrutível, que cada homem e cada mulher se tornam livres para além dos limites da sua individualidade, e descobrem o espaço vital comum da sua liberdade. Esse é o aspecto essencial da liberdade. O seu nome é amor e solidariedade.

Experimentamos nele a união da diversidade dos indivíduos e a união das coisas que foram separadas à força, pela violência. O Espírito Santo de Deus testemunha a violência contra a liberdade. Ele está no cotidiano, solidário, gemendo de dor com o sofrimento humano: "O Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis" (Rm 8.26). As vítimas da fábrica de mortes violentas, com as quais nos conformamos, reclamam da indignação dos crentes, porque Deus já está indignado com o sofrimento imposto pela criatura à própria criatura.

Um Deus imóvel e apático não poderia ser colocado como fundamento da liberdade humana. Um soberano absolutista no céu não encoraja nenhuma liberdade sobre a terra. Somente o Deus sofredor e apaixonado, que vem aos homens, e por força da sua paixão pelo homem, é capaz de fazer com que exista a liberdade humana. Ele oferece à nossa liberdade o seu divino espaço vital. O Deus uno e trino, que realiza o reino da sua glória em uma história de criação, libertação e glorificação, solidariamente deseja e alicerça a liberdade humana, e dispõe o homem incessantemente para a liberdade (J. Moltmann). Resta-nos comemorar, nesta Epifania, a presença do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Deus está conosco para sempre.

* Derval Dasilio - é pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil.

15 dezembro, 2008

Uma afirmação dura (mas verdadeira!)

"A ciência de Deus não é motivo de orgulho ou de superioridade, porque à medida que se conhece a verdade, descobre-se também que o cainho para conhecê-la mais profundamente é longo. O conhecimento da verdade é também o descobrimento da ignorância que ainda nos separa da plenitude do conhecimento. Pode-se saber com segurança, mas, ao mesmo tempo, saber que falta saber muito mais. O verdadeiro sábio, que conhece a verdade, sabe que ainda falta muito para conhecer realmente toda a realidade que se revelou em Jesus Cristo".

José Comblin
em "O que é a verdade?" pg. 27

03 setembro, 2008

Pascal e as razões do coração

Quem leu a revista Veja, edição de 18 de junho, encontrou a entrevista do matemático John Allen Paulos, que escreveu o livro Irreligion, para demonstrar que os argumentos clássicos que sustentam a existência de Deus são absolutamente inconsistentes do ponto de vista lógico. Nas respostas dadas nas páginas amarelas, ele garante que se as pessoas gostassem mais de matemática, “pensariam com mais rigor. Isso faria com que pusessem suas crenças em xeque”.

A opinião do matemático é interessante, porque reflete uma concepção comum no meio acadêmico: a de que a fé normalmente é filha da falta de reflexão intelectual mais madura. Houvesse maior rigor lógico no pensamento da massa, a fé tenderia a desaparecer.

Esse ponto de vista de que o crente não pensa com rigor, e só por isso permanece crente, não é incomum no pensamento secular, especialmente na classe culta. Segundo esse paradigma as pessoas acreditam em Deus porque lêem muito pouco. No final das contas a fé decorre de um problema de falta de conhecimento.

A base para essa postura não decorre da irrazoabilidade dos argumentos favoráveis à existência de Deus, todos perfeitamente plausíveis. É que, ainda que razoáveis, esses argumentos não oferecem a prova definitiva que satisfaria um investigador que seguisse rigorosamente o método científico ou o raciocínio lógico.

Mas não vamos nos ocupar disso. A discussão entre ateus e crentes, já observou Donald Miller, está ficando cansativa e há muito deixou de ser sobre Deus e se tornou mais um espetáculo de ostentação onde cada lado procura mostrar que é mais inteligente do que o outro.

A menção ao livro de John Allen Paulos serve apenas de mote para observar que nem o rigor lógico nem o método científico de investigação constituem o instrumento adequado para se buscar a Deus. Talvez a inteligência não seja a ferramenta mais adequada para municiar o explorador que parte nessa aventura de investigação.

É que o objeto de investigação parece não ser um objeto. É alguém que, ao que tudo indica, não está disposto a ser esquadrinhado pela inteligência fria e objetiva, própria da investigação científica. É interessante notar a afirmação de Isaías 45.15 ao Deus que se oculta, o Deus Absconditus. Neste tempo, em que alguns líderes cristãos se sentem tão seduzidos pelo brilho espetacular da inteligência secular, é importante afirmar a impotência dessa ferramenta para perscrutar as coisas de Deus.

O intelecto humano é incapaz de, por si só, encontrar a Deus. Se há alguém por trás da cortina do mundo material, não será descoberto pelos nossos sentidos ou pelo exercício do pensamento lógico.

Na história do pensamento humano quem destacou essa verdade com admirável precisão foi Pascal, destaca Edward Tingley, filósofo canadense, num brilhante artigo publicado na edição da revista Touchstone de junho. Segundo Pascal, “é o coração e não a razão que percebe a Deus”.

Quando Pascal fala no coração não está se referindo simplesmente aos sentimentos, que são trapaceiros e nos enganam freqüentemente, mas à convicção que nasce no âmago do ser, que responde a um anseio muito mais profundo que a simples curiosidade intelectual. Ao contrário do que pensa o matemático citado no início deste artigo, não há como pôr em xeque a crença de quem foi convencido no coração, ainda que essa pessoa seja treinada a “pensar com mais rigor”. O autor de Pensamentos adverte contra dois excessos: “excluir a razão; admitir só a razão”; e ao dizer que “o coração tem razões que a própria razão desconhece” não está afirmando a prevalência dos sentimentos, mas tão-somente estabelecendo que o coração tem o poder de conhecer certas realidades que a razão não pode demonstrar.

Talvez quando Deus usa a boca de Jeremias para afirmar que será encontrado por aqueles que o buscam de todo o coração, esteja querendo afirmar que não pretende ser examinado pela curiosidade intelectual de ninguém. O que ele deseja é relacionamento. E relacionamento só é possível quando há encontro de corações.


João Heliofar de Jesus Villar, 45, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

14 agosto, 2008

A sombra e sua réplica

Um homem inconsciente de si mesmo age de modo cego e instintivo; ele é além disso enganado por todas as ilusões que se levantam quando vê tudo aquilo de que não tem consciência em si mesmo vindo de encontro a ele de fora, na forma de projeções sobre o seu próximo.

* * *
As projeções transformam o mundo na réplica da face desconhecida de cada um.

* * *
A regra psicológica afirma que quando uma situação interior não é tornada consciente ela acontece na realidade exterior na forma de destino. Quer dizer, quando o indivíduo permanece indiviso e não toma consciência de seu oposto interior, o mundo é forçado a exprimir o conflito, sendo fendido em metades opostas.

