24 novembro, 2008

A Doutrina dos Ciclos

Um dia, no futuro mais longínquo, daqui a bilhões de trilhões de épocas, eu voltarei a escrever esta sentença na frente deste computador; e com a mesma fatiga.

Não, não me refiro à re-encarnação ou ressurreição, mas à "doutrina do eterno retorno”. A doutrina que diz que tudo se re-encaixará em uma mesma engrenagem. E eu voltarei a ser eu, com o mesmo código genético, o mesmo nome. Vestirei, inclusive, a mesma camisa de malha; e vou reclamar do calor.

Mas isso vai acontecer lá na frente. Centilhões de eras depois que o sol apagar, a Via Láctea implodir e todo o universo se resumir a uma bola de bilhar. Acontecerá uma explosão seguida de um enorme “bang”; e vai começar tudo de novo.

Essa teoria maluca foi atribuída a Nietzsche, mas explicada, e, ao mesmo tempo, criticada por Jorge Luis Borges: “O número de todos os átomos que compõem o mundo é, embora desmedido, finito, e só capaz, como tal de um número finito (embora também desmedido) de permutações. Num tempo infinito, o número de permutações possíveis deve ser alcançado, e o universo tende se repetir. Novamente nascerás de um ventre, novamente crescerás teu esqueleto, novamente chegará a esta página às tuas mãos iguais, novamente percorrerás todas as horas até a de tua morte inacreditável”.

Simplificando: Quando alguém joga um dado muitas vezes, o número seis acaba se repetindo. Dessa forma, em algum ponto do infinito os átomos se combinarão, repetindo a realidade atual. As peças do gigantesco quebra-cabeça universal cairão no mesmo lugar e tudo voltará a ser igual ao que já foi. É meio maluco, mas teoricamente possível. Tão plausível que o Eclesiastes afirmou:

“O que foi tornará a ser, o que foi feito se fará novamente; não há nada de novo debaixo do sol. Haverá algo de que se possa dizer: ‘Veja! Isto é novo!’? Não! Já existiu há muito tempo, bem antes de nossa época” (1,9-10).

Portanto, o Eclesiastes intui que somos uma reconfiguração de uma realidade universal capaz de já ter acontecido; outros mundos iguais a este já teriam existido.

Que doidice! Com tal lógica, seria possível, inclusive, conjeturar que o cosmo já se arranjou com outras configurações. Os cromossomos de Hitler, em outro arranjo, não teriam sido perversos. Nero não teria incendiado Roma, mas se convertido ao cristianismo. Lutero poderia ter sido Papa. Nova Iorque, um dia, não teria passado de um campo de refugiados. Pinochet seria digno do Prêmio Nobel da Paz. Tom Jobim, sem ir ao happy-hour com Vinicius de Moraes, não teria composto a Garota de Ipanema.

Quem sabe os déjà vu não seriam resíduos dessa memória? E as “almas gêmeas”? Saudades de amores já vividos? Ora, se toda a probabilidade acaba se concretizando, o Eclesiastes insistiu: “Aquilo que é, já foi, e o que será, já foi anteriormente” (3.15).

Considero isso tudo um desvario. Talvez elucubrações de quem não tem o que fazer. Contudo, mesmo reconheçendo a plausibilidade teórica de que eu reviva uma mesma versão de mim ou que voltei a ser eu de novo, não posso adiar o imperativo de dar signficado ao dia-a-dia . Não posso perder a chance de melhorar e desfrutar intensamente cada instante. Procurar viver o máximo, nos exíguos anos dessa oportunidade inédita, é a sabedoria do Eclesiastes:

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comida e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se alegrou do que você faz.... Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo árduo trabalho debaixo do sol” (9.7-9).

A próxima oportunidade só se repetirá na curva do infinito, onde as paralelas se encontram. É tempo demais para esperar.

Ricardo Gondim

Um comentário:

Vítor Carvalho Ferolla disse...

O PAVA está fazendo uma Newsletter só para blogueiros e dessa vez é sério.

Para entrar na lista basta me enviar um e-mail com seu Nome, E-mail e Endereço de Blog e Data de Aniversário para:

amigodopava@gmail.com

Obrigado!