* * *
Encher a mente consciente de concepções idealizadas é característica da teosofia ocidental, mas não o confronto com a sombra e o mundo da escuridão. Não se alcança a iluminação imaginando-se figuras de luz, mas tornando a escuridão consciente.

Carl Jung

05 agosto, 2008

O quase

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luis Fernando Veríssimo

01 agosto, 2008

Aprendendo com quem menos se espera

Nossos tempos são complicados. Imitando o presidente Lula, nunca antes na história desse país vimos um crescimento numérico tão expressivo da igreja evangélica. Ao mesmo tempo, nunca antes na história desse país vimos tanta iniqüidade junta. Muito crente, pouco sal fora do saleiro, pouca luz iluminando a escuridão.

Prova disso é a falta de uma discussão positiva com bases cristãs a respeito do movimento gay. Algo que saia fora do já conhecido “homossexualismo é pecado”. Ainda que biblicamente correto, o que isso quer dizer para o homem pós-moderno do século 21? E como nos desvencilhar do cunho moralista que o conceito “pecado” recebeu, retornando ao seu conceito teológico original? Não podemos fechar os olhos: é um movimento que cresce a cada dia, avança sobre todos os espaços, inclusive eclesiásticos, e é politicamente incorreto apontar suas falhas – apesar deles apontarem as falhas alheias a todo momento.

Mas, ainda que o homossexualismo seja pecado (assim como o é a homofobia e também a heterofobia), será que dá para aprendermos lições positivas com o movimento gay? Será que o princípio bíblico de 1 Ts 5.21 (examinar tudo, reter o que é bom) também se aplica aqui? Creio que sim. O risco maior que corremos é encontrarmos coisas positivas que deveríamos encontrar em nossos arraiais, mas que estão em falta.

Por exemplo, o movimento gay é extremamente coeso. Mexeu com um deles, mexeu com todos. Prova disso são as manifestações promovidas por associações gays quando ocorrem crimes contra homossexuais. Eles podem até mesmo nem conhecer pessoalmente a vítima, mas o que importa, na visão deles, é que um do grupo foi atacado, portanto todo o grupo sofre.

Outra coisa que podemos aprender deles é a militância. Estão sempre nos jornais, revistas, TV, rádio, internet, propagando seus valores de uma sexualidade distorcida. Sempre apregoam o seu modo de vida, apresentado por eles como uma alternativa de vida válida para o nosso tempo.

E o que dizer da identificação deles? Estão sempre estimulando os gays “em potencial” a, na gíria deles, “saírem do armário”, ou seja, a se assumirem como gays. Colocam a cara para fora, não se importando se os que estão à volta vão reprová-lo, pois entende que sua essência é assim; não dá para mudar.

Coesão. Militância. Identificação. Coisas que também são caras a nós, cristãos. Mas, onde está a nossa coesão? Como podemos falar em unidade quando o irmão que sofre ao meu lado, por pensar de modo diferente certas nuances teológicas secundárias, é jogado às traças? Como podemos falar em militância quando nossas igrejas gastam milhões em reformas de templos cada vez mais suntuosos, e gastam (quando gastam) das sobras em missões? Como falar em identidade quando não sabemos mais se somos protestantes, neo-medievais ou pós-evangélicos?

Obviamente há exceções, os 7 mil salvos da idolatria a Baal. Contudo onde há exceção, há a confirmação da regra. Poderíamos apresentar o evangelho ao movimento gay, mas (sempre tem um incômodo “mas”) qual deles? O da prosperidade, o do Reino, o dos sinais e maravilhas (nem tão maravilhosos assim), o das novas “unções” (o último do mercado sobrenatural é o dos quatro seres viventes), o do Leão (que não seja o do Imposto de Renda!)?

Quando o movimento gay tem aspectos positivos caros a nós, mas que não estão presentes no movimento evangélico, é hora de se parar e refletir. Será que é isso o que Jesus quer de seu povo? Não será hora de um tempo de arrependimento, perdão e reconciliação com o próximo e com Deus?


Rodrigo de Lima Ferreira, casado, duas filhas, é pastor da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil desde 1997. Graduado em teologia e mestre em missões urbanas pela FTSA, hoje pastoreia a IPI de Serranópolis, GO.

31 julho, 2008

A Teologia da Ternura

O Deus da revelação cristã... rende quase invisível sua transcendência: se revela ocultando-se, e se oferece como um Deus de piedade e dileção, em uma forma tão humana a ponto de assumir em si a 'carne' do mundo.

Belém e Nazaré representam, deste ponto de vista, uma novidade absoluta na história do auto-revelar-se de Deus à humanidade. Um evento de graça cuja única razão é o amor de benevolência.

Da sua parte, a cruz proclama que a última palavra de Deus não é uma palavra de condenação, mas de 'com-paixão', de amor gratuito que salva; é esta a palavra que inaugura o tempo da Igreja e expressa sua forma; é dessa que brota a ternura dos cristãos, a qual os transforma - por graça - 'memória inquieta' e 'profecia viva' de um modo novo de conceber a vida, liberando-os das lógicas do poder e do domínio e colocando-os naquelas da gratuidade e do serviço.

Se fiéis 'ao escândalo da cruz' (Gl 5.11), os cristãos são como 'estrangeiros' e 'sem-terra' entre os povos. Sua identidade não é compreensível senão como configuração ao seu Senhor crucificado e como testemunha viva da ternura de Deus para com os últimos, os abandonados e os excluídos.

Carlo Roccochetta - em "Teologia da Ternura - um evangelho a descobrir" - Editora Paulus, p. 285.

26 julho, 2008

Combater a pobreza ou combater o casamento gay?

Por que o crente é tão obcecado com questões ligadas à moralidade sexual? Há tantas coisas relevantes que poderiam ser usadas como bandeira da cristandade, há tantas questões urgentes — combate à pobreza, defesa do meio-ambiente etc — , e os cristãos, em geral, ficam o tempo todo combatendo o casamento gay, o aborto, o divórcio. De onde vem essa obsessão?

Não só no Brasil, mas entre os cristãos em todo o mundo, esse é um debate importante. Jim Wallis, um ativista cristão entrevistado na edição de maio da ChristianityToday, garante que as questões sociais são muito mais importantes do que as preocupações provincianas da maioria da cristandade. Não há como comparar essa idéia fixa de se ocupar da moralidade sexual com a seriedade do combate à pobreza. A pobreza está para o nosso século como a escravidão para o século 18, sustenta Wallis.

A tese é sedutora. Especialmente porque já chega com a garantia da aprovação geral. Quem é contra o combate à pobreza? Num campus universitário não é difícil imaginar qual bandeira teria trânsito mais fácil.

Contudo, há um problema. Paulo escreveu a Timóteo que a igreja é a trincheira da verdade (1Tm 3.15). Cabe aos cristãos a defesa firme daqueles valores que representam o evangelho e que estão sendo assaltados pela cultura secular. Para não se conformar à pressão cultural do seu tempo, isto é, do seu século, a igreja deve afirmar com maior veemência justamente aqueles princípios que estão sendo negados pelo mundo. Isso corresponde ao que alguns pensadores cristãos chamam de mandato cultural da igreja.

É óbvio que os cristãos devem ter uma preocupação social. Essa é uma verdade trivial que não tem a menor necessidade de ser enunciada. Mas não é neste ponto que a igreja sofre um ataque virulento (talvez o mais grave da sua história no campo das idéias). Na questão da pobreza, o mundo e a igreja estão de acordo e não há disputa alguma. A esse respeito não há bandeira a se levantar e o que se deve fazer é arregaçar as mangas. Agora, no que diz respeito aos valores da família, da moralidade sexual e da defesa da vida, é gravíssima a pressão cultural que sofremos e é aqui que devemos centrar as nossas forças intelectuais.

A tarefa evidentemente não é fácil, justamente porque a impopularidade desses valores é crescente. Quem ousar sair em defesa dos princípios judaico-cristãos em relação ao casamento e ao aborto, por exemplo, terá de conviver com rótulos que preferimos evitar. Não há nada mais desagradável para um ser pensante do que ser taxado de fundamentalista ou reacionário.

Apesar disso, não será essa pressão que nos autorizará a focar nossas energias para defender apenas aquelas teses que são simpáticas aos olhos do século atual. A defesa das nossas convicções tem um preço — por vezes muito alto. Conta a história que, no século 16, Henrique VIII — para poder divorciar-se em paz e se casar com Ana Bolena — resolveu tornar-se o chefe da igreja da Inglaterra. Encontrou, porém, firme oposição do seu Lord Chanceler, o católico Thomas More. More foi preso e corria risco de vida por sua obstinação, razão por que sua filha resolveu visitá-lo para demovê-lo. Após alertá-lo para o fato de que suas idéias poderiam literalmente lhe valer a cabeça, fez questão de lembrá-lo que muitos nobres, ilustres como ele, haviam renunciado às suas convicções e aceitado a posição do rei. Thomas More foi lacônico: “Não carrego minha consciência à custa dos outros”.

A cristandade vive um momento crítico, rigorosamente uma encruzilhada. Resta saber se nos acomodaremos àquilo que o mundo pensa ser relevante, ou se aceitaremos a missão que Paulo passou ao seu dileto discípulo: de posicionar firmemente a igreja como a última barricada da verdade.

João Heliofar de Jesus Villar, 45, é procurador regional da República da 4ª Região (no Rio Grande do Sul) e cristão evangélico.

19 julho, 2008

Lindo Nome

Ó Vós que sois!

O Eclesiástico vos chama de Onipotência; os Macabeus, de Criador; a Epístola aos Efésios, de Liberdade; Baruc, de Imensidade; os Salmos, de Sabedoria e Verdade; João, de Luz; os Reis, vos chamam de Senhor; o Êxodo, de Providência; o Levítico, de Santidade; Esdras, de Justiça; a criação vos chama de Deus; o homem, de Pai; mas Salomão diz que sois Misericórdia, e é este o mais belo de todos os vossos nomes.

Victor Hugo em "Os miseráveis"

19 junho, 2008

Dá a Ele ou Dá Nele?

Jesus ensinou que a quem tem a esse se lhe dará ainda mais, pois, algo [corpo ou qualquer forma de existência] sempre exerce força de atração ou é atraído por outro algo equivalente ou de natureza semelhante.

Ora, tal princípio vai das essências de todas as formas de existência, passando em nossa dimensão pelas partículas subatômicas, construindo o átomo, os corpos, as massas, as energias, indo às estrelas, galáxias e mundos diversos.

Isto também tem seus correspondentes no chão da terra em todas as dimensões do que chamamos existência humana.

Sim! O belo chama o belo, o poderoso atrai mais poderosos, as inteligências magnetizam outras inteligências; assim como dinheiro chama dinheiro, pobreza clama por miséria, alegria convoca bom humor, e tristeza faz seres tristes gravitarem em torno de nós.

Por isto também é que se pode observar o seguinte fenômeno geral:

Uma pessoa vem e nos narra que todas as coisas boas lhe estão acontecendo em cadeia. E, por tal razão, ela está feliz. Anos depois, se tanto, algo se desequilibra na mente daquela pessoa, ou em suas emoções e afetos, e, então, coisas são mudadas, e, a mesma pessoa começa a ver que tudo passa a se desconstruir em cadeia, e de modo súbito, como um prédio que levou anos para ser construído, mas que cai do dia para a noite ou em meros instantes.

O segredo, segundo Jesus, é manter o coração amante do amor e da fé, pois, tragédias acontecem a todos, e, acidentes, são possibilidades na existência de qualquer um. No entanto, aquele que se mantém em fé e amor, esse sempre terá as bases fundamentais do poder que atrai tudo que é bom, pois, amor atrai bondade, alegria, paz, justiça, verdade, e fé em tudo o que Deus chama vida.

Ora, aquilo que é, segundo Jesus, é coisa que os olhos não vêem como objeto de toque dos sentidos, mas sim é coisa que não se vê, e que é pertinentes à fé e ao amor.

Isto não significa que o mal não visite aquele que carrega tais tesouros invisíveis, mas sim que aquele que tem em seu cerne o poder de gravidade e de magnetismo do amor, esse sempre terá poder para continuar, e, além disso, pela sua natureza, sempre atrairá mais realidades da mesma natureza da dele para junto de si mesmo.

Assim, a quem tem algo bom, coisas boas começarão a ser atraídas por aquele poder “magnético”. Mas aquele que carrega nada, ou o que é mal, a esse até o que pensa ter lhe será tirado, posto que esteja carregando o anti-ser, e, desse modo, atrairá somente aquilo que não é, ficando preso ao ciclo do nada e do vazio.

Pense nisto!

Nele, que é

Caio Fábio

18 junho, 2008

Entre "Leões e Cordeiros"

Esta mensagem até poderia ter partido de um dos milhares de púlpitos cristãos espalhados pelo mundo, tanto pelo teor apocalíptico quanto pelo tom retórico e desafiador. Afinal, é, a meu ver, o tipo de exortação mais afinado com os propósitos do evangelho: uma tomada de consciência pessoal que se revela em um movimento para fora, em direção à coletividade. O compromisso de negar-se e voltar-se para o outro.

No entanto, talvez para minha vergonha (e/ou para vergonha de muitos), não ouvi a frase que me cativou os sentidos em púlpitos ou sermões televisivos. Tampouco a li em livros. Trata-se do ponto chave de um filme, reconhecidamente um produto da indústria cultural, pleno de paradoxos e intrinsecamente ambíguo.

O filme em questão é o recém lançado “Leões e Cordeiros” (Lions for Lambs, Estados Unidos, 2007), dirigido pelo já septuagenário Robert Redford e estrelado por Meryl Streep, Tom Cruise e pelo próprio diretor. O tema central é a guerra ao terror perpetrada pelo governo dos Estados Unidos. A trama se divide em três narrativas inter-relacionadas: em Washington, uma jornalista (Streep) entrevista um jovem senador republicano (Cruise) cotado como sucessor de George W. Bush; em uma universidade da Califórnia, um professor idealista (Redford) tenta convencer um estudante (o estreante Andrew Garfield) a direcionar seu potencial para causas mais nobres; no Afeganistão, dois soldados (Michael Penã e Derek Luke) lutam pela vida após uma tentativa frustrada de conquistar uma montanha infestada de talebãs.

Os soldados são o fio condutor da estória. Ex-alunos e discípulos “espirituais” de Redford, eles são parte de um esquadrão enviado em uma missão suicida por conta de uma nova estratégia de guerra elaborada pelo jovem senador. Este tenta convencer a jornalista a noticiar o fato como o golpe derradeiro sobre o terrorismo, apesar das desconfianças e do ceticismo dela. A decisão da jornalista é crucial para a decisão do estudante. E assim o ciclo se encerra. Ou quase isso.

“Leões e Cordeiros” não se reduz ao mero entretenimento. Antes, desafia. Não é uma obra memorável no que diz respeito à técnica cinematográfica — poderia muito bem ter sido produzido para a TV. As imagens até auxiliam, mas não dizem lá muita coisa. São as palavras que incomodam. São elas que nos fazem pensar.

Mais do que desferir um golpe certeiro no governo reacionário de Bush, o filme tenta revolver as próprias entranhas do nosso modus vivendi ocidental, embebido em um pragmatismo simplista, um idealismo hipócrita e um pseudo-cristianismo. O filme perscruta os valores e as motivações que movem e alimentam a nossa sociedade e apresenta o resultado de sua análise: somos seres cauterizados, movidos por necessidades que julgamos essenciais e imprescindíveis, mesmo quando não o são. Vivemos em uma sociedade em que reina um tipo de ideologia de classe-média cujo veneno nos entorpece. Buscamos o sucesso financeiro, o consumo desenfreado, o status e o ócio. Não temos tempo para valores do espírito. Não temos, e por vezes nem queremos, esforço de tipo algum. Não queremos agir. Não temos uma missão.

O filme de Redford, tratando de questões específicas da experiência norte-americana, fala do todo, das mais variadas esferas da existência contemporânea. O filme expõe as conseqüências do individualismo moderno e retoma a discussão a respeito do consumismo. Ele atualiza para a ficção a perspectiva que já vinha sendo tratada de forma magistral pelo documentarista Michael Moore (“Tiros em Columbine”, “Roger e Eu”, “Fahrenheit 11/9”). Para Redford, o problema da sociedade atual está intimamente relacionado com o consumismo. E este ponto o filme aborda muito bem. O objetivo da sociedade como um todo seria o de consumir, e consumir cada vez mais. Nossa política, nossa economia e nossa ideologia estariam voltadas tão somente para a satisfação desta necessidade voraz. Despertando o nosso consumismo, nos tornaríamos seres inertes (algo como dar muita comida para uma pessoa já obesa e assim evitar que ela tenha forças para se mover com liberdade). Certamente, esta é uma percepção interessante.

Desde o universitário que se torna descrente e se entrega à curtição, até a jornalista que reluta em denunciar e ir contra a maré, com medo de perder uma carreira de sucesso e tranqüilidade, são as motivações que, definindo a ação, engendram o problema e subvertem a ética. Para o filme, o consumismo entorpece. E se entorpece, gera letargia. E se gera letargia, aniquila a ação e extermina o esforço. E sem esforço, não pode haver vida.

Por se tratar de um filme mais panfletário do que propriamente analítico, “Leões e Cordeiros” nos propõe como solução um retorno à ação, à valorização do esforço, à tentativa de gerar e fortalecer a esperança. Que cada leitor assista ao filme e tire suas próprias conclusões. Mas que as tire. Que se envolva. Que reflita. Em suma, que se esforce.


Eugenio Petraconi é jornalista e membro da Igreja Batista da Redenção, em Belo Horizonte, MG. www.petraconi.com

14 junho, 2008

A terapia contra a inveja

Quem se alegra com os que se alegram e chora com os que choram, esse é próprio em tudo o que faz, pois, pelo amor, abraçou a realidade; e o fez sem medo, sem inveja, sem amargura, sem rancor, e sem competição. Somente o amor verdadeiro produz essa segurança para ser.

Há pessoas que são capazes de chorar com os que choram, mas não são capazes de se alegrar com os que se alegram. No entanto, para todo aquele que se alegra com a alegria que a outros visitou, o chorar com os que choram é natural.

E por que quem é capaz de se alegrar com a bondade que sobre outros pousou como alegria é também capaz de chorar com os que choram, sendo que o oposto—chorar com os que choram—não necessariamente faz a pessoa ser capaz de se alegrar com os que se alegram?

Ora, é que é mais fácil para os inseguros serem humanos e amigos na tristeza dos outros—realidade que a todos nivela nesta existência—, do que na alegria desses, posto que a tristeza é algo de que todos têm farta experiência nesta vida, mas da alegria verdadeira poucos têm experiência. Assim, chorar com os que choram é mais fácil para qualquer um do que se alegrar com os que se alegram, visto que chorar com os que choram é identificar-se com o que é certo (o sofrimento), mas se alegrar com os que se alegram é ter a capacidade de celebrar o raro, o inusitado e o que não é natural neste mundo de dores.

Todo aquele que é capaz de se alegrar com os que se alegram é também capaz de chorar com os que choram, porém, nem todo aquele que é capaz de chorar com os que choram é também capaz de se alegrar com os que se alegram.

Afinal, quem terá inveja da dor dos doídos? Mas da alegria dos alegres muitos têm grande inveja!

Assim, se você deseja desenvolver boas coisas dentro de você, aprenda a alegrar-se de coração com os se alegram, e, assim, você ficará livre de toda inveja.

Há, todavia, aqueles que “amam” você quando você está sofrendo, e que o “odeiam” quando você está feliz.

Ora, todo aquele que assim sente, é um invejoso em estado de luta permanente contra a sua inveja; daí viver em conflito, e de tal modo, que chorar com os que choram é a dádiva de um certo “melhor do seu coração”; e que acontece, inconscientemente, como camuflagem da inveja que o impossibilita de se alegrar com os que se alegram.

Para o invejoso, mais difícil do que suportar todas as coisas, todos os sofrimentos e todas as privações da vida, é agüentar ver a bondade da graça de Deus se manifestar como alegria no coração de alguém que não seja o dele.

O invejoso é capaz de se vestir de solidariedade quando vê o sofrimento; afinal, para ele, o ser solidário na dor é uma virtude de afirmação sua. No entanto, se alegrar com os que se alegram é uma afirmação feliz acerca da bondade de Deus sobre um outro. E disso somente os que não têm inveja no coração são capazes.

Assim, conforme se vê, a inveja é uma merda, e sábio é todo aquele que de seu próprio coração varre toda inveja para sempre. Mas para que isto aconteça é preciso que a pessoa aprenda a se alegrar em ser quem é, pois, somente assim ela não terá inveja da felicidade de ninguém.

Pense nisto!

Cáio Fábio

14 maio, 2008

O "Jesus" que Jesus não conhece

Todos os dias encontro pessoas que vivem como bem entendem, mas desejam assim mesmo as bênçãos do Evangelho.

O ardil é simples:
A pessoa não lê a Palavra [exceto em reuniões públicas e a fim de basear o discurso de algum pregador], não conhece Jesus [exceto como nome poderoso nas bocas dos faladores de Deus], não ora [exceto dando gritos de apoio às orações coletivas], não pratica a Palavra [exceto a palavra do profeta do grupo, ou do bispo ou autoridade religiosa da prosperidade ou da maldição], não se compromete com o Evangelho [exceto como dízimo e dinheiro no “Banco de Deus”: a “igreja”]; e, de Jesus, nada sabe; pois, de fato, nada Dele experimenta [exceto como medo].

Entretanto, a pessoa fica pensando que o Evangelho que ela nem sabe o que é haverá de abençoá-la em razão de que ela está sempre no “endereço de Deus”: o templo da “igreja”.

Assim, vivem como pagãos em nome “de um certo Jesus” que não é Jesus conforme o Evangelho; e, mesmo assim, seguem “um evangelho” que não é Evangelho, para, então, depois de um tempo, acharem que o Evangelho não tem poder, posto que acham que já o provaram e de nada adiantou; sem saberem que de fato deram suas vidas a uma miragem, a um estelionato, a uma fantasia de “Deus”.

Milhões pronunciam o nome de Jesus, mas poucos o conhecem numa relação pessoal!

Na realidade o que vejo são pessoas estudando teologia sem conhecerem a Deus; entregando-se ao ministério sem experiência do amor de Deus em si mesmas; brigando pela “igreja” [como grupo de afinidades] sem amarem o Corpo de Cristo em seu real significado; pregando “a mensagem da visão da igreja” julgando que tem algo a ver com a Palavra de Jesus [apenas porque o nome “Jesus” recheia os discursos].

E mais: os que aparentemente sabem o que é o Evangelho e quais são as suas implicações, ou não querem as implicações para as suas vidas pessoais, ou, em outras ocasiões, não querem a sua pratica em razão de que ela acabaria com o “poder” de bruxos que exercem sobre o povo.

Assim, vão se enganando enquanto enganam!

O final é trágico: vivem sem Deus e ensinam as pessoas a viverem na mesma aridez sem Deus na vida!

O amor à Bíblia como livro mágico acabou com o amor à Palavra como espírito e vida!

Não se lê mais a Palavra. As pessoas levam a Bíblia aos “cultos” apenas para figurar na coreografia e na cenografia da reunião — nada mais!

Oração em casa, sozinho, com a porta fechada, e como algo do amor e da intimidade com Deus, quase mais ninguém pratica!

Ora, enquanto as pessoas não voltarem a ler a Palavra, especialmente o Novo Testamento, jamais crescerão em entendimento e jamais provarão o beneficio do Evangelho como Boa Nova em suas vidas.

Há até os que depois de um tempo julgam que o Evangelho é fracassado em razão da “igreja” estar fracassada.

Para tais pessoas a “igreja” não é apenas a “representante de Deus”, mas, também, é o próprio Evangelho!

Que tragédia: um Deus que se faz representar pelo coletivo da doença do “Cristianismo” e que tem “igreja” a encarnação de um evangelho que é a própria negação do ensino de Jesus!

O que esperar como bem para tal povo?

Ora, se não tiverem o entendimento aberto, o que lhes aguarda é apenas frustração, tristeza e profundo cinismo.

Quem puder entender o que aqui digo, faço-o para o seu próprio bem!

Nele, que não é quem dizem que Ele é,

Caio Fábio

29 abril, 2008

Esses cristãos reflexivos

A diferença sempre foi vista com curiosidade ou estranheza. A cor de sua pele, por exemplo, pode tornar você um estranho em alguns cenários. Já seu poder aquisitivo ou sua educação têm a capacidade de fazer com que se destaque em determinados ambientes. Até mesmo seu estilo de adoração, a linha teológica que você adota ou sua preferência por algum partido político podem colocá-lo à margem – ou para além dela – em certos casos. A verdade é que ser, pensar, olhar ou agir de modo diferente da maioria pode empurrar determinado indivíduo para fora dos círculos sociais e religiosos.

Fato é que, nas nossas igrejas, sempre há uma pessoa, ou um grupo, que na maioria das vezes se sente diferente da maioria – e gente assim quase sempre é marginalizada. Dan Taylor, em The Myth of Certainty [O mito da certeza], chama essas pessoas de “cristãos reflexivos”. Os menos solidários classificam-nas como questionadoras da fé; e, muitas vezes, suas atitudes de inconformismo fazem com que se tornem desrespeitados em suas comunidades.

Como quase todos os protestantes sabem, no século 16 a Igreja Católica Apostólica Romana estava empolgada acerca da emissão das famigeradas indulgências. Elas eram alardeadas pelo clero como maneiras de reduzir o tempo das pessoas no purgatório através da doação de dinheiro ou bens à Igreja. Mas apesar da generalização de tal prática, muitas pessoas não se contiveram e questionaram o programa de indulgência proposto pelas autoridades eclesiásticas. Elas duvidaram do que a instituição sustentava com tamanha convicção, simplesmente porque aquilo não fazia sentido para esses cristãos questionadores. Se permanecessem em silêncio, iriam se sentir desonestos e frustrados; contudo, se levantassem suas questões, seriam vistos com desconfiança. Alguns desses questionadores, como Martinho Lutero se manifestaram e descobriram que cristãos reflexivos, já àquela altura, não tinham futuro na Igreja.

Aproximadamente cem anos mais tarde, Galileu Galilei olhou através de um telescópio certa noite e viu luas posicionadas como bailarinas em órbita de Júpiter. Logo percebeu que a Igreja estava errada ao sustentar a visão de mundo tradicional, geocêntrica, que havia herdado de Aristóteles e Ptolomeu. Infelizmente, quando passou a questionar abertamente a corrente majoritária, ele descobriu aquilo que Martinho Lutero já sentira na pele: cristãos reflexivos não eram bem-vindos à Igreja.

Uma história semelhante poderia ser contada acerca do célebre evangelista John Wesley, que duvidava daquilo que todos sabiam: que atividades sagradas, como a pregação, precisavam ser desenvolvidas em espaços sagrados, como púlpitos. Por discordar disso, ele foi à porta das minas de carvão do Reino Unido anunciar a salvação em Jesus a trabalhadores que não freqüentavam os templos. Poderíamos falar ainda de crentes reflexivos como Phineas Bresee, fundador dos Nazarenos, que duvidou que pessoas pobres devessem ser evitadas por cristãos honrados. E o que dizer de Menno Simons, o líder dos anabatistas, que discordava da voz corrente de que cristãos deveriam matar outros cristãos em nome de Cristo?

Questionadores contemporâneos, como o pastor Martin Luther King Jr e o bispo Desmond Tutu, duvidaram que a raça fosse um fator de comunhão, e enfrentaram forte oposição por isso. Já líderes como Bill Hybels ou Rick Warren, com suas propostas de uma nova eclesiologia, ou talvez você, com suas idéias ainda não devidamente expostas, também tendem a provocar certo desconforto devido a suas posturas... Os heróis que estudamos na história da Igreja começaram como cristãos reflexivos que duvidaram daquilo que todos consideravam ser o óbvio. Como conseqüência foram, em quase todos os casos, marginalizados. Quando comunidades habitualmente marginalizam ou excluem seus membros mais reflexivos – aqueles que fazem perguntas difíceis sobre coisas que são completamente basilares para a maioria –, é claro que os que são estigmatizados acabam feridos.

A comunidade que exclui, no entanto, também é ferida, porque ao agir assim corta da própria pele recursos de crescimento e de renovação. Além disso, constrói resistências exatamente para aquilo que em breve será necessário, o que deixa no ar uma pergunta urgente: quem são os cristãos reflexivos, que talvez sintam que já estão com a camada de gelo bem fina nas margens, ou seja, prestes a serem marginalizados por completo? E o que seria necessário para dizer-lhes que eles são queridos, necessários e respeitados, que a sua diferença não é um problema a ser resolvido por meio da pressão para que se amoldem, mas que sua atitude questionadora é um recurso?

Aqui vai uma sugestão: que esses cristãos reflexivos sejam ouvidos! Tentemos entender suas perguntas, frustrações e novas idéias, mesmo que não concordemos com suas inquietações. Sejamos atenciosos, dando-lhes espaço para serem quem são, mesmo se pensam diferente da maioria. Às vezes, talvez seja preciso se posicionar entre eles e seus críticos mais contundentes a fim de defendê-los das forças que mantêm as fronteiras e promovem a exclusão. Um coração bondoso e um ouvido disposto a escutar podem manter os cristãos reflexivos dentro da comunidade – e, se a renovação vier das margens, como quase sempre parece ser o caso, então, ao amputarmos essas nossas margens, fazemos aquilo que os chefes dos sacerdotes e escribas fizeram quando uma voz necessária apareceu às margens de sua comunidade. Será que estamos escutando seu clamor?

Brian MaClaren

09 abril, 2008

Um engenheiro e sua fé

Durante a adolescência aceitei o amor de Deus e suas conseqüências para minha vida pessoal. Por isto, como bom aluno de matemática e ciências naturais não compreendia o pretenso conflito entre fé cristã e as ciências, tão propalado por alguns dos meus professores. Décadas depois, já engenheiro, vim saber que pelo menos oito dos cientistas homenageados no SI (sistema internacional de unidades) foram cristãos convictos: Newton, Kelvin, Ampère, Faraday, Henry, Volta, Joule e Pascal. Todos eles eram mencionados constantemente em aula, mas não sua fé, escondida pelos professores ou talvez desconhecida por eles, mas entendida por cada um dos oito como tendo relevância fundamental. Assim ignorava o que sei hoje, que para o profissional cristão da área de ciências naturais e exatas Hb 12.1,2 vale literalmente num duplo sentido: "Portanto, também nós, uma vez que estamos rodeados por tão grande nuvem de testemunhas, livremo-nos de tudo o que nos atrapalha e do pecado que nos envolve, e corramos com perseverança a corrida que nos é proposta, tendo os olhos fitos em Jesus, autor e consumador da nossa fé" (NVI).

Durante a adolescência a "nuvem" daqueles oito cristãos estava ali, mas eu não sabia. Mais tarde vim a conhecer detalhes de suas biografias e de outros, alguns ainda maiores do que os oito, como James Maxwell, Max Planck e Wernher von Braun. Hoje minha fé co-define a perspectiva que tenho da profissão. A profissão do cristão é uma ferramenta de testemunho e inserção na sociedade, mas, pelo menos no caso das profissões tecnológicas, há mais do que isto. No primeiro capítulo de Gênesis, o livro denominado pelo teólogo suíço Emil Brunner de "Magna Charta da técnica"1, Deus ordena aos homens: "Enchei a terra e sujeitai-a". Isto acontece com tecnologia em combinação com princípios adequados, bíblicos. É também a tecnologia que proporciona mais tempo às pessoas para atividades recreativas e culturais, especialmente a artística. Na Bíblia lemos outras passagens impressionantes com significado especial para o engenheiro. A história da torre de Babel, por exemplo, nos alerta para o perigo da auto-suficiência e da glorificação do homem de forma geral, mas de modo especial na atividade técnica. Um outro exemplo, a história de Noé, revela como Deus usou um artefato de engenharia (no caso a arca) para avançar seu plano com a humanidade. Os livros de Reis narram episódios que alertam para o perigo da confiança exagerada na técnica em detrimento da fé. Além de mensagens específicas como estas, a Bíblia fornece princípios de liderança e um fundamento consistente para a ética profissional. A profissão do engenheiro possui, pois, sua dimensão especial, à qual o cristão e engenheiro Herbert Hoover, trigésimo primeiro presidente dos EUA, se referiu dizendo que "ao engenheiro cabe a tarefa de vestir os ossos da ciência de vida, conforto e esperança".2

É neste último quesito, a esperança, que o engenheiro cristão tem a oportunidade de tornar-se de fato um profissional integral, pois devemos estar sempre preparados para responder a todo aquele que nos pedir a razão da esperança que há em nós (1 Pe 3.15). Nisto, dentre muitos outros, Augustin Louis Cauchy, matemático e físico, foi-nos um exemplo: "Sou um cristão, isto significa: creio na divindade de Jesus Cristo juntamente com Tycho Brahe, Copérnico, Descartes, Newton, Fermat, Leibniz, Pascal, Grimaldi, Euler, Guldin, Boscowitsch, Gerdil, com todos os grandes astrônomos, todos os grandes pesquisadores das ciências naturais, todos os grandes matemáticos dos séculos passados. E se porventura me perguntarem pela razão, terei prazer em explicá-la. Verão que minha convicção é resultado de estudo cuidadoso e não de preconceitos".3 Cauchy estava disposto e preparado a compartilhar sua fé em pontos práticos e inteligíveis, uma fé alicerçada em fatos: o nascimento de Jesus, seu ministério na Palestina, sua morte e ressurreição, fatos testemunhados, registrados, anotados. Tal fé dá-nos perspectiva, confiança e esperança, pois "é pela fé que entendemos que o Universo foi criado pela palavra de Deus ... Foi pela fé que as pessoas do passado conseguiram a aprovação de Deus... Pela fé eles lutaram contra nações inteiras e venceram. Fizeram o que era certo e receberam o que Deus lhes havia prometido. Apagaram incêndios terríveis e escaparam de serem mortos à espada. Eram fracos, mas se tornaram fortes." ( trechos de Hebreus 11)

Hoje, decorridos quase 35 anos de fé pessoal e 25 anos de engenharia, sou grato a Deus por esta profissão especial e pela oportunidade de participar do desafio de, também na e com minha profissão, "batalhar pela fé que de uma vez por todas foi entregue aos santos." (Jd 3)

Notas
1 O termo foi cunhado por Emil Brunner em sua preleção por ocasião do jubileu da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH Zürich).
2 Herbert Hoover - The Memoirs of Herbert Hoover: Years of Adventure, Macmillan, 1951.
3 Citado conforme J. Gutzwiller - Das Herz, etwas zu wagen, Friedrich Bahn Verlag, 2000.

Karl Heinz Kienitz é doutor em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. www.freewebs.com/kienitz

02 abril, 2008

E conhecereis a verdade, e ela vos libertará

Só se experimenta a verdade como exercício de uma vida que caminha em crescente liberdade,e que sempre acontece como risco, até mesmo o risco de conhecer a verdade quando ela desmascara o nosso próprio engano na vida mostrando que nossa liberdade ainda é disfarce da escravidão.

A verdade liberta, mas é a liberdade que provoca o crescimento da verdade na vida.

Sem liberdade a verdade é no máximo uma aula de anatomia; o corpo, porém, estará morto. Pois assim como a fé sem obras é morta, também a verdade sem liberdade é apenas a presunção das doutrinas.

Os pregadores da verdade, em geral nada sabem sobre ela, visto que se é a verdade que produz a liberdade, é também a liberdade que faz a verdade ser vida. E ninguém conhece a verdade sem ser na vida, e nas entranhas da experiência do existir e em meio a todas as contradições. Por isto, conhecer a verdade sempre dói, e muito. De fato, esgarça você completamente. E como os pregadores da verdade não querem ser esgarçados, falam do que não conhecem.

É na existência que se conhece a verdade não como um reconhecimento dela no intelecto, mas nas vísceras do ser.

Pregadores da verdade que não a conhecem como liberdade, continuam escravos de todo pecado, especialmente do pecado de afirmar conhecerem aquilo que nunca provaram, visto que nunca correram riscos como experiência da liberdade. Pois a verdade tem na liberdade como vida seu principal produto existencial, e sua única prova experimental.

Gente presa ao medo de existir jamais conhecerá a verdade, visto que a verdade acontece como risco, como vertigem da liberdade, e como conseqüência da pessoa se haver entregue à vida, à existência, e sem medo de ser, e muito menos de se assustar com a própria face desmascarada pela luz do que é.

Se a verdade não se instalar no interior mais profundo do ser, o que ela produz não é liberdade, mas ansiedade e ambigüidade crescente.

E quando falo de verdade, certamente não falo de doutrinas, mas de uma certeza que não precisa ser explicada. A verdade, para o homem, é existencialidade.

Daí aqueles que conhecem a verdade jamais poderem fazer discursos de persuasão acerca dela. A verdadeira persuasão da verdade é a ação libertadora que ela provoca no ser, mesmo quando o dilacera. Por isso, quem foi alvejado e rasgado por ela, acerca dela não tem muitas palavras, mas tem coragem de ser por causa dela, e apesar dela.

Não é a falta de bons conteúdos o que torna ridículo o discurso sobre a verdade, mas a falta de confiança em sua real promossa de libertação, e que só se expressa como tal se existir liberdade como expressão de vida na existência desse que diz conhecer a verdade.

É a ansiedade como expressão da existência aquilo que mais revela se a verdade entrou nas vísceras de um ser humano, ou se apenas o atingiu como "acordo intelectual", e não como aliança visceral.

A ansiedade se disfarça de ortodoxia e convicção, mas de fato nada mais é que insegurança acerca da verdade, visto que nenhuma verdade que não gere libertação do medo, não é ainda libertação, pois ainda não se tornou parte essencial do ser, e isto torna o “proclamador da verdade” um sacerdote da ansiedade e do medo. Daí ele precisar ser intolerante. Na religião ansiedade gera incerteza, e a incerteza produz a ortodoxia do medo.

Assim, quanto mais se fala acerca da verdade, mas se a nega, posto que o que proclama a verdade como discurso, nada mais faz que tentar salvar-se de sua própria incerteza.

É por essa razão que os religiosos são tão inseguros, e é por tal insegurança que são tão arbitrários. Gente da verdade não tem que provar nada, pois a vida em liberdade é a prova de sua própria convicção e fé.

Assim, para mim, os que fazem "apologia da verdade" são as pessoas mais inseguras, pois passam a vida tentando provar para outros justamente aquilo que constitui suas próprias incertezas e dúvidas. Daí o serem tão frágeis, e daí o serem tão ortodoxas, intolerantes e fanatizadas pela insegurança.

Gente da verdade nada tem a provar a ninguém, pois só teriam que provar alguma coisa se suas vidas não fossem a própria prova, e, por vezes, a contra-prova, ainda que em processo de rendição a ela.

A única coisa que prova que alguém conhece a verdade é a liberdade, pois quando se conhece a verdade na vida, ela nos liberta para a liberdade, ainda que seja a liberdade de errar a fim de conhecer a verdade como dor, para depois conhecê-la como paz.

Desse modo, eu digo: mostra-me a tua verdade com tuas doutrinas, e eu, sem nenhum doutrina, te mostrarei a verdade pela minha coragem de viver livre e apesar de mim.

Afinal, a Verdade não é nada além de Tudo. E esse tudo nada é se não Jesus.

Pense nisto!

Caio Fábio

Escrito em 4/06/04

22 março, 2008

Distinção...

"A distinção entre o puro e impuro não existe fora do homem, mas depende de você, das intenções do seu coração onde está a raiz das suas ações. Neste particular, não existe mais o apoio das muletas da lei. O homem terá que purificar o seu interior e tudo fora dele será puro igualmente (Lucas 11.41)".

(Leonardo Boff em Jesus Cristo Libertador).

18 março, 2008

Ciência e Fé são compatíveis

Nosso cotidiano é profundamente influenciado pela ciência. Percebemos isto ao atentar para o copo de água tratada que bebemos ou o telefone celular com o qual nos comunicamos. Mas a fé também tem profundo impacto em nossas vidas. Max Planck, pai da teoria quântica e ganhador do prêmio Nobel de Física de 1919, testemunha que “... desde a infância a fé firme e inabalável no Todo Poderoso e Todo Bondoso tem profundas raízes em mim. De certo seus caminhos não são nossos caminhos; mas a confiança nele nos ajuda a vencer as provações mais difíceis”.1 A importância da fé também foi reconhecida pelo pintor impressionista Auguste Renoir, que ao comentar certas obras de grandes pintores disse: “Nas obras de antigos mestres jaz uma confiança suave, serena. Ela provém duma conduta despretensiosa, simples, que não existiria sem a fé religiosa como motivo primeiro. O homem moderno, porém, enxotou Deus -- e assim perdeu segurança”.

O “enxotar Deus”, como Renoir o expressou, é motivo para propagar um falso conflito entre fé e ciência. Este falso conflito é contundentemente denunciado pelo sociólogo Rodney Stark, que com base em pesquisas sólidas demonstra a inverdade e o forte viés ideológico de afirmações como: “Fé religiosa é uma manifestação primitiva que desaparece com o a difusão da ciência e tecnologia”, “Religião é oriunda de ilusões e neuroses” ou “Religião é, genericamente, instrumento de manipulação2". Richard Feynman (prêmio Nobel de Física de 1965), embora não-cristão, concorda que “muitos cientistas crêem na ciência e em Deus, o Deus da revelação, de uma forma perfeitamente consistente.”

De fato pode-se citar muitos cientistas que consistentemente combina(ra)m uma fé bíblica com uma atividade científica de ponta. Por falta de espaço irei citar apenas mais três.

Primeiro, André Marie Ampère, cujo nome ficou para sempre associado à unidade de corrente elétrica, e que recomenda: “Estude as coisas deste mundo, é tua profissão; mas olha-as apenas com um olho e fita o outro permanentemente na luz eterna... Escreva apenas com uma mão; com a outra te segura na veste de Deus assim como uma criança se segura na veste de seu pai”.

Em segundo lugar, Louis Pasteur, o grande microbiólogo francês do século XIX, entendia a busca pela verdade na ciência e na fé como inter-relacionadas e afirmou: “Proclamo Jesus como filho de Deus em nome da ciência. Meu espírito científico, que dá grande valor à relação entre causa e efeito, compromete-me a reconhecer que, se ele não o fosse, eu não mais saberia quem ele é... Suas palavras são divinas, sua vida é divina, e foi dito com razão que existem equações morais assim como existem equações matemáticas”.

O terceiro seria Arthur L. Schawlow, prêmio Nobel de Física de 1981, que disse: “... eu encontro uma necessidade por Deus no universo e em minha própria vida... Somos afortunados em termos a Bíblia, e especialmente o Novo Testamento, que nos fala sobre Deus em termos humanos muito acessíveis, embora também nos deixe algumas coisas difíceis de entender”.

No Novo Testamento, que nos fala de Deus e de sua manifestação visível em Jesus Cristo, o apóstolo Pedro diz: “Não seguimos fábulas engenhosamente inventadas, quando lhes falamos a respeito do poder e da vinda de nosso Senhor Jesus Cristo; pelo contrário, nós fomos testemunhas oculares da sua majestade.” (2 Pe 1.16) Esta preocupação com a autenticidade e a verdade é comum a todos os textos da Bíblia e torna sua mensagem compatível com a ciência praticada por cientistas como Ampère, Pasteur e Schawlow.

Notas
1 As citações usadas neste artigo foram extraídas de J. Gutzwiller - Das Herz, etwas zu wagen, Friedrich Bahn Verlag, 2000 (ISBN 3761593031), exceto a citação de Feynman, que consta de H. Schaefer – Science and Christianity: Conflict or coherence? The Apollos Trust, 2003 (ISBN 097429750X), e a de Schawlow, proveniente de sua própria contribuição em H. Margenau; R.A. Varghese - Cosmos, bios, theos, Open Court, 1992 (ISBN 0812691865).
2 Dois artigos em que Rodney Stark e co-autores discutem este assunto são: R. Stark - “False conflict,” The American Enterprise, pp. 27 - 33, outubro/novembro de 2003; R. Stark; L. R. Iannaccone; R. Fink - “Religion, science and rationality,” American Economic Review, vol. 86, número 2, pp. 433-437, maio de 1996.


Karl Heinz Kienitz é doutor em Engenharia Elétrica pela Escola Politécnica Federal de Zurique, Suíça, em 1990, e professor da Divisão de Engenharia Eletrônica do Instituto Tecnológico de Aeronáutica. http://www.freewebs.com/kienitz

E Deus sabia...

Deus sabia que o ser humano iria cair. Por que, então, o criou?

Era uma vez quando nada tinha se passado e nem se passaria porque era a eternidade, e a eternidade é sempre e sempre é. O Deus eterno decidiu criar e tudo se fez da melhor maneira que podia se fazer. E o tempo começou.

Como falar da eternidade?

Deus criou-nos, apesar de saber de nossa escolha porque não há outro jeito de criar um ser livre.

Deus criou uma raça que iria escolher contra ele porque o seu amor não pode ser atingido pela frustração.

Deus criou porque assumiu sofrer o ônus cobrado pela justiça. A justiça cobrou o sacrifício de Deus. Foi aqui, no sacrifício, que a história começou.

Começou a história, cujo início é fruto da convulsão na eternidade. Deus teve, por decisão própria, de se sacrificar! A paz da eternidade foi quebrada na criação e restaurada no sacrifício. O que, na Eternidade, é imperceptível.

Essa dimensão da história, em que vivemos, nasce no sacrifício porque sem ele nada do que foi feito se fez.

Ariovaldo Ramos